A Câmara dos Deputados realizou nesta segunda-feira (20) uma sessão solene no Plenário em homenagem à Campanha Internacional do Outubro Rosa, voltada à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer de mama. A homenagem foi proposta pelas deputadas Benedita da Silva (PT-RJ), Flávia Morais (PDT-GO) e Laura Carneiro (PSD-RJ) e pelo deputado Odair Cunha (PT-MG), e reuniu parlamentares e convidadas que acompanham pacientes no dia a dia.
Sessão solene é homenagem: nenhum projeto foi votado
Antes do conteúdo dos discursos, vale entender o que esse tipo de reunião é e o que ele não é. Sessão solene não delibera. Não houve votação de projeto, não foi criado direito novo, não mudou prazo, faixa etária nem regra de atendimento. É um ato de homenagem, no qual parlamentares e convidados registram posições e fazem cobranças.
Na prática, isso significa que nada no atendimento à mulher passou a funcionar de forma diferente por causa da sessão. O caminho para conseguir exame continua sendo o mesmo da rede pública, descrito no fim desta reportagem.
O que as deputadas cobraram no Plenário
A cobrança mais repetida foi a de que o acesso ao exame não pode depender de quanto a mulher ganha nem de onde ela mora.
Precisamos garantir que todas as mulheres, independentemente da renda ou da região, tenham acesso à mamografia e ao tratamento adequado
A afirmação é da deputada Laura Carneiro (PSD-RJ), uma das autoras da proposta da sessão, que classificou a data como um chamado à ação pela vida.
Outra autora da homenagem defendeu que a mobilização não se encerre com o mês e se converta em política permanente para a saúde da mulher.
O diagnóstico precoce salva vidas, mas é preciso fortalecer a rede pública e investir na prevenção durante todo o ano
A avaliação é da deputada Flávia Morais (PDT-GO).
A deputada Gisela Simona (União-MT) tratou de um ponto anterior ao exame: a informação que não chega a quem mais precisa dela.
Falar sobre o Outubro Rosa é falar de amor, de cuidado e de políticas públicas que salvam vidas. Precisamos fazer com que a informação chegue às mulheres mais vulneráveis, que muitas vezes não conseguem sequer marcar um exame
A declaração é da deputada Gisela Simona (União-MT).
Convidadas: o tratamento não é só o corpo
Entre as convidadas, Joana Jeker, da Associação Recomeçar, falou sobre a importância de a mulher buscar o diagnóstico precoce e manter o cuidado contínuo depois dele. Helena Esteves, do Instituto Oncoguia, cobrou acolhimento e lembrou que o acompanhamento psicológico não é um extra do tratamento.
O tratamento não é só físico, é também emocional, e o apoio psicológico faz parte da cura
A frase é de Helena Esteves, do Instituto Oncoguia.
Desigualdade no acesso: quem espera mais
A deputada Erika Kokay (PT-DF) afirmou que “o câncer de mama é também um tema de justiça social, porque a desigualdade define quem tem acesso ao diagnóstico e quem não tem”. Ela defendeu o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e disse que “a prevenção precisa chegar às mulheres negras, periféricas e do campo, que são as que mais sofrem com o atraso no atendimento”.
O ponto que atravessou os discursos é o intervalo entre uma etapa e outra: da desconfiança ao exame, do exame ao resultado, do resultado ao início do tratamento. É nesse intervalo que a diferença de renda e de endereço aparece.
O que disse o Ministério da Saúde
O diretor do Departamento de Atenção ao Câncer do Ministério da Saúde, José Barreto Campello Carvalheira, afirmou durante a sessão que “o grande desafio do país é garantir que o diagnóstico do câncer de mama aconteça de forma oportuna, com acesso rápido a exames e início imediato do tratamento”.
Diagnóstico oportuno é o termo para isso: não basta o exame existir, ele precisa acontecer a tempo, com resultado e tratamento na sequência. Carvalheira acrescentou que o ministério tem trabalhado para expandir a rede de serviços oncológicos e fortalecer as políticas de prevenção e rastreamento, com atenção especial às regiões Norte e Nordeste. Não foram apresentados na sessão prazo, meta numérica ou cronograma dessa expansão.
Onde a mulher faz o exame na rede pública
O caminho começa na unidade básica de saúde do bairro, o posto onde a moradora já é atendida. É lá que o profissional de saúde avalia o caso, examina as mamas e emite o pedido da mamografia quando ele é indicado. Não é preciso ter plano de saúde nem indicação particular para iniciar esse percurso.
- Porta de entrada: a unidade básica de saúde do seu endereço. O agendamento do exame é feito a partir dela.
- Onde o exame é feito: em serviço que tenha o equipamento de mamografia, que nem sempre é a própria unidade. A unidade informa o local e a data.
- O que levar: documento com foto, cartão do SUS e, se houver, exames e laudos anteriores, que servem de comparação.
- Depois do exame: o resultado volta para a unidade de saúde, que faz o encaminhamento ao serviço especializado quando é necessário. Vale acompanhar essa etapa, porque é nela que a espera costuma se alongar.
Sobre a idade em que o rastreamento começa e o intervalo entre uma mamografia e outra, a sessão não tratou do assunto e nenhum número foi apresentado no Plenário. Por isso, esta reportagem não indica faixa etária nem periodicidade: essa recomendação deve ser confirmada com um profissional de saúde ou na unidade de saúde do município, que segue o protocolo em vigor.
Sinais que não devem esperar a idade do rastreamento
Rastreamento é o exame feito em mulher que não sente nada, para procurar alteração antes do sintoma. Quando já existe um sinal, a lógica muda: a avaliação é imediata, em qualquer idade. Procure a unidade de saúde sem esperar convocação de campanha se notar:
- caroço ou nódulo na mama ou na axila, com ou sem dor;
- mudança no tamanho ou no formato de uma das mamas;
- pele da mama repuxada, com afundamento ou com aspecto de casca de laranja;
- mamilo que afundou ou mudou de posição, ou pele em carne viva ao redor dele;
- saída de líquido pelo mamilo fora do período de amamentação, principalmente com sangue;
- vermelhidão, calor ou inchaço que não passam.
Nenhum desses sinais significa, por si só, que existe câncer: a maioria tem causa benigna. O motivo de procurar atendimento é justamente esclarecer isso com quem pode examinar.
Uma data que já se repetiu em outras sessões
A Campanha Outubro Rosa é celebrada anualmente e busca alertar a sociedade sobre a importância da detecção precoce e do acompanhamento médico regular, apontados pela campanha como as principais formas de reduzir a mortalidade por câncer de mama no Brasil. Detectar cedo não é garantia de cura, mas amplia as opções de tratamento disponíveis para a paciente.
O formato também não é novidade: em outubro do ano anterior, uma sessão especial dedicada à conscientização sobre o câncer de mama já havia sido convocada com o mesmo objetivo, o que ajuda a medir o que muda de um ano para o outro além do discurso.
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