Pai e filho presos por suspeita de receptação de caminhões — Direto Notícias

Pai e filho presos por suspeita de receptação de caminhões

A Polícia Civil do Espírito Santo prendeu um homem de 45 anos e o filho dele, de 26, apontados pela corporação como integrantes de um esquema de receptação e desmanche de caminhões furtados no Estado. As duas prisões ocorreram em municípios diferentes da Grande Vitória: a primeira na terça-feira (09), no bairro Novo Brasil, em Cariacica, e a segunda na sexta-feira (12), no bairro Araçás, em Vila Velha. Os detalhes foram apresentados em coletiva de imprensa nesta terça-feira (16), na Chefatura da Polícia Civil, em Vitória, pela Divisão Especializada de Furtos e Roubos de Veículos (DFRV).

Os dois são investigados. Prisão não é condenação, e a responsabilidade criminal de cada um só se define ao fim do processo.

O caminhão furtado em Águia Branca e o que a polícia não atribuiu a ninguém

A apuração que levou às prisões partiu do furto de um caminhão da Prefeitura Municipal de Águia Branca, no interior do Estado, registrado já em 2025. A informação divulgada pela Polícia Civil não diz quem levou o veículo. O que a corporação atribui aos dois presos é a participação no esquema de receptação e desmanche — o destino das peças depois do furto —, e não a subtração do caminhão. Essa lacuna continua sem dono no material oficial, e nada no relato policial a preenche.

O que a polícia diz sobre cada um dos dois

De acordo com o titular da DFRV, delegado Luiz Gustavo Ximenes, o homem de 45 anos é apontado como líder da organização, já tinha passagens pela polícia por crimes semelhantes e usava tornozeleira eletrônica. Foi nesse contexto que o delegado descreveu um pedido feito ao filho:

Ele solicitava que o filho, de 26 anos, assumisse a responsabilidade pela prática de receptação, uma vez que, à época, não possuía antecedentes criminais

O relato é do delegado Luiz Gustavo Ximenes, titular da DFRV.

A polícia trata as duas situações separadamente, e é assim que elas devem ser lidas: a fala acima descreve uma conduta atribuída ao pai. Sobre o filho, o mesmo delegado afirmou que o homem de 26 anos também tem passagens pelo mesmo crime e que os inquéritos anteriores já foram concluídos. Ser parente de um investigado não é, por si, imputação de nada — responsabilidade criminal não se herda, e cada conduta é apurada isoladamente.

Passagem pela polícia não é o mesmo que antecedente criminal

Os dois termos aparecem no relato policial e não significam a mesma coisa. Passagem é o registro de que a pessoa já respondeu a uma ocorrência ou a um inquérito — pode terminar em arquivamento, em absolvição ou nem virar processo. Antecedente criminal, no sentido estrito, pressupõe condenação já definitiva, sem mais recurso possível. Por isso alguém pode ter passagens e, ao mesmo tempo, não ter antecedentes: foi exatamente essa a situação descrita pelo delegado a respeito do filho, à época dos fatos apurados.

As 8 prisões de 2024 e a operação Tolerância Zero

As investigações começaram em 2024, segundo a DFRV, e passaram por uma série de ações conjuntas.

Foram realizadas diversas forças-tarefas para combater essa organização criminosa. Por meio da operação ‘Tolerância Zero’, conseguimos prender diversos líderes envolvidos nesse esquema

A explicação é do delegado Luiz Gustavo Ximenes.

Ao longo de 2024, informou a corporação, 8 pessoas foram presas nessas operações, o que contribuiu para a interrupção da subtração de veículos automotores. A continuidade do trabalho é que teria levado, já em 2025, ao caso do caminhão de Águia Branca.

A queda de 14%, e quem apresentou o número

O chefe da DFRV, delegado Marco Aurélio Oliveira, apresentou na coletiva o indicador de criminalidade ligada a veículos:

Neste ano, houve uma redução de 14% nos furtos e roubos de veículos. Isso é fruto de um trabalho integrado, que resultou na prisão dos líderes dessas organizações criminosas e na diminuição da subtração de caminhões

A avaliação é do delegado Marco Aurélio Oliveira, chefe da DFRV.

Vale registrar a condição do dado: a queda de 14% em 2025 é um número apresentado pela própria Polícia Civil, referente ao Estado. A divulgação não informa a base de comparação, o total de veículos envolvido nem o recorte por município.

Onde iam parar as peças

Durante a apuração, os investigadores chegaram ao destino das peças dos caminhões desmontados.

Durante as investigações, identificamos um ferro-velho para onde as peças do caminhão, já desmontadas, eram encaminhadas para posterior comercialização

A informação é do delegado Luiz Gustavo Ximenes.

Esse é o ponto em que um crime patrimonial encosta no consumidor comum. Um veículo desmontado vira dezenas de itens vendidos separadamente — porta, câmbio, farol, motor, capô —, o que dificulta o rastreamento e faz a peça reaparecer no balcão como se fosse mercadoria usada qualquer. As investigações seguem em andamento para identificar outros envolvidos.

O que é receptação, mesmo para quem não furtou nada

Receptação é adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar coisa que a pessoa sabe ser produto de crime — e também influir para que outra pessoa a compre ou receba. Não é preciso ter participado do furto para responder. Quem compra sabendo da origem responde por conduta própria, e a punição é mais severa quando a compra e a revenda acontecem no exercício de atividade comercial, ainda que irregular. Existe ainda a forma culposa, que alcança quem compra em condições que, pelo preço muito abaixo do mercado ou pela natureza da oferta, já deveriam ter levantado suspeita.

Como conferir a procedência de uma peça usada antes de comprar

  • Exija nota fiscal com a peça descrita. A nota precisa identificar o item, e não trazer apenas a expressão peças diversas. É ela que demonstra boa-fé se a origem for questionada depois.
  • Compre em estabelecimento formal. Endereço fixo, CNPJ ativo e emissão de documento fiscal. Venda por aplicativo de mensagem, sem recibo e com entrega em local combinado na hora, é o cenário de maior risco.
  • Confira as numerações. Motor, câmbio e alguns conjuntos têm gravação própria. Marcas raspadas, lixadas, remarcadas ou cobertas de tinta nova são motivo para desistir da compra.
  • Peça a origem do veículo desmontado. O desmanche regular trabalha com veículo baixado e documentado, e consegue dizer de qual carro ou caminhão saiu a peça. Quem não sabe responder isso já é um sinal.
  • Desconfie do preço bom demais. Uma peça cara ofertada por uma fração do valor de mercado costuma cobrar essa diferença de outra forma.
  • Consulte a situação do veículo de origem. Com placa e chassi é possível verificar, no órgão estadual de trânsito, se existe registro de furto ou roubo e se o veículo foi regularmente baixado.
  • Guarde tudo. Nota, anúncio, conversa e dados do vendedor. Se a peça for apreendida, esse conjunto é o que separa o comprador enganado de quem sabia da origem.

Canais para denunciar

Quem presenciar desmanche clandestino, movimentação suspeita de veículos pesados em galpões e ferros-velhos ou souber de venda de peças de origem duvidosa pode acionar:

  • 190 — emergência policial, para situação em andamento ou flagrante.
  • 181 — Disque-Denúncia, para informação que não exige atendimento imediato. A ligação é gratuita, o sigilo é garantido e não é preciso se identificar.

Placa, cor, modelo, endereço, horário em que a movimentação se repete e o tipo de carga ou peça observada aumentam bastante o aproveitamento da denúncia.

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