Abandono de animais é urbano em 82,9% dos casos, diz pesquisa — Direto Notícias

Abandono de animais é urbano em 82,9% dos casos, diz pesquisa

Um levantamento sobre abandono de cães e gatos divulgado no fim de 2025 concluiu que 82,9% dos casos registrados aconteceram em áreas urbanas, principalmente em vias públicas e outros espaços das cidades. Os 17,2% restantes ocorreram em áreas rurais, recorte que também alcança municípios de pequeno e médio porte, onde a estrutura de acolhimento costuma ser mais limitada.

O número vem da Pesquisa Cenário de Abandono de Animais, feita pelo quarto ano consecutivo pelo Cobasi Cuida — programa social de uma empresa do setor pet — em parceria com ONGs e protetores independentes, dentro das ações do Dezembro Verde, campanha de conscientização contra o abandono.

O que o percentual mede — e o que o material não informa

Antes de repetir o número, vale entender de onde ele sai. Os 82,9% descrevem os casos acompanhados pela rede que participou da pesquisa: as ONGs e os protetores parceiros do programa. Não são registros de um cadastro público nacional nem resultado de amostra sorteada para representar o país.

O material divulgado não informa a metodologia. Não diz quantas ONGs e quantos protetores enviaram dados, em quais estados eles atuam, em que período a coleta foi feita nem como cada ocorrência foi classificada como urbana ou rural. Sem esses itens, o percentual não sustenta leitura de estatística nacional consolidada — vale como retrato do que essa rede viu, e é assim que ele deve ser lido — inclusive por quem acompanha o tema na própria cidade.

A ordem de grandeza dos totais ajuda a dimensionar: a pesquisa contabilizou 5.325 entradas em abrigos e lares temporários no primeiro semestre de 2025. É o volume de uma rede de parceiros, não o volume de um país.

Por que a concentração urbana sobrecarrega quem acolhe

Para a gerente do Cobasi Cuida, Daniela Bochi, os dados indicam que o abandono deixou de ser problema pontual e passou a refletir falhas estruturais das cidades.

Quando o abandono se concentra nos centros urbanos, ele pressiona ainda mais ONGs e protetores, que já atuam no limite, especialmente no interior, onde há menos apoio do poder público

A avaliação é de Daniela Bochi, gerente do Cobasi Cuida.

Filhotes são 31% dos resgates, e a conta cresce sozinha

O perfil dos animais resgatados liga o abandono à falta de controle reprodutivo. Segundo a pesquisa, 31% dos resgates envolvem ninhadas de filhotes. Uma fêmea não castrada não gera um animal, gera uma ninhada — e cada ninhada acelera o crescimento do número de acolhidos e aumenta os custos com alimentação, vacinação e cuidados básicos.

Outros 10% dos resgates correspondem a animais com necessidades especiais: doenças crônicas, idade avançada ou deficiências físicas. Esse grupo exige cuidado contínuo e costuma permanecer mais tempo em abrigos ou lares temporários, ocupando vaga que não gira. Entre os resgatados, os cães respondem por 54% e os gatos por 32%, padrão que a pesquisa observa tanto em grandes centros quanto em cidades do interior, onde o ritmo de adoção tende a ser mais lento.

Entram mais animais do que saem: 5.325 contra 1.685

O desequilíbrio entre acolhimento e adoção é o dado que explica a fila. No primeiro semestre de 2025, a rede registrou 5.325 entradas em abrigos e lares temporários e 1.685 adoções — média de uma adoção para cada 3,16 animais acolhidos.

E o peso não está dividido: 84,7% dessas entradas ocorrem em abrigos privados, mantidos por ONGs e protetores independentes. Na prática, significa que a conta do abandono é paga por quem acolhe com recurso próprio, sobretudo onde não há política pública estruturada de acolhimento animal. A pesquisa também cita estimativas — sem indicar de onde vêm — de que cerca de 4,8 milhões de cães e gatos vivam em situação de vulnerabilidade no Brasil, dos quais aproximadamente 201 mil estariam sob cuidado direto de ONGs e protetores.

O que fazer em vez de abandonar

Quem chega ao ponto de considerar o abandono costuma estar diante de ninhada inesperada, mudança, custo de tratamento ou falta de tempo. As saídas que a própria pesquisa aponta como caminho de redução do problema são estas:

  • Castrar antes que a ninhada exista. A castração em larga escala é a primeira medida apontada pelo levantamento, porque age na causa dos 31% de resgates de filhotes, e não no efeito.
  • Procurar um lar temporário. É a figura que a pesquisa contabiliza ao lado dos abrigos: alguém que acolhe por um período determinado, enquanto o animal espera adoção definitiva. Serve para quem precisa de uma solução de meses, não de descarte.
  • Falar com ONGs e protetores independentes da região. São eles que recebem 84,7% das entradas e que conhecem a fila real. Chegar até eles antes de deixar o animal na rua é o que separa um acolhimento de um resgate.
  • Encaminhar para adoção responsável. Repassar o animal com informação sobre saúde, castração e histórico é diferente de doar para quem aparecer primeiro — e reduz a chance de o mesmo animal voltar para a fila meses depois.
  • Cobrar e usar programas públicos. Campanhas educativas permanentes e políticas contínuas aparecem no levantamento como parte da solução, ao lado da castração.

O que o material diz sobre punição — e o que ele não diz

Aqui cabe uma ressalva honesta ao leitor. A pesquisa trata o abandono como problema a ser enfrentado e defende políticas públicas mais rigorosas de combate ao abandono, incluindo fiscalização. Mas o material divulgado não cita legislação alguma: não indica qual norma trata do abandono de animais, qual é a pena prevista, a quem se deve denunciar nem que providência a denúncia gera.

Por isso, este texto não afirma o que a lei prevê. O que está no levantamento é o diagnóstico e a recomendação de endurecer a política pública — o enquadramento legal precisa ser buscado junto ao órgão de proteção animal do município, que também é o caminho para saber onde registrar uma denúncia. A pesquisa registra ainda que, em municípios do interior, o abandono é muitas vezes naturalizado e pouco denunciado.

Por que insistir no dado

A leitura que a coordenação da pesquisa faz do próprio trabalho é de que o número serve para mudar prioridade:

Dar visibilidade a dados consistentes é essencial para transformar essa realidade. Informação qualificada fortalece a prevenção, incentiva a adoção responsável e ajuda a pressionar por políticas públicas mais eficazes, inclusive fora dos grandes centros

A conclusão é de Daniela Bochi, gerente do Cobasi Cuida.

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