Andrew Bosworth não é conhecido por dramatizar. Como Diretor de Tecnologia da Meta e líder do Reality Labs, ele já navegou por diversos momentos de turbulência. Mas a convocação que ele fez para 14 de janeiro é diferente de tudo que a divisão já viu.
Ele chamou a reunião geral de “a mais importante do ano”. E fez algo raro: exigiu presença física. Gerentes foram instruídos a dizer aos times para “largar o que estiverem fazendo” e comparecer pessoalmente.
Quando uma empresa que abraçou o trabalho remoto insiste em presença física, o recado é claro: o que será dito não pode vazar descontroladamente pelas telas do Zoom.
Os Números Que Ninguém Consegue Mais Ignorar
O Reality Labs — que concentra os esforços da Meta em realidade virtual, realidade aumentada, dispositivos vestíveis e robótica — acumulou mais de US$ 70 bilhões em prejuízos desde 2020.
Não, você não leu errado. Setenta bilhões de dólares.
E agora, segundo fontes internas ouvidas pelo Business Insider, a divisão enfrenta possíveis cortes de até 30% da operação.
Para contextualizar: o Reality Labs tem milhares de funcionários. Um corte dessa magnitude não é ajuste — é reestruturação profunda.
A Aposta Que Ainda Não Pagou (e Pode Não Pagar Tão Cedo)
A visão de Mark Zuckerberg para o metaverso nunca foi secreta. Ele apostou bilhões na crença de que realidade virtual e aumentada seriam a próxima grande plataforma computacional — o sucessor natural dos smartphones.
O problema é que o mercado não acompanhou a aposta na mesma velocidade.
Os headsets Quest vendem, sim. Mas não nas quantidades necessárias para justificar o investimento maciço. Os óculos Ray-Ban Meta tiveram boa recepção, mas ainda são nicho. E o metaverso corporativo, aquele onde reuniões aconteceriam em ambientes virtuais imersivos, simplesmente não decolou.
Enquanto isso, a IA generativa — tecnologia que a Meta também domina, mas onde não estava inicialmente concentrada — emergiu como o vetor de transformação mais urgente e monetizável da indústria tech.
O Timing Não Poderia Ser Pior (ou Melhor, Dependendo da Perspectiva)
A reunião acontece em um momento particularmente delicado:
Pressão dos acionistas: Investidores estão cada vez menos pacientes com divisões que sangram bilhões sem previsão clara de retorno. A Meta precisa demonstrar disciplina de capital.
Competição acirrada em IA: Enquanto o Reality Labs queima recursos, OpenAI, Anthropic e Google disputam cada dólar de investimento corporativo em IA. A Meta não pode se dar ao luxo de ficar para trás nessa corrida.
Mudança na narrativa do Vale do Silício: A euforia com metaverso esfriou drasticamente. Agora, a conversa é sobre modelos de linguagem, agentes autônomos e automação de processos. Realidade virtual virou “aquele projeto caro que ainda não deu certo”.
Três Cenários Possíveis Para a Reunião
Cenário 1 — Reestruturação Radical: Bosworth anuncia cortes profundos, fechamento de linhas de produto menos promissoras (robótica emergente, provavelmente), e concentração de recursos em headsets Quest e óculos AR de próxima geração.
Cenário 2 — Pivô Estratégico: A divisão passa por redefinição de missão, integrando mais profundamente IA aos produtos de realidade mista, e adiando promessas mais ambiciosas do metaverso para um horizonte de 10+ anos.
Cenário 3 — Validação Através do Sofrimento: Bosworth apresenta um roadmap que justifica os investimentos até aqui, mostra produtos em desenvolvimento avançado que mudariam a equação, e pede mais paciência — mas com metas e prazos concretos pela primeira vez.
O mais provável? Alguma combinação dos três, pesando mais para os dois primeiros.
O Que Isso Diz Sobre Apostas de Longo Prazo em Tech
A saga do Reality Labs é um estudo de caso fascinante sobre inovação de fronteira e alocação de capital.
Por um lado, mudanças tecnológicas transformacionais realmente exigem investimento massivo e sustentado antes de qualquer retorno. O iPhone não surgiu em um trimestre. A AWS da Amazon levou anos queimando dinheiro antes de se tornar a máquina de lucro que é hoje.
Por outro, existe uma linha tênue entre “visão de longo prazo” e “teimosia cara”. E US$ 70 bilhões em prejuízos sem tração significativa de mercado começa a parecer mais a segunda opção.
O dilema não é simples: se a Meta cortar muito, pode perder a corrida para quem eventualmente acertar o produto certo em realidade mista. Mas se continuar queimando bilhões sem resultado, pode comprometer sua capacidade de competir nas áreas que realmente importam agora — especialmente IA.
A Pergunta Que Ninguém Está Fazendo (Mas Deveria)
E se o Reality Labs simplesmente estiver certo sobre a visão, mas errado sobre o timing?
Realidade aumentada ubíqua pode realmente ser o futuro da computação. Mas “futuro” pode significar 2035, não 2026. E empresas públicas com acionistas impacientes raramente conseguem sustentar apostas de horizonte tão longo quando elas drenam tanto capital.
Essa é a tragédia das inovações transformacionais: elas frequentemente exigem mais paciência e recursos do que estruturas corporativas modernas conseguem fornecer.
O Que Observar Após a Reunião
Se informações vazarem (e sempre vazam), preste atenção em:
- Quantos produtos serão descontinuados — isso indica o quão profunda é a reestruturação
- Se há mudança no horizonte temporal das promessas — “próximos anos” virando “próxima década” é admissão de que a aposta não pagará tão cedo
- Como a IA será integrada à narrativa — pivôs geralmente vêm com novas palavras-chave
- Quais líderes seniores permanecem após os cortes — mudanças no topo indicam mudança de estratégia, não apenas de orçamento
E principalmente: se Bosworth e Zuckerberg mantêm a retórica de convicção inabalável ou se começam a modular expectativas.
A verdade desconfortável: Inovação de fronteira é cara, incerta e raramente segue os cronogramas que gostaríamos. O Reality Labs pode estar construindo o futuro. Mas pode também estar apenas queimando o presente.
A reunião de 14 de janeiro não vai resolver essa ambiguidade. Mas vai mostrar se a Meta ainda tem estômago — e recursos — para continuar apostando nela.
E para os milhares de funcionários que vão “largar o que estiverem fazendo” para estar lá, a resposta determinará não apenas o futuro da divisão, mas suas próprias carreiras nos próximos meses.
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