Três pessoas investigadas por aplicar o golpe do bilhete premiado contra idosos no Espírito Santo foram presas em Vitória. A ação é da Delegacia Especializada de Crimes de Defraudações e Falsificações (Defa), da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), e mira um esquema que causou prejuízo de R$ 202 mil a pelo menos três vítimas, todas com mais de 70 anos, em Vitória e em Vila Velha.
Foram presos no dia 21, no bairro Jardim da Penha, um homem de 36 anos e duas mulheres, de 24 e de 37 anos. Eles são investigados por integrarem uma organização criminosa que atuou no Estado em novembro de 2025 e voltou em janeiro para repetir o mesmo tipo de abordagem. A Defa é subordinada ao Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic).
Três boletins de ocorrência e um carro levaram a polícia ao grupo
A apuração começou pelo registro das próprias vítimas. A partir de três boletins de ocorrência, os policiais cruzaram os dados, chegaram ao veículo usado nas abordagens e identificaram quem estava por trás delas. O levantamento mostrou que o grupo era maior do que os três presos e trabalhava em turnos.
Identificamos outros três autores participando do golpe em um esquema de rodízio, com alternância de equipes. A partir disso, ficou caracterizada a atuação de uma organização criminosa.
A explicação é do delegado Jonathan Lana, adjunto da Defa.
Com a investigação em andamento, os suspeitos passaram a ser monitorados. Quando a Defa identificou que o grupo havia retornado ao Espírito Santo, em janeiro, repetindo o roteiro de novembro, veio a abordagem policial.
Assim que tomamos conhecimento, realizamos a abordagem e localizamos um documento falso utilizado na prática criminosa, além de um aparelho telefônico empregado em um dos golpes.
O detalhamento é do delegado Jonathan Lana.
O passo a passo do golpe, contado pela investigação
O golpe do bilhete premiado não depende de descuido de quem é abordado: ele é montado como uma peça de teatro, com personagens ensaiados, tempo de conversa e uma história que se confirma sozinha. A abordagem começa por um gesto banal — um pedido de informação na rua. A responsabilidade pelo prejuízo é de quem monta a encenação.
Segundo o delegado Jonathan Lana, a ação era dividida em fases. Na primeira, entra em cena a suposta moradora do interior.
De acordo com a investigação, o golpe era aplicado em etapas. Na fase inicial, uma mulher, aparentando ser religiosa e oriunda do interior, abordava a vítima utilizando nome falso e perguntava sobre a localização de um escritório de advocacia. Em seguida, um segundo estelionatário se aproximava e passava a conversar de forma amistosa com ambas.
A descrição é do delegado Jonathan Lana.
Na sequência, a conversa levava ao suposto prêmio. A primeira pessoa dizia ter um bilhete premiado e alegava ter ido à capital para resolver a situação. A segunda se apresentava como médico e oferecia ajuda, dizendo conhecer um funcionário de um banco federal. Um terceiro integrante entrava por telefone e confirmava a mentira: o bilhete valeria R$ 3 milhões e, por falta de documentação, seriam necessárias duas testemunhas para liberar o valor. É a peça central da fraude — a confirmação vem de um número que os próprios suspeitos controlam.
Convencida, a vítima era induzida a entrar no veículo dos suspeitos, dando início à segunda etapa do golpe. Durante o trajeto, os criminosos reforçavam a narrativa, afirmando que o prêmio teria origem no jogo do bicho e que, por motivos religiosos, a suposta ganhadora não poderia receber o dinheiro, sugerindo que a vítima ficasse com o valor.
O relato é do delegado Jonathan Lana.
Dentro do carro, a vítima era levada a entregar um bem ou uma quantia em dinheiro como suposta garantia da transação, sob a promessa de receber de volta junto com o prêmio. Depois do saque, vinha a saída de cena.
Na última etapa, após o saque dos valores, os golpistas criavam uma justificativa para o atraso no pagamento, afirmando que o dinheiro seria liberado em até dois dias após procedimentos jurídicos. Em alguns casos, a suspeita simulava uma distração, como pedir à vítima para comprar um absorvente, e o grupo fugia do local.
O fecho é do delegado Jonathan Lana.
Prejuízos de R$ 3 mil a R$ 129 mil em três abordagens
As três vítimas identificadas até agora têm entre 73 e 84 anos. Uma delas perdeu R$ 3 mil; outra teve prejuízo de R$ 70 mil; e a terceira chegou a perder R$ 129 mil. O primeiro caso foi registrado em novembro, no bairro Jardim da Penha, em Vitória. Os outros dois ocorreram no bairro Praia da Costa, em Vila Velha.
A soma dos três episódios chega aos R$ 202 mil apurados pela Defa. Os valores mostram que a quantia pedida varia conforme a conversa: não existe um preço fixo do golpe, e sim o que os suspeitos conseguem obter naquele dia.
Os sinais que denunciam a abordagem antes do saque
Todo o roteiro descrito pela investigação tem marcas que se repetem. Elas ajudam a interromper a conversa antes da parte mais cara:
- Prêmio que aparece na rua. Nenhum sorteio, loteria ou premiação legítima é resolvido em conversa de calçada, com quem acabou de pedir uma informação.
- Um desconhecido puxa assunto e outro entra logo depois. A dupla que se comporta como se não se conhecesse é parte da encenação.
- Confirmação por telefone. Quando quem confirma a história é um número passado pelo próprio interlocutor, não há confirmação nenhuma.
- Profissão dita, nunca comprovada. Médico, advogado ou funcionário de banco que se apresenta na rua e não mostra documento.
- Pedido de dinheiro como garantia. Não existe prêmio que exija depósito, entrega de valores, joias ou saque prévio para ser liberado.
- Pressa e convite para entrar no carro. Deslocamento imediato, com urgência, para resolver algo que poderia esperar.
- Prazo de dois dias. A promessa de pagamento futuro serve para ganhar tempo de fuga.
O que fazer nas primeiras horas depois do golpe
As horas seguintes são as que mais valem. Quanto antes o dinheiro for rastreado, maior a chance de bloquear valores e de reunir provas:
- Ligue para o banco imediatamente e comunique a fraude. Peça o registro da contestação e a checagem de saques, transferências e empréstimos feitos no mesmo dia.
- Registre boletim de ocorrência na delegacia, mesmo sem saber o nome de ninguém. Foi o cruzamento de três boletins que permitiu à Defa chegar ao veículo e ao grupo.
- Guarde tudo: comprovantes de saque, extrato do dia, horários, o número que ligou, a descrição das pessoas, o modelo e a cor do carro e o ponto exato da abordagem.
- Peça as imagens. Câmeras de agência bancária, de comércio e de portaria costumam apagar gravações em poucos dias; solicite a preservação o quanto antes.
- Em situação em andamento, ligue 190. Se o contato já terminou e você tem informação útil sobre o grupo, use o Disque-Denúncia, no 181, que aceita denúncia anônima.
Como conversar sobre isso com um parente idoso
A conversa funciona melhor quando não vira acusação. Quem é abordado por esse tipo de esquema enfrenta uma equipe treinada, com divisão de funções e uma história ensaiada — e o constrangimento de contar é justamente o que mantém o golpe funcionando e atrasa o boletim de ocorrência.
- Combine uma regra simples e sem exceção: nenhuma decisão sobre dinheiro é tomada na rua, com quem apareceu naquele momento.
- Estabeleça um telefonema de segurança: antes de qualquer saque fora da rotina, ligar para uma pessoa de confiança da família. O esquema trabalha com pressa e não sobrevive a uma pausa.
- Deixe claro que contar cedo não gera bronca. Quando a família reage com repreensão, a próxima pessoa abordada demora mais para avisar.
- Reforce que ninguém precisa dar explicação a estranho na rua sobre onde mora, quanto tem no banco ou aonde está indo.
Indiciamento e continuidade das investigações
Os três detidos foram indiciados pelos crimes de organização criminosa e estelionato. Eles respondem como investigados e são presumidos inocentes até decisão judicial definitiva. As apurações continuam com o objetivo de identificar e responsabilizar outros envolvidos — a própria investigação aponta outros três autores atuando no esquema de rodízio.
A Polícia Civil informou que outras informações seriam repassadas em coletiva de imprensa na quinta-feira (29), na Chefatura da Polícia Civil, em Vitória.
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