Imagem de divulgação do Seminário Estadual do Programa Sucesso Escolar, realizado pela Sedu em Vitória

Distorção idade-série: seminário da Sedu reuniu 57 escolas

O primeiro Seminário Estadual do Programa Sucesso Escolar levou a Vitória, na quarta-feira, 2 de outubro de 2024, escolas e equipes pedagógicas da rede estadual de ensino para um dia de formação e alinhamento sobre a distorção idade-série — o descompasso entre a idade do estudante e o ano escolar em que ele está matriculado. Quem convocou foi a Secretaria da Educação (Sedu), em parceria com três organizações de fora do governo estadual. O que se cumpriu naquele dia foi programação de palestra e painéis: o comunicado oficial não anuncia nova escola atendida, meta, prazo, orçamento nem mudança de regra. O portal publicou o texto em 5 de outubro de 2024, três dias depois — a página nunca chamou para algo por vir, e sim para um dia que já havia terminado.

Os números do material são de participação, e eles fecham entre si: 57 escolas de Ensino Fundamental — anos finais estiveram no seminário, sendo 21 que ofertam o programa e 36 convidadas. Vale ler o que essa conta mede. São as escolas presentes no evento, não o retrato da rede: quantas unidades oferecem o Programa Sucesso Escolar no Espírito Santo, em quais municípios e desde quando, a Sedu não informa. Também não diz se as 36 convidadas passarão a oferecê-lo.

A distorção idade-série abre o texto e sai dele sem um número

A prevenção da distorção idade-série é apresentada como a razão do encontro, e sobre ela o comunicado não traz um dado sequer: nenhum percentual da rede estadual, nenhuma comparação entre anos, nenhum recorte por regional ou por município. O termo também não é definido — quantos anos de defasagem contam como distorção, quem faz a medição e com que frequência ficam fora dos quatro parágrafos do texto. Quem procura ali o tamanho do problema no Espírito Santo sai sem ele.

O que muda na escola que oferta o programa

Essa é a pergunta que o texto oficial não responde. Ele trata o Programa Sucesso Escolar como assunto já conhecido do leitor e não descreve uma única prática: não diz se muda a turma, o material didático, a carga horária, a forma de avaliar ou o acompanhamento individual do estudante com defasagem. Não informa quando o programa começou, quem o financia nem quanto custa. E a sigla entra sem apresentação: PSE passa a substituir o nome completo no meio do comunicado, sem que ele explique a abreviação.

TSE, aqui, não é o tribunal eleitoral

A Sedu lista três parceiros de fora do governo estadual: o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Trajetórias de Sucesso Escolar (TSE) e Roda Educativa. A sigla TSE, aqui, é a do programa — e não a da instituição federal que costuma levar essas mesmas três letras. O material não descreve o que cada parceiro entrega — dinheiro, metodologia, formação de professores, material —, não diz se existe contrato, convênio ou termo assinado, e não informa por quanto tempo a parceria vale.

Do lado do Estado, o encontro saiu da Subsecretaria de Educação Básica e Profissional (SEEB), por meio da Gerência de Educação Infantil e Ensino Fundamental (GEIEF). Foram chamados professores, supervisores escolares que acompanham as escolas com o programa, coordenadores pedagógicos, pedagogos e assessores pedagógicos das Superintendências Regionais de Educação (SREs) — as estruturas regionais da secretaria, de onde vieram os assessores pedagógicos convocados para o seminário. É público de rede: nada no material indica presença de estudantes ou de responsáveis.

Quatro títulos de programação, nenhuma fala registrada

A agenda divulgada tem quatro peças, e os nomes delas são títulos de evento, não frases ditas por alguém: o painel Experiências com PSE, a palestra Reflexões e ações em busca de trajetórias de sucesso escolar e os painéis O papel estratégico da gestão escolar para a construção de trajetórias de sucesso e Planejamento docente ajustado às necessidades e aos potenciais dos estudantes no PSE. Ninguém é identificado como palestrante, mediador ou expositor, e o comunicado não registra a fala de participante algum — nem de organizador, nem de professor, nem de gestor de escola.

O evento também troca de nome dentro do próprio comunicado: é Seminário Estadual do Programa Sucesso Escolar na abertura e I Seminário do PSE no último parágrafo. O algarismo romano é o dado mais útil dos dois, porque marca fase: era a primeira edição, e a secretaria não marca data para a seguinte.

As outras frentes da rede estadual naquele semestre

O atraso escolar não era a única frente que a Sedu mantinha em 2024, e as vizinhas deixaram registro público. Menos de um mês antes, em 7 de setembro, uma equipe da Secretaria de Educação de Minas Gerais veio conhecer as ações capixabas de procura por estudantes que pararam de frequentar as aulas — agenda cumprida antes desta, e que o comunicado do seminário não relaciona com ele. E em 31 de agosto de 2024 os resultados da segunda Avaliação de Monitoramento da Aprendizagem foram liberados para consulta apenas dentro da rede estadual, numa medição que alcança o 8º e o 9º anos do Ensino Fundamental, a mesma etapa das escolas presentes no seminário.

Um encontro sobre defasagem escolar sem um dado de defasagem escolar

  • O tamanho da distorção idade-série na rede estadual. Nenhum percentual, nenhum total de estudantes, nenhuma comparação com anos anteriores.
  • Quantas escolas ofertam o programa no Espírito Santo. O 21 conta presença no evento; a rede inteira não é quantificada.
  • Quais escolas e quais municípios. A única cidade nomeada é Vitória, onde o seminário ocorreu.
  • Quantas pessoas participaram. A contagem do material é de escolas, não de gente na sala.
  • O que o programa faz. Nenhuma prática pedagógica é descrita.
  • Custo e origem do dinheiro. Nenhuma cifra, nenhum orçamento, nenhum repasse.
  • O papel de cada parceiro e a duração da parceria. UNICEF, Trajetórias de Sucesso Escolar e Roda Educativa são nomeados duas vezes e descritos nenhuma.
  • Resultado nas 21 escolas que já ofertam. Não há indicador de antes e depois.
  • A segunda edição do seminário. Sem data anunciada.

Quem não aparece no comunicado

O texto é assinado pela secretaria que organizou o encontro, e ela é a única voz nele. Não há avaliação dos professores e supervisores que passaram o dia no seminário, nem das direções das 21 escolas que já operam o programa, nem de quem estuda em turma com defasagem de idade, nem das famílias desses estudantes. Isso não indica discordância de ninguém: indica até onde vai um comunicado de assessoria, que registra a agenda do órgão e encerra. Esta reportagem foi escrita a partir desse material, sem apuração independente junto às escolas citadas.

Como a família descobre se a escola do filho tem o programa

O comunicado não publica lista de escolas, endereço eletrônico, telefone ou formulário de consulta sobre o Programa Sucesso Escolar — nenhum canal específico foi divulgado. A pergunta de quem tem filho nos anos finais do Ensino Fundamental — a minha escola está entre as 21? — encontra no material apenas duas portas: a direção da própria unidade e a Superintendência Regional de Educação que a supervisiona. São as duas instâncias que o texto oficial aponta como responsáveis por acompanhar o programa, e nenhuma delas tem contato divulgado ali.

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