O Curso Básico de Investigação de Homicídios foi realizado na sede da Escola de Serviço Público do Espírito Santo (Esesp), em Vitória, entre a manhã de segunda-feira (05) e a sexta-feira (09) de maio de 2025. Promoveram o curso de investigação de homicídios a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Academia de Polícia Civil do Espírito Santo (Acadepol), e a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), com apoio da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp). Foram 40 horas de aulas, divididas em duas turmas de 31 alunos, com 62 participantes ao todo.
As aulas já haviam se encerrado quando este texto foi publicado. Não se trata de inscrição aberta nem de turma em andamento: é o relato de uma semana de formação que terminou numa sexta-feira, e o comunicado oficial que o originou descreve o que foi feito em sala, não o que resultou disso.
Os verbos da nota descrevem aula dada, não diploma entregue
Vale ler o vocabulário que o comunicado escolheu. Ele diz que os órgãos promoveram o curso, que as aulas foram ministradas e terminaram, que a capacitação teve como objetivo qualificar policiais civis, que o conteúdo seguiu uma referência curricular e que a semana abordou temas de investigação. Todos esses verbos narram uma atividade que aconteceu.
Nenhum narra desfecho. As palavras formou, certificou, diplomou, aprovou e avaliou não aparecem uma única vez no material. A diferença é prática: uma capacitação de 40 horas pode encerrar com prova, com exigência de frequência mínima e com certificado emitido pela academia que a organizou, ou pode encerrar simplesmente no último dia de aula. O texto oficial não diz qual dos dois casos é este — e, sem isso, não há como afirmar que alguém se formou, nem quantos dos inscritos cumpriram as 40 horas até o fim.
62 conta quem sentou na sala — não vaga oferecida nem policial certificado
O número fecha o comunicado e vem de uma conta que a própria PCES apresenta: duas turmas, 31 alunos em cada uma, 62 participantes no total. É contagem de gente matriculada. Não é o número de vagas abertas — a nota não informa quantas foram oferecidas, nem se houve mais candidatos do que lugares — e não é o número de pessoas habilitadas ao fim da semana.
Sobre quem eram esses 62, o material informa as funções e para por aí: participaram delegados, agentes, investigadores, escrivães e Oficiais Investigadores de Polícia (OIP). Quanto à procedência, o comunicado usa uma fórmula aberta — diversos estados — e nada mais. Quantos estados eram, quais eram e quantos dos 62 eram do Espírito Santo, o texto não diz. Também não há divisão por função: não se sabe quantos delegados, quantos escrivães ou quantos agentes estavam ali.
Esse ponto merece atenção porque o título com que a matéria foi publicada afirma mais do que o comunicado sustenta. Ele fala em policiais civis de todo País; o corpo da nota fala em diversos estados, o que não é a mesma extensão. E o único estado de origem nomeado entre os participantes é Rondônia — o Paraná aparece no material como origem do professor convidado, não de aluno.
O mesmo 31 aparece duas vezes, medindo coisas diferentes
Quem ler o comunicado inteiro vai encontrar o algarismo 31 em dois lugares, com significados que nada têm em comum. Num deles, 31 é o número de alunos por turma. No outro, 31 é o número de dias do mês de março, dentro do bloco de estatística criminal que a nota intercala no meio do texto. Não há relação entre os dois, e a coincidência não sugere nenhuma.
Os números citados são anteriores ao curso de investigação de homicídios
Entre a abertura e as falas, o comunicado insere um bloco de dados atribuído à Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social: o Espírito Santo encerrou março com 58 assassinatos em 31 dias, apresentados como o menor número da série histórica e como o menor desde 1996; e o primeiro trimestre somou 199 mortes violentas intencionais, ante 231 registros no intervalo equivalente de 2024, uma redução que o órgão apresenta como 13,9%.
Dois cuidados de leitura acompanham esse bloco. O primeiro é de calendário: todos esses números são de janeiro a março, e o curso ocorreu em maio. Eles descrevem o cenário que antecedeu as aulas, não efeito delas. Ainda assim, a nota emenda a estatística a uma frase própria, segundo a qual aquele resultado confirmaria o peso do treinamento permanente e da qualificação de quem investiga. Essa costura é do texto oficial, e nada no material a sustenta com medida: não há indicador de casos elucidados, de tempo médio de investigação nem de taxa de resolução — antes ou depois de qualquer curso.
O segundo cuidado é de unidade. O dado de março conta assassinatos, chamados de homicídios no mesmo parágrafo; o dado do trimestre conta mortes violentas intencionais, rótulo mais largo. São recortes diferentes, a nota não converte um no outro e não explica o que cada rótulo abrange. Some-se que o resultado de março é chamado de menor da série histórica sem que o comunicado informe em que ano essa série começa — a menção a 1996 sugere um ponto de partida que o texto nunca declara.
Quem acompanha essa contabilidade encontra os marcos anteriores no próprio acervo. Dez dias antes desta semana de aulas, o Espírito Santo encerrou abril com a menor marca de homicídios desde 1996, registro de outro mês e anterior a este curso. E o fechamento do ano anterior, publicado em janeiro, mostrava o Estado terminando 2024 com menos de 900 homicídios pela primeira vez em 28 anos — balanço de período fechado, também anterior ao que se lê aqui.
Três siglas promovem, e só uma delas vem de fora do Estado
A nota credita a realização a três estruturas, e vale separar a quem cada uma pertence antes de aceitar a palavra parceria como sinônimo de arranjo entre instituições distantes. A Acadepol é a academia da própria Polícia Civil capixaba — o comunicado a apresenta assim, como o meio pelo qual a PCES agiu. A Sesp, que entra como apoio, também é estrutura estadual do Espírito Santo. A única de alcance nacional na lista é a Senasp, e é ela que o diretor da Acadepol credita como parceira ao comentar a iniciativa.
Todas as pessoas citadas aparecem com função declarada, o que nem sempre acontece em release de operação conjunta: um subsecretário de Estado de Segurança Pública, o diretor da Acadepol, a titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Mulher (DHPM), um professor e perito convidado e uma policial civil participante. Vale registrar um detalhe que a leitura corrida atropela: a titular da DHPM, delegada Raffaela Almeida de Aguiar, esteve na abertura representando o delegado-geral José Darcy Arruda — que é nomeado no material, mas não como presente.
O que nenhuma linha do comunicado informa é o dinheiro. Não há custo total, não há menção a convênio, contrato ou repasse, e não se diz quem bancou deslocamento e hospedagem dos policiais vindos de outros estados: se cada corporação de origem, se o órgão nacional, se o Estado que recebeu. Sobre o financiamento, o texto oficial simplesmente não tem frase — e não é uma frase em voz passiva, é ausência completa do assunto.
Aproximação entre polícias de estados diferentes já havia aparecido no noticiário capixaba em outro formato: em novembro de 2024, a Sesp deflagrou a Operação Cosud no Espírito Santo. Aquilo era policiamento nas ruas, com data para começar e acabar; isto é sala de aula. O que os aproxima é apenas o arranjo entre corporações de estados diferentes, e um não é desdobramento do outro.
A nota cita uma matriz curricular e não lista um único tema
Sobre o conteúdo das 40 horas, o comunicado diz que ele seguiu a Matriz Curricular Nacional (MCN) e que a semana passou por temas essenciais. É toda a descrição de programa que existe no material.
Nenhuma disciplina é nomeada. Não há divisão de carga horária por módulo, não há lista de aulas práticas ou teóricas, e o texto não explica o que é a MCN, quem a elabora ou o que ela determina para um curso deste tipo. Quem quisesse saber o que 62 policiais estudaram durante uma semana inteira não encontra a resposta na nota — e, como ela não enumera nada, também não há aqui lista de temas para reproduzir.
O que disseram o professor convidado e uma aluna de outro estado
O material publica a avaliação de quem ministrou parte do conteúdo, centrada no que o encontro permitiu trocar entre polícias de origens diferentes:
“O curso, além de ter uma grade bem elaborada e abrangente no que diz respeito à investigação policial, também permite uma grande troca de informações sobre a realidade de cada estado, de cada polícia, bem como a forma como atuam, os sistemas e os recursos disponíveis.”
Falava Alexandre Guilherme Lara, professor e perito da Polícia Civil do Paraná. Na sequência da mesma declaração, ele descreve o efeito que atribui ao curso:
“O grande potencial desse curso está em nivelar conhecimentos, trazer informações técnicas, motivar, qualificar e capacitar os servidores, formando uma rede de apoio que possibilita uma atuação integrada em âmbito nacional.”
São expectativas descritas por quem ensinou, e é assim que precisam ser lidas: nivelar conhecimento e formar rede de apoio são efeitos que o material não mede, não acompanha e não promete voltar a verificar.
A passagem mais concreta do comunicado, porém, não é a de quem ensinou — é a de quem veio assistir:
“O que aprendemos vai trazer grandes melhorias nas investigações, especialmente de homicídios, onde sempre enfrentamos dificuldades pela falta de recursos, tecnologias e cursos”
Quem disse isso foi a policial civil Valéria Fernandes da Costa, do Estado de Rondônia, que veio de fora participar da capacitação. É o único ponto do material em que aparece um problema declarado: falta de recursos, de tecnologia e de oferta de cursos para quem investiga homicídios longe dos grandes centros. O comunicado não desenvolve o assunto — não diz de que recursos se trata, não quantifica a carência, não informa se ela foi mapeada por alguém e não indica nenhuma providência prevista.
Um curso descrito sem programa, sem custo e sem avaliação
Reunido o que o comunicado deixou de lado, sobra uma lista que interessa tanto ao policial que pensa em fazer o curso quanto ao leitor que paga por ele:
- se houve prova, exigência de frequência ou emissão de certificado ao fim das 40 horas;
- quantos dos 62 concluíram a semana inteira;
- quais temas foram efetivamente ensinados, já que a nota fala apenas em temas essenciais;
- quem ministrou as demais aulas, além do professor citado, e de que instituições vieram;
- de quantos e quais estados vieram os participantes, e quantos eram do Espírito Santo;
- quantas edições deste curso já ocorreram — o nome Básico integra o título oficial e sugere níveis seguintes, mas o material não menciona edição anterior, curso avançado nem calendário de continuidade;
- quanto custou a capacitação e quem arcou com o deslocamento e a hospedagem de quem veio de longe;
- como um policial civil se inscreve numa próxima turma, se houver;
- que resultado se espera medir depois — em casos elucidados, prazo de investigação ou qualquer outro indicador.
Uma observação sobre a natureza do documento fecha a leitura: ele foi escrito e distribuído pela corporação que organizou o curso. É a descrição de quem promoveu, sem avaliação externa sobre a formação policial oferecida no País e sem a voz de nenhum dos 62 alunos além da única que a nota escolheu publicar.
O que o material oferece a quem lê — e o que não oferece
Não há, no comunicado, endereço, formulário, prazo ou canal para quem queira fazer o curso de investigação de homicídios numa turma futura: o texto não informa se haverá outra, quando, para qual público e sob quais requisitos. Os únicos telefones do material são de comunicação interna e de assessoria de imprensa — servem a jornalista, não ao leitor, e por isso não foram reproduzidos aqui.
Quem tiver informação sobre um homicídio em apuração pode repassá-la pelo 181, o Disque-Denúncia, que recebe o relato sem identificar quem liga. Situação em curso, com risco imediato a alguém, é caso de 190.
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