Ideb: rede estadual capixaba é a 1ª do país no ensino médio — Direto Notícias

Ideb: rede estadual capixaba é a 1ª do país no ensino médio

A rede estadual de ensino do Espírito Santo ficou em 1º lugar entre as redes estaduais do país na etapa do Ensino Médio, com nota 4,8 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O Ministério da Educação (MEC) divulgou os números em 14 de agosto de 2024, e é essa a data de tudo o que se lê aqui: o Ideb do Espírito Santo descrito nesta reportagem é o daquela divulgação, não o de qualquer edição posterior.

No mesmo pacote de resultados, o Estado aparece em 5º lugar nos anos iniciais da educação básica, com 6,3, e em 3º lugar nos anos finais do Ensino Fundamental, com nota 5,3. A secretaria estadual afirma que houve melhora dos indicadores em todas as etapas avaliadas.

O Ideb do Espírito Santo saiu de qual conjunto de escolas

Aqui mora a primeira coisa que o leitor precisa separar. A liderança anunciada não é do Espírito Santo inteiro: o texto oficial é explícito ao dizer que o 1º lugar do Ensino Médio vale entre as redes estaduais de ensino do Brasil. É uma comparação de rede estadual contra rede estadual — não entra aí o desempenho das escolas privadas, das federais nem das municipais que operem alguma etapa. O comunicado nunca menciona essas outras redes.

Nas outras duas etapas, a comparação fica sem endereço. O material diz que o Estado ficou em 5º e em 3º lugar, mas não declara entre quem: se entre redes estaduais, como no Ensino Médio, se entre estados com todas as redes somadas, ou se em outro recorte qualquer. A mesma palavra, lugar, carrega dois universos possíveis dentro do mesmo parágrafo, e o material não escolhe. Some-se a isso a troca de nome das etapas: uma é chamada de anos iniciais da educação básica, a seguinte de anos finais do Ensino Fundamental.

As três notas formam uma escada que desce

Colocadas na ordem em que o estudante as percorre, as notas do próprio comunicado são estas: 6,3 nos anos iniciais, 5,3 nos anos finais, 4,8 no Ensino Médio. A etapa festejada é justamente a de menor nota das três — o que se comemora ali é a posição, não o patamar. E a etapa de maior nota, 6,3, é a de pior colocação, 5º lugar.

Primeiro lugar e nota alta são afirmações diferentes. A colocação mede a distância para as outras redes; ela sobe quando o Estado avança e sobe também quando as demais recuam, e o comunicado não traz nenhum dado sobre as outras redes que permita distinguir uma coisa da outra.

A comparação que o material faz — e a que ele recusa

O texto oficial classifica o resultado como avanço significativo na comparação com a edição do Ideb de 2019, anterior à pandemia. Só que nenhuma nota de 2019 aparece em lugar algum do comunicado: não há a nota do Ensino Médio daquele ano, não há a das outras etapas, não há a colocação. O avanço é afirmado, não demonstrado — quem lê recebe o ponto de chegada sem o ponto de partida.

Já a edição de 2021 é descartada de propósito. O material a considera inviável para comparação, por causa das consequências sobre o processo de aprendizagem e das condições em que o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) foi aplicado durante a pandemia do Coronavírus (Covid-19). Vale reparar em quem decide isso: quem escolhe a régua de comparação é a própria secretaria avaliada pelo índice, e ela fica com o ano que rende o confronto mais favorável, descartando o intermediário.

Repare também no que essa passagem revela sem explicar. O comunicado amarra a validade da comparação às condições de aplicação do Saeb, mas em momento nenhum diz qual é a relação entre uma coisa e a outra — nem o que entra no cálculo do índice, nem qual é a escala das notas, nem se o número tem alguma meta associada. Meta batida e nota alta seriam afirmações distintas; o material não faz nenhuma das duas, porque meta não é citada uma única vez.

O número da fala não é o número do índice

“Estamos felizes pelo esforço que estamos fazendo e conseguimos o melhor resultado da série histórica. Estar em primeiro lugar no Ensino Médio é um orgulho. O Espírito Santo é o único estado com nota superior a cinco em aprendizagem. Enfrentamos e superamos uma pandemia global e esse resultado mostra nossa capacidade de recuperação. Por isso, temos que parabenizar a todos os profissionais que trabalham na educação”

Assim comemorou o governador Renato Casagrande.

Dentro dessa fala há um dado que o corpo do comunicado não desenvolve: a nota superior a cinco em aprendizagem. Ela não é a mesma coisa que o 4,8 do Ideb do Ensino Médio — são dois números diferentes, apresentados na mesma página, e o texto oficial não explica como um se relaciona com o outro, nem de onde sai a parcela chamada de aprendizagem. Também não informa a nota exata: fica-se apenas com o piso, superior a cinco. Da mesma forma, melhor resultado da série histórica pressupõe uma série — quantas edições ela tem, desde quando, com que notas —, e essa série não é publicada.

O desafio admitido, sem nenhum indicador junto

“Temos muito o que comemorar. Tivemos bons resultados, mas temos também alguns desafios. Desafios que são da educação pública brasileira, isso é nível Brasil, e não apenas o Espírito Santo. Mas como responsáveis pela gestão da Rede Pública de Ensino do Estado, temos que fazer a nossa parte para o Brasil começar a mudar.”

“Temos buscado nos responsabilizar também pelos estudantes das redes municipais, não focando nossos esforços apenas na rede estadual. Afinal, eles também serão estudantes da rede estadual em algum momento.”

As duas passagens acima são de Vitor de Angelo, secretário de Estado da Educação, no mesmo comunicado.

É o único ponto do material em que a palavra desafio aparece — e ela aparece sem que um só desafio seja nomeado. Não há indicador que tenha caído, não há etapa que tenha ficado para trás, não há comparação com outra rede que exponha a fragilidade. O reconhecimento existe em tese e é imediatamente transferido para o plano nacional, como problema da educação pública brasileira. Quem lê fica sabendo que há dificuldades e não fica sabendo quais.

O que a secretaria aponta como causa

O comunicado lista os fatores a que atribui a melhora, todos ações da Secretaria de Estado da Educação (Sedu) voltadas à redução das desigualdades educacionais:

A lista é de atividades, não de resultados. Nenhum dos cinco itens vem acompanhado de quantidade, de escola alcançada, de valor gasto ou de qualquer medida que ligue a ação ao número comemorado. O verbo do comunicado é explicar, mas o que ele oferece é enumerar. Sobre a última linha da lista, as avaliações externas, o Estado tem instrumento próprio, e a organização da rodada seguinte havia sido anunciada dois dias antes deste resultado do Ideb.

Nenhuma nota por município, e nenhuma voz de fora

Para quem procura o próprio filho nesses números, a resposta prática é decepcionante: o material não traz recorte por município. Não há nota de cidade, não há lista de escolas, não há ranking regional. As redes municipais só aparecem em duas frases — no item do Paes, como quem recebe apoio, e na fala do secretário, como origem dos futuros estudantes da rede estadual. Desempenho municipal, nenhum.

Tampouco há qualquer avaliação vinda de fora da estrutura de governo. As duas únicas falas do comunicado são do governador e do secretário — ou seja, o índice é comentado exclusivamente por quem é medido por ele. Não há especialista em educação, entidade de professores, conselho, diretor de escola, estudante ou família. Quem calcula e apura o índice também não é nomeado: o texto informa apenas que o MEC divulgou os resultados.

Onde o comunicado se cala

Reunidas, as informações que faltam para interpretar o número são estas — e várias delas mudariam a leitura:

  • o ano de referência dos dados. O material declara o ano das edições que usa para comparar, 2019 e 2021, e nunca diz a que ano se referem o 4,8, o 6,3 e o 5,3 divulgados em agosto de 2024;
  • as notas anteriores do Estado, sem as quais a melhora afirmada não pode ser conferida;
  • a composição do índice — o que é medido, com que peso, em que escala;
  • a meta fixada para cada etapa, se houver;
  • as notas das demais redes estaduais, que dariam tamanho à liderança;
  • o desempenho por município e por escola;
  • quantos estudantes fizeram as provas e qual foi a participação;
  • o nome dos desafios que o secretário reconhece.

Uma nota final sobre a data, porque ela costuma passar batida: o comunicado descreve a divulgação como ocorrida numa terça-feira, dia 14, mas 14 de agosto de 2024 caiu numa quarta-feira. O dia do mês é o que vale, e é o que esta reportagem adota; o dia da semana informado pelo órgão não confere com o calendário.

Vale acompanhar, por fim, que este é apenas um dos indicadores federais aplicados ao Estado, e que instrumentos diferentes contam histórias diferentes: no ano seguinte, o desempenho capixaba na alfabetização foi divulgado como estável, em julho de 2025 — outra medição, outro recorte e outro veredito, posteriores a esta divulgação do Ideb.

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