Central de monitoramento de florestas: o que o Idaf entregou

A Central de Monitoramento de Florestas (CMF) do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) foi inaugurada na manhã de terça-feira, 27 de agosto de 2024. O que existia naquela manhã era a estrutura física: uma sala com cinco estações de trabalho e um painel formado por seis monitores de 55 polegadas. O serviço que dá nome à central — vigiar e fiscalizar a vegetação nativa capixaba e administrar os alertas de desmatamento ilegal — aparece no comunicado oficial em tempo futuro. O anúncio está a poucos dias de completar dois anos, e o material distribuído na época não diz quando os primeiros alertas sairiam, quanto a sala custou nem em que cidade ela fica.

A central de monitoramento de florestas por dentro: cinco estações e um painel de seis telas

A parte concreta do anúncio cabe em duas linhas e saiu do subgerente de Regularização Ambiental do Idaf, João Marcos Chipolesch: uma sala em que uma equipe poderá usar cinco estações de trabalho capazes de processar imagens, mais um painel com seis monitores de 55 polegadas para exibir imagem e dado lado a lado. Esse é o inventário do que estava instalado. O restante do texto oficial descreve o que o conjunto vai permitir fazer.

O verbo carrega a diferença. Poderá usar descreve o que o equipamento admite, não o que a equipe fazia naquela manhã. O comunicado também não informa quantas pessoas formam essa equipe, em que horário ela trabalha e se alguém já ocupava as cinco estações no dia da inauguração. Uma sala equipada é ponto de partida; o que ela produz depois é outra medida, e essa o material não apresenta.

Tempo ágil no comunicado, imagem nova a cada mês na fala do técnico

O texto do Governo do Estado promete que a central acompanha em tempo ágil qualquer mudança na vegetação nativa capixaba. Alguns parágrafos abaixo, no mesmo comunicado, o técnico responsável descreve o ritmo do insumo que alimenta esse acompanhamento:

O monitoramento das florestas é realizado com base em imagens de satélites disponíveis a cada mês. Com o processamento dessas imagens e a utilização do índice espectral NDVI (Índice de vegetação por diferença normalizada) é possível mapear e identificar as áreas desmatadas ao longo de todo Estado

Chipolesch descrevia o funcionamento da sala a autoridades e convidados, na própria cerimônia de inauguração. Entre o acompanhamento ágil prometido na abertura e a imagem que chega uma vez por mês existe uma distância que o material não concilia — e não cabe ao portal escolher qual das duas descrições vale. O que a fala sustenta é isto: o desmate é identificado na comparação entre imagens de meses diferentes.

Sobre o índice citado, o comunicado abre a sigla e para aí. Não explica como o cálculo é feito, que variação aponta corte de vegetação, nem se o método distingue derrubada rasa de corte seletivo, de queimada ou de perda por seca. Para quem lê, fica registrado o nome da técnica e o que a fala diz que ela entrega: o mapa das áreas desmatadas.

Quatro eixos anunciados na fala, três descritos

A central foi apresentada como peça de um programa estadual de monitoramento e combate ao desmatamento ilegal, lançado em junho de 2024 pelo governador Renato Casagrande. O diretor geral do Idaf, Leonardo Monteiro, detalhou esse programa diante dos convidados:

Além da central, o programa é constituído por quatro eixos principais: institui multas diárias para infratores que desrespeitarem embargos; impede a concessão de crédito financeiro para proprietários que tenham áreas desmatadas irregularmente ou embargadas; e começa a implementar ações para a criação do ‘selo verde’, documento que reconhece que o produtor está em dia com as obrigações ambientais, concedendo prioridade para crédito bancário e serviços do Estado, estimulando a exportação de produtos para países que já exigem a comprovação de que o produtor produz sem causar danos ao meio ambiente

A fala anuncia quatro eixos e enumera três: multa diária para quem descumprir embargo, bloqueio de crédito para área desmatada irregularmente ou embargada e a criação do selo verde. O quarto não aparece em lugar nenhum do comunicado, que ainda usa a palavra principais — sinal de que a própria relação pode não estar fechada. A divergência fica como o órgão a publicou, sem conta feita por fora.

Os três eixos descritos também estão em pontos diferentes do caminho. Multa diária e bloqueio de crédito aparecem em tempo presente, como regras que o programa institui. O selo verde, não: a fala diz que o programa começa a implementar as ações para criá-lo. Quem produz e quer o documento não tinha, em agosto de 2024, onde pedi-lo — o texto não traz prazo, critério de concessão, órgão emissor nem valor de taxa.

O termo de ajuste de conduta de Guarapari que ajudou a pagar a sala

O dinheiro da central tem duas origens declaradas: investimento do Governo do Estado e recurso financeiro do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), este último por meio do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) da 2ª Promotoria de Justiça Cível de Guarapari. É a única ligação do anúncio com o município — e ela vem pelo dinheiro, não pelo alcance da fiscalização.

Nenhum valor foi divulgado. Não há total, não há a parcela de cada um dos dois financiadores e não há o custo de nenhum item isolado, nem das cinco estações de trabalho, nem do painel de monitores. Sobre o termo que destinou a verba, o comunicado não diz quem o firmou, que conduta o originou, quanto ele previu nem o que mais foi custeado com ele. Quem paga aparece; quanto se pagou, não.

Vale registrar de quem é o texto: o comunicado foi publicado pelo próprio Governo do Estado, que financia a central, e o órgão que a opera é do Estado. Não há no material avaliação de quem esteja fora dessa estrutura, e a falta de contestação num texto assim não significa que ela não exista.

O que a central promete punir, e em qual esfera

Monteiro apresentou a sala como a primeira do país no seu tipo:

Atualmente, não tem nenhum outro estado brasileiro que conta com uma central como a nossa, quando falamos de qualidade e precisão dos dados.

O superlativo é do diretor geral do Idaf e foi dito na manhã da inauguração, diante dos convidados. O comunicado não apresenta comparação com nenhum outro estado nem o critério pelo qual qualidade e precisão foram medidas, de modo que a frase permanece como declaração do órgão, não como dado verificado.

Na mesma fala, ele define o alcance da punição prometida:

Estamos seguindo as diretrizes do governo do Estado, com o objetivo de zerar o desmatamento ilegal. Quem ainda insistir em cometer crime ambiental no Espírito Santo pode saber que será identificado rapidamente e penalizado na esfera administrativa

Repare no fim da frase: a penalidade citada é administrativa — aquela que o próprio órgão ambiental aplica, como multa e embargo. O comunicado não menciona nenhuma outra consequência para quem derruba vegetação nativa, e também não fixa data para o objetivo de zerar o desmatamento ilegal. O tratamento do desmate fora da esfera administrativa seguia em disputa muito depois desta inauguração: em janeiro de 2026, 45 propostas sobre crimes ambientais aguardavam votação numa comissão parlamentar, num texto que também reúne os canais que recebem denúncia desse tipo de ocorrência.

Quem estava na sala — e o que o comunicado não diz sobre cada um

A cerimônia reuniu, além dos diretores técnico e administrativo-financeiro do Idaf, o promotor de justiça cível de Guarapari, Otávio Guimarães Gazir, e representantes de órgãos que trabalham com recursos hídricos, fiscalização ambiental federal, polícia ambiental, bombeiros, meteorologia e bases geoespaciais do Estado. O comunicado apresenta essa relação como parcial: escreve demais autoridades, como antes de enumerar, o que significa que a lista não fecha.

Duas observações sobre esse trecho. A primeira: presença não é papel. O texto registra quem foi à inauguração e não descreve nenhuma atribuição desses órgãos dentro do funcionamento da central — não há acordo citado, não há troca de dados combinada, não há divisão de trabalho descrita. A segunda: dois dos convidados são justamente os que produzem o tipo de informação que uma central de imagens consome, o de meteorologia e o de bases geoespaciais do Estado, e ainda assim o comunicado não afirma que qualquer dado deles alimente a CMF.

Quanto custou, quem opera e quantos hectares: o comunicado não diz

Esta é a parte que o leitor precisa saber que ficou sem resposta, e ela começa pela pergunta mais direta de todas: o material não informa nenhum canal para o cidadão avisar sobre desmatamento ilegal. Não há telefone, formulário, endereço eletrônico ou aplicativo no texto — quem enxergar uma derrubada e quiser comunicar não encontra ali para onde ligar. Também ficam de fora:

  • quanto custou a central, no total e por financiador;
  • em que cidade e em que endereço ela funciona;
  • que área ela cobre em números — hectares, municípios ou propriedades acompanhadas;
  • quantas pessoas operam as cinco estações, e em que horário;
  • quantos alertas, embargos ou multas saíram do sistema até a data do anúncio;
  • quanto tempo separa a identificação de um desmate da chegada da fiscalização ao local;
  • qual é o quarto eixo do programa e quando o selo verde passa a ser emitido;
  • quem firmou o termo de ajuste de conduta e por qual conduta;
  • se os dados vão ficar disponíveis para consulta pública.

A falta de indicador é o que mais pesa. Uma central inaugurada mede o que o Estado passou a ter condição de fazer, não o que já foi feito: nenhuma dessas nove informações é detalhe técnico, e todas elas separam uma sala equipada de uma vigilância em funcionamento.

O que veio depois de agosto de 2024

Sobre o passo seguinte, o comunicado se cala: não anuncia relatório periódico, balanço, prazo de avaliação nem nova etapa da central. Não é negativa — o texto apenas não trata do assunto, e quem procurar atualização não a encontra no material daquele dia.

Duas comparações ajudam a dimensionar o anúncio, e ambas são de datas posteriores a esta. Quatro meses depois, no fim de dezembro de 2024, outra rede estadual de monitoramento fechava o ano com duas plataformas de coleta ligadas das dez que haviam sido anunciadas, distância comum entre o número divulgado e o número em campo. E mais de um ano depois, em novembro de 2025, outro órgão público passou a produzir mapas e relatórios de território a partir de imagens de satélite de alta resolução, em outra região do país e para outra finalidade — sinal de que a técnica descrita aqui é a mesma que o poder público vem adotando para vigiar cobertura vegetal.

Este texto reconstrói o que foi divulgado em 27 de agosto de 2024. Nada que o Idaf tenha publicado sobre a central depois daquela data entra neste material, que se limita ao comunicado do dia da inauguração.

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