Estudantes da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Nelson Vieira Pimentel, em Viana, escreveram o roteiro, escolheram o repertório, gravaram, editaram e apresentaram à própria turma um podcast sobre racismo montado a partir de letras de música, de artistas e de movimentos musicais. A divulgação oficial da rede estadual descreve essa sequência em quatro parágrafos e termina na apresentação aos colegas.
O material é de outubro de 2024 e narra uma atividade que já estava concluída naquela data. Há também um descompasso de calendário que vale registrar: a página oficial marca a publicação em 25 de outubro de 2024, enquanto o texto que circulou até aqui no portal está datado de 29 de outubro de 2024 — quatro dias de diferença entre o comunicado e a republicação. Sobre nova edição, continuidade no ano seguinte ou repetição em outra turma o comunicado não diz nada: ele simplesmente cala, e calar não é negar.
Os cinco verbos que o comunicado atribui aos estudantes
Antes de aceitar o verbo de um título, vale conferir quem age em cada frase do texto que o originou. Aqui a conferência é favorável: os estudantes são o sujeito de tudo o que o comunicado descreve. Eles escreveram o roteiro, organizando as ideias em ordem; decidiram quais músicas e quais artistas entrariam e como cada um se relacionava com o tema; gravaram com os convidados; editaram o resultado, com atenção à clareza e à argumentação; e apresentaram o trabalho à turma, intercalando trechos das músicas com a discussão sobre o que elas significam.
Em nenhum momento o texto oficial recorre à construção sem dono — nada foi produzido, realizado ou desenvolvido por um sujeito oculto. A única frase em que o programa vira sujeito é a legenda da foto, e ela fala do conteúdo analisado, não de quem o analisou. Quantos são esses estudantes, porém, o comunicado não informa: o texto não traz quantidade de alunos, série, turma nem divisão em grupos. O crédito que o material sustenta é coletivo, e é assim que ele fica aqui.
A distinção importa porque o oposto também acontece na rede. Nove meses depois, em outra escola estadual de Viana, os alunos partiram de filmes já prontos e gravaram vídeos falando para a câmera — ali o material sobre racismo chegou pronto de fora, e o que saiu das mãos dos alunos foi o vídeo. No caso do podcast, a produção é deles do começo ao fim, e essa é a diferença entre usar e fazer.
Onde ouvir o podcast sobre racismo: o comunicado não diz
Podcast é obra que existe publicada — um arquivo de áudio num endereço a que qualquer pessoa chega. E é justamente isso que falta no material. Não há endereço, plataforma, data de publicação, nome do programa nem número de episódios. A única exibição descrita é a apresentação para a turma: audiência fechada, dentro da escola, no horário da aula. Sair procurando o áudio por fora seria trazer para a notícia um fato que o comunicado não sustenta; o que dá para afirmar é o que está escrito, e o que está escrito termina na sala de aula.
A diferença decide o que o leitor consegue fazer com a informação. Trabalho apresentado à turma é atividade pedagógica encerrada. Programa publicado é algo que outra escola, outro professor ou a mãe de um aluno consegue ouvir, citar e reaproveitar. O comunicado descreve o primeiro caso e usa a palavra do segundo.
Gostei bastante de fazer o podcast como entrevistadora, pois me identifico com a parte de comunicação. E, se tratando do tema racismo, ouvir as músicas que meus colegas associavam com o racismo, positiva ou negativamente foi impactante
Disse isso uma estudante que atuou como entrevistadora na gravação. Nenhuma outra voz entra no comunicado, e ela é a única pessoa que o texto identifica pelo nome — nome que esta reportagem não repete, pela razão logo abaixo.
A entrevistadora não aparece identificada aqui
A prática vale para toda a educação básica e não muda conforme o tom da notícia: mesmo em texto elogioso, estudante não sai identificado, ainda que o órgão oficial publique o nome. Um nome próprio colado à escola e ao município deixa de ser uma linha numa nota de secretaria e vira resultado de busca permanente, que acompanha a pessoa muito depois de o trabalho escolar ter perdido importância para ela. Num texto cujo assunto é racismo, o cuidado sobe: o tema do projeto passa a caminhar junto com a pessoa indexada.
A declaração vai ao ar como a fonte a publicou, sem tesoura no meio, e a assinatura passa a ser a função que a pessoa exerceu na gravação. Em outros casos o nome do professor ou do coordenador permanece, porque adulto responde profissionalmente pela iniciativa que conduz — só que aqui não existe nenhum. O comunicado não nomeia professor, coordenação nem direção, e não diz quem propôs o projeto.
Conscientização aparece três vezes; indicador, nenhuma
O texto oficial repete conscientização três vezes e reflexão duas, sempre como finalidade — para que a atividade foi feita. Nenhuma das duas descreve algo que aconteceu. O que o comunicado descreve como ato é bem mais concreto, e serve a quem queira entender como o trabalho foi feito: escolher músicas, escrever roteiro, entrevistar convidados, editar áudio e sustentar um argumento diante da turma.
Há um segundo objetivo declarado, este da área de língua portuguesa: aprimorar leitura, escrita e oralidade, com organização prévia das ideias e trabalho em grupo. Nenhum indicador acompanha essa afirmação. O material não traz avaliação, nota, comparação entre antes e depois nem qualquer forma de medir se as habilidades melhoraram. O que ele registra é que a atividade foi realizada — o que é diferente de registrar que ela funcionou.
Iniciativa da unidade, sem norma nem efeméride invocadas
Nada no comunicado aponta para programa de rede: não há coordenação central, verba, meta, cronograma comum nem adesão de outras escolas. Pelo que o material sustenta, o podcast nasceu e terminou dentro da própria unidade.
Tampouco há vínculo declarado com norma ou data. O texto não cita lei, diretriz curricular, portaria, calendário nem data comemorativa. A rede estadual tem instrumentos desse tipo, e é isso que torna a ausência visível: amarrar o projeto a qualquer um deles seria costura de quem lê, não informação de quem divulgou.
O que existe, e é anterior, é movimento na outra ponta. Sete semanas antes deste comunicado, a prova de monitoramento que a rede estadual aplica a todas as suas escolas incorporou o tema étnico-racial a cada caderno de teste. São dois caminhos diferentes — um que a rede mede e outro que a escola faz por conta —, e o comunicado do podcast não os relaciona.
Nenhuma música, nenhum artista e nenhum convidado nomeado
- O repertório. Músicas, artistas e movimentos musicais aparecem sempre no plural, do título ao último parágrafo, e nenhum item é nomeado uma única vez. Sem isso, nenhuma outra escola consegue repetir o roteiro.
- Quem eram os convidados. A gravação foi feita com convidados que o texto não identifica por nome, por função nem por vínculo com a escola. A única pista está na fala da estudante, que menciona colegas — e o comunicado não afirma que convidados e colegas sejam as mesmas pessoas.
- Quem propôs o tema e quem participou da concepção. O material não descreve cor, origem nem trajetória de nenhum participante, e não registra presença de pessoas ou coletivos de fora da escola em qualquer etapa.
- Quantos estudantes entraram no projeto, de que série, de que turma e em quantas duplas ou equipes o trabalho foi repartido.
- Quem conduziu o trabalho. Nenhum professor, disciplina, coordenação ou direção é citado, embora um dos objetivos declarados seja da área de língua portuguesa.
- Quando o podcast foi gravado e por quantas semanas o projeto correu.
- Quantos episódios saíram, qual a duração de cada um e se algum deles foi ouvido fora da turma.
Falta ainda o outro lado. O texto é a divulgação de uma rede de ensino sobre uma atividade de uma escola dessa mesma rede: não há fala de professor, de convidado, de estudante além da entrevistadora, de família ou de direção, e não há avaliação independente do resultado. Comunicado institucional é escrito para divulgar, não para examinar — quem lê precisa saber disso antes de tomar o texto por análise.
Na mesma cidade, dois meses e meio antes deste projeto, uma turma de educação de jovens e adultos de uma terceira escola estadual da cidade leu um conto literário em círculo de leitura para discutir relações étnico-raciais — trabalho anterior, de outra unidade e sem relação com este. No fim de 2025, o formato do áudio reapareceu na rede: estudantes de outra escola estadual gravaram um podcast para registrar memórias de comunidades quilombolas, com outra equipe, outro tema e nenhuma ligação declarada com o que se fez em Viana.
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