Os alunos do Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Pastor Oliveira de Araújo, em Vila Velha, produziram um jornal e um conjunto de trabalhos artísticos sobre o espaço urbano onde moram. Esse é o resultado concreto do projeto Reconhecendo o Território, coordenado pelo professor de Pensamento Científico José Paulo Nascimento, com participação das disciplinas de Artes e Língua Portuguesa. A divulgação oficial saiu no fim de novembro de 2024, com a atividade já concluída: é registro do que a turma fez, não convite para algo que ainda vá acontecer.
Os verbos do texto oficial: uma ação concreta e quatro abstratas
Vale ler o que o material afirma que os estudantes fizeram, verbo por verbo. Eles exploraram o espaço urbano, analisaram o território, investigaram o ambiente em que vivem e trabalharam em grupo. Quatro verbos amplos, que descrevem postura e não atividade. A única ação de resultado verificável é a quinta: produziram — um jornal e representações artísticas.
Isso delimita a matéria. O material não descreve caminhada pelo bairro, entrevista com moradores, mapeamento, registro fotográfico nem visita a equipamento público. Não afirma que essas coisas deixaram de acontecer; simplesmente não conta nada sobre como a turma foi a campo, se é que foi. Quem procura o passo a passo do projeto encontra o produto final e o método pelo nome, e mais nada.
O projeto foi uma experiência enriquecedora. A parceria entre as disciplinas permitiu que os alunos se envolvessem ativamente na análise do território, compreendendo a história e as questões sociais que os rodeiam. Isso os ajudou a desenvolver pensamento crítico, criatividade e habilidades de comunicação, além de se verem como cidadãos conscientes e participativos
A avaliação é do professor de Pensamento Científico José Paulo Nascimento, que coordenou a iniciativa.
Pedagogia Baseada em Projetos, o método citado sem explicação
O texto oficial credita o diferencial da experiência à Pedagogia Baseada em Projetos e para por aí. Em linguagem de leigo: é o formato em que a turma parte de uma pergunta ou de um problema real, investiga por conta própria durante um período e precisa entregar alguma coisa no fim — um produto que outras pessoas possam ler, ver ou usar. O professor sai do lugar de única fonte de informação e passa a orientar a busca. O jornal, aqui, é exatamente esse produto final.
O que a divulgação não detalha é a aplicação: quantas aulas o projeto ocupou, como os grupos se dividiram, que critério avaliou o trabalho de cada estudante. O mesmo arranjo de juntar disciplinas em torno de um tema aparece em outro projeto interdisciplinar de escola estadual, este divulgado duas semanas depois, sobre culturas de países de língua inglesa.
O território do nome do projeto nunca é nomeado
O projeto se chama Reconhecendo o Território, e o território em questão não aparece em lugar nenhum do material. O texto fala em espaço urbano em que vivem; a fala do estudante fala em bairro. Nenhum nome, nenhuma referência geográfica além do município. O morador de Vila Velha que quisesse saber se é o seu bairro que está no jornal não tem como descobrir pela divulgação oficial.
Participar do projeto foi muito importante para mim. Aprendi a olhar para o bairro de forma diferente, entendendo sua história, os problemas e como isso afeta nossa vida. Foi incrível perceber que a organização da cidade vai além de ruas e prédios, abrangendo também o acesso a direitos como saúde, lazer e educação. Trabalhar em grupo me ajudou a desenvolver habilidades de pesquisa, comunicação e criatividade.
Quem fala é um aluno do 9º ano do ensino fundamental que participou da atividade. A lista de direitos que ele cita — saúde, lazer e educação — vem precedida da palavra como, o que a deixa aberta: são exemplos, não o conjunto do que a turma discutiu.
A fala do 9º ano entra aqui sem o nome de quem falou
A divulgação oficial identifica esse estudante pelo nome completo. Esta matéria não reproduz a identificação, e a escolha é deliberada. Nome, somado à escola, à série e ao município, aponta uma pessoa dentro de uma turma de poucas dezenas — e um registro assim fica indexado em buscador por tempo indefinido, muito depois de o autor da frase virar adulto. O que ele diz vale por si e não perde nada sem a etiqueta.
Com os adultos a régua é outra, e por isso o professor segue nomeado nos dois lugares em que aparece: ele responde profissionalmente pela decisão pedagógica que tomou.
Iniciativa de uma escola, não programa da rede estadual
É uma distinção que muda o que o leitor pode esperar. O material descreve uma unidade, um professor coordenador e duas disciplinas parceiras. Não aparece coordenação central, verba destinada, meta declarada, material comum às escolas nem calendário de rede — nada do que caracterizaria uma política estadual replicada. Quem quiser reproduzir a ideia em outra escola precisa procurar esta escola, porque não há programa a que aderir.
O acervo do portal mostra a mesma marca em outras unidades, cada uma anunciada como iniciativa própria: três semanas antes, estudantes de outra escola estadual pesquisaram o antigo cinema da cidade onde moram e transformaram o resultado em trabalho próprio; em registro do mês seguinte, outra turma produziu curtas-metragens; e poucos dias depois, uma escola estadual do mesmo município apareceu por causa de uma olimpíada de foguetes. São experiências soltas, boas, e sem fio comum declarado entre elas.
O jornal é o resultado; o resto é adjetivo
O fecho da divulgação afirma que a ação fortaleceu o sentimento de pertencimento e deixou marca significativa na formação cidadã dos alunos. Nenhum indicador acompanha a frase: não há nota, frequência, número de participantes, avaliação antes e depois, nem qualquer medida de comparação. Atividade realizada não é resultado medido, e a diferença importa justamente em educação, onde a linguagem celebratória se repete de divulgação em divulgação.
O que sobra de verificável é o produto — e ele é bom o bastante para dispensar adjetivo. Um jornal escrito por adolescentes sobre a própria rua é um objeto que existe, pode ser lido e pode ser cobrado.
Sete coisas que ficaram fora da divulgação
- quantos alunos e quantas turmas participaram; o único dado de série no material é o 9º ano do estudante ouvido;
- quanto tempo durou o projeto, quando começou e quando terminou;
- qual é o território estudado e em que bairro fica a escola;
- se o jornal é impresso ou digital, quantas edições teve, qual a tiragem e se circulou fora da escola;
- quantos trabalhos artísticos foram feitos e onde ficaram expostos; o material diz apenas diversas representações, sem número;
- quem são os professores de Artes e de Língua Portuguesa que entraram na parceria, nomeados apenas pelas disciplinas;
- se haverá nova edição em 2025. Aqui o material nem promete nem descarta a continuidade: apenas silencia.
Uma observação sobre a origem do texto: a divulgação é do próprio poder público que mantém a escola e traz um lado só — o professor que coordenou e um estudante que participou. Ninguém de fora avalia a experiência, e o material não registra discordância alguma. Não ter discordância registrada é diferente de haver acordo apurado.
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