Mulheres na filosofia: o que a turma de São Mateus pesquisou

Uma turma da Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Ceciliano Abel de Almeida, em São Mateus, passou as três primeiras semanas de junho de 2025 estudando mulheres na filosofia: pesquisou, apresentou e debateu trechos das obras e da trajetória de pensadoras que quase nunca aparecem no índice dos livros didáticos. O trabalho, batizado de Filósofas Mulheres, foi conduzido pelo professor de Filosofia Vitor Vasconcelos Salvador. O projeto já tinha terminado quando o comunicado oficial saiu, em 2 de julho de 2025, e mais de um ano se passou desde então — o texto abaixo conta o que já foi feito; não há nada para se inscrever, comparecer ou aguardar.

De Safo de Lesbos a Marilena Chauí — e a palavra que deixa a lista aberta

Este é o ponto mais concreto do comunicado, e vale começar por ele: as mulheres na filosofia que a turma estudou têm nome. São elas:

  • Safo de Lesbos
  • Aspásia de Mileto
  • Olympe de Gouges
  • Hannah Arendt
  • Edith Stein
  • Rosa Luxemburgo
  • Simone de Beauvoir
  • Marilena Chauí

A relação vem introduzida por uma expressão que muda o que ela significa: entre os nomes abordados estavam. Isso é recorte, não inventário. Outras pensadoras podem ter entrado no trabalho sem chegar ao texto de divulgação, e o comunicado não diz quantas foram ao todo nem como cada nome foi distribuído entre os estudantes.

As mulheres na filosofia estão nomeadas; o que cada uma pensou, não

O que o texto oficial diz sobre elas cabe em duas linhas, e vale para todas de uma vez: marcaram época, viveram sob repressão e resistiram no plano intelectual à sua época. A elas o comunicado credita contribuições em quatro frentes — crítica política, ética, linguagem e liberdade humana —, sem dizer qual frente pertence a qual pensadora. Essa é a soma toda: uma única descrição genérica cobrindo uma lista inteira de trajetórias distintas.

Nenhuma linha do comunicado explica qual obra é de quem, em que época cada uma viveu, o que cada uma defendeu ou por que a filosofia ensinada na escola passou tanto tempo sem citá-las. Preencher isso aqui seria escrever de cabeça, e não noticiar o que a escola de São Mateus fez. Quem chegou a esta página querendo saber quem foi Aspásia de Mileto ou o que Edith Stein escreveu vai precisar procurar em outro lugar: o material que originou a notícia não responde.

Quatro verbos, e todos são dos estudantes

O título com que a notícia circulou por mais de um ano dizia que a escola discute o legado das filósofas. O comunicado sustenta algo mais específico e mais interessante, e sustenta no plural. São quatro verbos, e o sujeito de todos é a turma: estudar o legado das pensadoras, pesquisar, apresentar e debater — e o objeto dos três últimos, diz o texto, são trechos de obra e de trajetória. Quem age, no relato oficial, são os alunos. O professor orienta.

Duas ressalvas honestas sobre esses verbos. A primeira: os três últimos vêm precedidos da fórmula tiveram a oportunidade de, que descreve o que foi oferecido, e não necessariamente o que cada estudante fez — o texto não informa quantos participaram nem se a atividade valeu nota. A segunda: apresentar para quem? O comunicado não diz se as apresentações ficaram na própria sala, se alcançaram outras turmas ou se a escola abriu o trabalho para as famílias.

O único vestígio de um produto está dentro de uma citação

A pergunta que qualquer leitor faz diante de um projeto escolar é o que sobrou dele — um seminário gravado, um mural no corredor, uma revista, um caderno de textos. A prosa do comunicado não descreve produto algum. A única pista de que houve alguma coisa material aparece de raspão, na fala de uma estudante, que menciona a elaboração do trabalho. Que trabalho é esse, em que formato, com quantas páginas ou por quantas mãos, o texto oficial não conta, e onde ele está hoje também não.

Convém separar duas coisas que a divulgação junta, porque disso depende o que a notícia de fato informa: ter acontecido é uma afirmação, ter funcionado é outra. O comunicado afirma que a experiência despertou interesse, ativou a participação e produziu reflexão crítica sobre três temas que ele nomeia: gênero, poder e história. Para nenhuma dessas três afirmações há indicador: nem avaliação, nem comparação com outra turma, nem registro de frequência. O que o material demonstra é que o projeto aconteceu.

Junho, e não março: a escolha de calendário que o próprio texto explica

Um detalhe do comunicado escapa em leitura rápida e é o mais deliberado de todos. Segundo o texto, a proposta nasceu de uma necessidade específica: puxar a conversa sobre a presença das mulheres no pensamento ocidental para fora de março, o mês que, diz ele, o calendário já associa à luta das mulheres. Ou seja: a data foi escolhida justamente por não ser a data esperada.

É o que o material permite afirmar sobre calendário, e nada além disso. Não há menção a norma curricular, a diretriz da rede estadual de ensino, a semana temática oficial ou a qualquer determinação externa à escola. Também não há repasse, meta, coordenação regional ou cronograma comum a outras unidades. Pelo que está escrito, a iniciativa é da própria EEEM Ceciliano Abel de Almeida, e tratá-la como política de rede seria promovê-la a uma categoria que o comunicado não lhe dá.

A pergunta que a estudante levou para dentro da pesquisa

A passagem mais substantiva do material inteiro não está na descrição do projeto: está no relato de uma estudante da 3ª série do Ensino Médio, que conta o que encontrou ao pesquisar:

Histórias e obras importantes como as de Safo de Lesbos passaram por muitas alterações, a fim de moldar-se aos princípios e opiniões daqueles que se propuseram a estudá-la. Me perguntei inúmeras vezes durante a elaboração do trabalho por que há tão pouco registrado, enquanto sobre figuras masculinas do mesmo período encontramos tantas informações

Ela relatou essa reflexão durante a pesquisa, segundo o comunicado. Repare no que a frase faz: não elogia o projeto nem agradece pela oportunidade. Descreve um achado — a escassez de registro sobre uma autora, medida contra a abundância de registro sobre homens do mesmo período — e transforma essa escassez em pergunta. É o resultado de pesquisa que o restante do texto oficial não apresenta.

O que o professor disse, e o que isso é

Foi o professor de Filosofia Vitor Vasconcelos Salvador quem resumiu o propósito do trabalho:

Sempre é tempo de discutir e enfatizar a importância da mulher na sociedade e na história. Com esse trabalho, buscamos dar ênfase também ao seu papel na Filosofia. A mulher pode e deve estar onde, como e quando quiser, em qualquer momento da história

Ele acrescentou, na sequência, uma avaliação sobre as pensadoras estudadas:

Essas mulheres são grandiosas. Tinham coragem de ousar pensar, criticar, se expor e se impor em épocas de perseguições, revoluções e ditaduras. Mesmo em um meio machista e rígido, suas vozes se fizeram ouvidas em prol da liberdade, da dignidade e da vida, e incomodaram aqueles que não admitiam pensamentos novos e diversos.

Nos dois casos quem avalia o projeto é quem o montou — leitura legítima, e legítima também de sinalizar. Nenhuma outra voz da escola aparece — nem outro professor, nem a direção, nem uma família, nem um estudante que tenha achado o projeto difícil ou dispensável. Quem divulgou o texto é a mesma rede estadual de ensino que mantém a unidade. Nada disso invalida o relato; apenas delimita de onde ele vem.

A autora da frase acima não é identificada aqui

O texto oficial traz o nome completo da estudante ouvida. Aqui ela aparece apenas pela série que cursa, e a razão é de escala: numa cidade, uma escola e uma 3ª série, o conjunto reduz o número de pessoas possíveis a algumas dezenas de adolescentes, e uma página de portal não sai do ar quando o projeto sai da memória de todo mundo. Ela apareceu no comunicado para contar o que descobriu, não para responder por uma decisão. O professor segue identificado porque a decisão é dele: quem conduz um trabalho escolar como profissional responde publicamente por ele.

Sete perguntas que o comunicado sobre o Filósofas Mulheres não alcança

  • Quantos estudantes participaram — o texto fala em alunos e estudantes no plural, sem número, sem quantidade de turmas e sem dizer se envolveu toda a 3ª série ou outras séries também.
  • Quais disciplinas entraram — a atividade é chamada de interdisciplinar, mas só a Filosofia é nomeada, e só um professor aparece. Que outras áreas se somaram, o comunicado não diz.
  • Como cada nome foi escolhido — não há critério declarado para a seleção das pensadoras, nem informação sobre quais obras foram lidas.
  • Que material a escola usou — livro, tradução, texto adaptado, acervo da biblioteca ou pesquisa on-line: nenhuma dessas hipóteses é confirmada ou descartada.
  • Onde as apresentações aconteceram e quem assistiu a elas.
  • O que restou por escrito — o trabalho citado pela estudante não é descrito, publicado nem localizado.
  • Se haverá nova edição — o comunicado não promete continuidade e também não a descarta. Sobre o ano letivo seguinte, ele simplesmente não fala; e não falar é diferente de dizer que acabou.

O mesmo desenho apareceu antes e depois, em outras escolas capixabas

Projeto que atravessa disciplinas não é invenção desta escola nem deste ano. Em dezembro de 2024, seis meses antes do trabalho sobre as filósofas, outra turma da própria São Mateus cruzou o estudo de inglês com conteúdo de história e de geografia e levou o resultado à comunidade escolar.

Já em agosto de 2025, um mês depois de esta notícia ter sido publicada, outra turma de Ensino Médio da rede estadual encenou mitos gregos para estudar como se pensava o mundo antes da filosofia — a mesma disciplina, tratada por outro caminho, com figurino e ensaio no lugar da pesquisa bibliográfica.

O contraste mais útil, porém, vem da própria EEEM Ceciliano Abel de Almeida. Seis meses depois do trabalho sobre as filósofas, em dezembro de 2025, turmas de 3ª série da mesma unidade gravaram episódios de podcast com memórias de moradores ligados às comunidades quilombolas do município. Ali o resultado tem nome, formato e endereço; no projeto de junho de 2025, o que existe é a menção a um trabalho que ninguém descreveu.

O que sobra em pé, em 2026

Para uma família de São Mateus, o registro sobre mulheres na filosofia é este: durante três semanas de junho de 2025, estudantes de uma escola estadual do município pesquisaram, apresentaram e debateram a obra e a trajetória de filósofas, sob orientação do professor de Filosofia da própria unidade, e uma delas saiu da experiência com uma pergunta sobre por que tão pouco se registrou dessas autoras. Não há inscrição, prazo, edital ou canal de atendimento ligado a isso — e o comunicado tampouco indica a quem perguntar sobre o assunto na escola.

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