Itapemirim: R$ 14 milhões anunciados, uma ponte pronta — Direto Notícias

Itapemirim: R$ 14 milhões anunciados, uma ponte pronta

Passaram-se mais de onze meses desde 08 de setembro de 2025, quando o pacote descrito a seguir foi apresentado em Itapemirim. Naquela segunda-feira, o governador Renato Casagrande e o vice-governador Ricardo Ferraço foram à cidade, na microrregião Litoral Sul, para anunciar repasses do Governo do Estado para Educação e Saúde e para autorizar o início da pavimentação da estrada que leva à Pedra do Frade e da Freira. O comunicado oficial diz que os investimentos em Itapemirim, contando tudo o que foi apresentado ali, chegam a R$ 14 milhões.

De tudo o que foi apresentado naquele dia, um único item estava pronto: a reinauguração da Ponte da Vila — e ela aparece na última linha do texto oficial, sem valor divulgado. O restante era autorização para começar, repasse destinado ou compra ainda por fazer. Nenhuma escola de Itapemirim tinha ficado melhor até ali, e nenhum quilômetro de estrada tinha sido asfaltado.

Os investimentos em Itapemirim, da ponte pronta ao Raio-x ainda por comprar

Anunciar repasse não é repassar, e autorizar obra não é construir. Separados pelo estágio em que estavam em 08 de setembro de 2025, os itens do pacote ficam assim:

  • Reinauguração da Ponte da Vila — descrita como já realizada. É o único item concluído. O comunicado não diz o que foi feito nela, quanto custou, quem executou nem por quanto tempo a ligação ficou fora de uso.
  • Pavimentação do acesso à Pedra do Frade e da Freira — R$ 5,61 milhões, cinco quilômetros, prazo de execução de 150 dias. O que foi anunciado é a autorização para o início das obras: nada estava construído.
  • Quadra poliesportiva do Assentamento Nova Safra — R$ 1,3 milhão, com Ordem de Serviço assinada. Também é autorização para começar, um degrau à frente do simples anúncio e ainda longe da entrega.
  • Quadra esportiva na EMEF Narciso Araújo — R$ 2,1 milhões, apresentada como investimento autorizado para construção.
  • Reforma, ampliação e construção de quadra no Centro de Educação Agrícola Adauto Lopes Corrêa — a unidade receberá R$ 2,7 milhões, no futuro do verbo usado pelo próprio comunicado.
  • Instrumentos musicais para escolas municipais — R$ 148,4 mil em repasse anunciado, para compra posterior.
  • Van de apoio às atividades escolares — R$ 698 mil, compra anunciada.
  • Aparelho de Raio-x — R$ 400 mil autorizados na modalidade de transferência fundo a fundo para o fundo municipal de saúde. O dinheiro sai do Estado; a compra é do município.
  • Pá carregadeira — autorização de aquisição, sem valor divulgado.

Some-se um item que não está na lista de anúncios e sim dentro de uma fala: a duplicação da Rodovia do Frade, que o governador descreveu como obra em curso, sem extensão, sem prazo e sem cifra.

Três itens do pacote — a duplicação, a pá carregadeira e a própria Ponte da Vila — vêm sem cifra alguma. Por isso o material não permite reconstituir como se chega aos R$ 14 milhões anunciados, nem quanto desse total corresponde ao que está descrito no texto.

Cinco quilômetros a partir do km 412 da BR-101, em 150 dias contados de quando?

A obra turística começa no quilômetro 412 da BR-101 e vai até os pés da Pedra do Frade e da Freira. Os dois números estão em quilômetros e não medem a mesma coisa: 412 é o ponto de partida na rodovia federal, e a extensão a pavimentar é de cinco quilômetros. A formação rochosa fica em Itapemirim, perto das divisas com Vargem Alta, Cachoeiro de Itapemirim e Rio Novo do Sul, e é frequentada por quem faz trilha e escalada.

O comunicado enquadra a obra no programa Caminhos do Turismo, que asfalta caminhos rurais de interesse turístico, e diz que ela emprega a tecnologia de pavimentação com Pavi-s. O que é Pavi-s, em que se diferencia do asfalto convencional e por que foi escolhido ali, o texto oficial não explica em nenhuma linha.

Os 150 dias também ficam soltos: não há data de assinatura de contrato, de ordem de início nem de abertura ao público. Sem o marco inicial, o prazo não permite ao visitante saber quando a subida deixa de ser de terra. E o comunicado não informa qual empresa executa o serviço nem como ela foi escolhida.

A previsão econômica que acompanha o anúncio — redução de custos logísticos, impacto no padrão de consumo e ganho de competitividade — aparece na prosa do próprio comunicado, sem estudo, sem número e sem ninguém a quem atribuí-la. É promessa do emissor, não resultado medido.

A metade escolar: duas quadras, instrumentos e uma van — e nenhum aluno contado

A parte de Educação do pacote tem quatro linhas, e vale ler o que cada uma financia. Duas são quadras esportivas: a da EMEF Narciso Araújo, por R$ 2,1 milhões, e a do Centro de Educação Agrícola Adauto Lopes Corrêa, dentro de um lote de R$ 2,7 milhões que inclui ainda reforma e ampliação. As outras duas são compras: R$ 148,4 mil em instrumentos musicais e R$ 698 mil numa van de apoio.

Duas ausências pesam nessa metade. A primeira: o comunicado não diz quantos estudantes há em nenhuma das unidades citadas, nem quantos passariam a usar as quadras. A segunda: os instrumentos musicais vão para escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental da rede municipal, mas quantas escolas são, e quais, o texto não informa — o repasse é anunciado em bloco.

Há ainda um detalhe de quem paga e quem entrega. A EMEF Narciso Araújo é municipal e os instrumentos vão para a rede municipal; o dinheiro é estadual. São entes diferentes, e o comunicado não descreve o que cabe a cada um na execução. A que rede pertence o Centro de Educação Agrícola Adauto Lopes Corrêa, o material tampouco esclarece.

Sobre a quadra do Assentamento Nova Safra, o texto oficial é mais detalhado: R$ 1,3 milhão, área total de 746,25 metros quadrados, novos banheiros e vestiários, iluminação, alambrado no entorno, calçadas refeitas, cobertura com telhas metálicas, instalações elétricas e hidrossanitárias e pintura geral. A obra é apresentada como parceria entre o Governo do Estado, por meio da Sesport, e a Prefeitura de Itapemirim — sem dizer quanto cabe a cada parte e sem prazo de conclusão.

Saúde, ponte e pá carregadeira: o que estava no fim do comunicado

O último parágrafo do texto oficial carrega três informações que não couberam na manchete. Os R$ 400 mil de saúde são um repasse fundo a fundo destinado à compra de um aparelho de Raio-x: o Estado transfere ao fundo municipal e a aquisição fica com Itapemirim. Em que unidade o equipamento seria instalado, quando o dinheiro entraria no fundo municipal e a partir de quando o aparelho atenderia são perguntas que o texto não responde. E o material não acompanha o passo seguinte: se a compra chegou a ser feita, ele não registra. Faltar registro é diferente de haver informação em contrário.

No mesmo parágrafo estão a autorização para aquisição de uma pá carregadeira, sem valor, e a reinauguração da Ponte da Vila, apontada pelo Estado como ligação central da cidade. É a única entrega concreta do dia, e chega ao leitor em meia linha, sem cifra.

A visita caiu no aniversário de 210 anos da cidade, no Dia de Nossa Senhora do Amparo, padroeira de Itapemirim.

As cinco falas do comunicado saíram todas do Governo do Estado

O comunicado traz cinco declarações: do governador, do vice-governador, do secretário de Estado do Turismo, Victor Coelho, do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, e do secretário de Estado de Esportes e Lazer, José Carlos Nunes. Todas são de integrantes do Governo do Estado, que é ao mesmo tempo quem anuncia o dinheiro, quem executa parte das obras e quem redige o texto.

Quatro dessas falas descrevem benefícios esperados e não acrescentam dado novo — por isso não foram reproduzidas aqui. A quinta traz duas informações que não estão em nenhum outro ponto do material:

Estamos fazendo a duplicação da Rodovia do Frade. Também realizamos diversas assinaturas na área da Educação, pois nossa prioridade é ter um ensino de qualidade e com boa estrutura física.

Casagrande falou assim durante a visita ao município, no ato em que os repasses foram apresentados. As duas frases importam por motivos opostos: a primeira revela uma obra rodoviária em curso que o comunicado não detalha em lugar nenhum; a segunda diz assinaturas, enquanto a prosa oficial usa autorizou e foram anunciados. Que instrumentos foram assinados na área da Educação, com que data e com que prazo de execução, o material não registra.

Ninguém de fora do Estado fala no comunicado: não há morador do Assentamento Nova Safra, direção da EMEF Narciso Araújo, professor, estudante nem representante da Prefeitura de Itapemirim — embora a prefeitura seja apresentada como parceira de uma das obras.

Uma nota sobre como o texto oficial apresenta as próprias falas

Vale registrar uma divergência interna do material, porque ela muda o que se pode atribuir a quem. O comunicado apresenta o vice-governador dizendo que ele exaltou os 210 anos da cidade — e, na fala transcrita logo abaixo, não há uma palavra sobre o aniversário. O parágrafo de apresentação descreve uma coisa e a declaração diz outra. Quando isso acontece, vale a fala, não o resumo de quem a introduz.

Prazo, empresa e número de alunos: as lacunas dos R$ 14 milhões

  • A data em que começam a correr os 150 dias da pavimentação, e quando a estrada abre ao público.
  • Qual empresa executa a obra do acesso à Pedra do Frade e da Freira, e como foi contratada.
  • O que é a tecnologia Pavi-s e por que ela foi adotada nesse trecho.
  • Quantas e quais escolas municipais recebem os R$ 148,4 mil em instrumentos musicais.
  • Quantos estudantes há na EMEF Narciso Araújo e no Centro de Educação Agrícola Adauto Lopes Corrêa.
  • Se os R$ 698 mil cobrem apenas o veículo ou incluem manutenção e operação.
  • Prazo de conclusão das duas quadras escolares e da quadra do Assentamento Nova Safra.
  • Quanto o Governo do Estado e quanto a Prefeitura de Itapemirim colocam na quadra de R$ 1,3 milhão.
  • Onde ficará o aparelho de Raio-x comprado com os R$ 400 mil e quando ele entra em uso.
  • O valor da pá carregadeira, o custo da Ponte da Vila e o que foi feito na estrutura.
  • A extensão, o custo e o prazo da duplicação da Rodovia do Frade citada pelo governador.
  • Como se chega ao total de R$ 14 milhões, já que três itens vêm sem cifra.

O que veio depois, em Itapemirim

Dois meses após esta visita, em novembro de 2025, um anúncio do mesmo tipo teve desfecho verificável na região: o acesso pavimentado ao Monte Aghá foi entregue, enquanto a UPA apresentada no mesmo ato ficou no estágio de anúncio — outra estrada, outro ato, e uma régua útil para medir a distância entre autorizar e concluir.

E há um item desta lista que reaparece depois. Em janeiro de 2026 o Estado voltou a Itapemirim com novos anúncios e, entre eles, a reforma da quadra do Assentamento Nova Safra apareceu outra vez como obra autorizada, pelo mesmo R$ 1,3 milhão, ao lado da autorização para construir uma UPA na cidade. Quatro meses depois da Ordem de Serviço descrita aqui, portanto, a quadra ainda era apresentada como obra a começar — e o mesmo R$ 1,3 milhão foi anunciado duas vezes, em duas agendas diferentes. Sobre o aparelho de Raio-x dos R$ 400 mil, nenhum dos dois anúncios volta a falar.

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