A OpenAI confirmou que o ChatGPT deixará de usar o travessão quando o usuário pedir. O ajuste foi anunciado por Sam Altman, que o comemorou como “uma pequena vitória”. Já a leitura de que essa mudança vai dificultar a identificação de textos escritos por inteligência artificial não é resultado de pesquisa: é a tese de Bruno Lois, editor da StartSe, em artigo publicado em 17 de novembro de 2025.
A diferença entre as duas coisas costuma se perder na leitura rápida. O que existe hoje é uma mudança de comportamento do modelo, restrita a um sinal de pontuação e condicionada a um pedido de quem está escrevendo. O resto — a previsão de que ficará mais difícil saber quem escreveu o quê — é avaliação de quem assina o texto, apresentada sem teste, sem amostra e sem número.
O que muda no ChatGPT e o que continua igual
Pela atualização descrita, o modelo passa a atender ao pedido de escrever sem travessão. Não há, no material, nenhuma alteração no modo como o sistema constrói frases, escolhe palavras ou organiza parágrafos. Segundo o próprio artigo, Altman não comentou se novas correções virão para atacar outros vícios de escrita da máquina.
Vale registrar o que isso significa na prática: o travessão sai do texto se o usuário assim determinar. Ele não desaparece sozinho, não é proibido e não indica, por si, que o texto passou por revisão humana.
Por que o travessão virou suspeito de ser coisa de máquina
Nos últimos meses, o sinal se tornou uma espécie de impressão digital dos modelos de linguagem. Nas redes sociais, formou-se a regra informal de desconfiar de qualquer texto com muitos tracinhos.
A explicação apresentada no artigo é de treinamento: os modelos foram alimentados com grandes volumes de livros, artigos e reportagens, ambientes em que o travessão é comum. O sistema passou a reproduzir o padrão em excesso, como se tivesse concluído que bons textos usam travessão. A frequência, portanto, vinha do material de treino, não de uma marca deliberada de origem.
O travessão existe desde o século XVI, muito antes de qualquer sistema automatizado. Tratá-lo como prova de artificialidade sempre foi um atalho, e é esse atalho que a atualização desfaz.
Os sinais que o artigo aponta e o que ele não mede
Para o editor, os marcadores que realmente denunciam produção automatizada continuam os mesmos: repetição, monotonia, explicações redundantes e frases que soam bem mas não levam a lugar nenhum. O texto afirma que esses são os indicadores usados por especialistas.
Nenhum especialista, porém, é nomeado. Não há estudo citado, instituição responsável, tamanho de amostra nem data de medição. O artigo também não traz taxa de detecção, precisão de qualquer ferramenta de detecção ou percentual de conteúdo gerado por inteligência artificial em circulação: esses dados não foram informados.
A consequência é direta para quem lê. Não é possível concluir, a partir desse material, que os detectores de texto automatizado pararam de funcionar, porque nenhum deles foi testado ali. O que o artigo sustenta é mais modesto: um indício visual popular perdeu utilidade.
Quem assina o texto e de onde ele vem
Bruno Lois se apresenta como jornalista e copywriter, e escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe, onde atua como editor. A tese sobre a dificuldade crescente de identificar textos de máquina é dele, não de um consenso técnico.
A origem do material também ajuda a situá-lo. A StartSe é uma empresa de educação continuada em tecnologia e negócios, com formações, MBAs, imersões internacionais e eventos no portfólio. O artigo original termina com uma oferta comercial de curso da própria empresa. É, portanto, ensaio de opinião publicado por quem vende formação no assunto que analisa, e não reportagem sobre uma medição independente.
Como separar o que já vale do que é previsão
Diante de um texto assim, três perguntas resolvem a maior parte da confusão: quem está afirmando, o que foi efetivamente medido e o que já vale hoje.
Neste caso, o que já vale é a mudança de pontuação a pedido do usuário, confirmada pela empresa que desenvolve o modelo. O que é previsão é o aumento da dificuldade de identificar autoria. E o que permanece sem resposta é a própria pergunta de fundo: nenhum sinal gráfico isolado prova autoria, e a distinção entre escrita humana e automatizada, na avaliação do editor, tem mais a ver com intenção, estilo e ritmo do que com pontuação.
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