Uma turma da 1ª série do Ensino Médio do Centro Estadual de Ensino Fundamental e Médio em Tempo Integral (CEEFMTI) Agesandro da Costa Pereira, em Vitória, passou um trimestre das aulas de Arte fazendo cinema. O resultado são curtas-metragens feitos com celular, do primeiro enquadramento ao corte final, reunidos pela escola sob o nome de Mostra de Cinema Agê. O trabalho está concluído: o texto oficial que o divulgou descreve etapa encerrada, não projeto em andamento. O que ele não traz é justamente o que o leitor procura primeiro — onde essas produções podem ser vistas.
Ficção, documentário e stop motion, tudo gravado no aparelho do bolso
As produções percorreram formatos diferentes: ficção, documentário e animação em stop motion. Antes de enumerá-los, o texto oficial escreve gêneros como — expressão que abre a relação em vez de fechá-la. Pode haver outros formatos entre os curtas, e o material não permite saber quais. Nenhuma obra é identificada por título, por tema ou por duração.
Entre os formatos citados, o stop motion é o que mais cobra método. Em vez de registrar movimento contínuo, quem anima fotografa o objeto, desloca a peça alguns milímetros, fotografa outra vez e repete o ciclo; na exibição, a sequência de imagens paradas passa a se mover. Cada segundo de tela sai de dezenas de fotos, o que obriga a turma a planejar o quadro antes de gravar e a manter câmera, luz e cenário estáveis do começo ao fim. É trabalho de bancada, não de improviso.
Quem segurou a câmera, segundo o próprio texto oficial
Em projeto escolar apresentado como produção, vale conferir os verbos antes de aceitar o rótulo: assistir a filme, receber oficina e participar de atividade são coisas diferentes de fazer o filme. Aqui a divulgação atribui as tarefas à turma. Os estudantes aparecem utilizando apenas smartphones para filmar e editar os curtas, e a superação das limitações técnicas é creditada a eles. A confirmação mais direta vem de quem operou o equipamento:
Foi muito divertido e novo para mim. Já conhecia um pouco de fotografia, mas entrar no audiovisual foi uma novidade. Adorei gravar junto com os amigos, dei boas risadas. O que mais gostei foi de comandar a câmera, pois é incrível como os detalhes podem mudar dependendo de como filmamos.
Quem fala é uma estudante da 1ª série que participou das gravações — o nome dela ficou fora desta reportagem, e o motivo está no fim do texto. Repare no verbo que ela usa: comandar a câmera. Filmagem e edição, portanto, têm dono declarado.
As demais etapas, não. O texto oficial não menciona roteiro, direção, atuação, montagem nem trilha sonora, e não diz quem cuidou de cada uma dessas frentes. Também não cita profissional contratado, técnico convidado ou parceria com produtora: a única pessoa adulta que aparece é a professora de Arte, na função de orientar.
Curtas-metragens feitos com celular: do aparelho que consome ao que produz
A troca de papel do celular é a tese pedagógica do projeto, e é a professora Thiara Pagani quem a formula:
A proposta foi transformar o celular, muitas vezes utilizado para consumo de conteúdo, em uma ferramenta de criação. Isso incentivou um olhar mais crítico e produtivo sobre a tecnologia, mostrando que eles podem ser produtores de cultura, e não apenas consumidores
Ela orientou o trabalho dentro das aulas de Arte e assina a condução da iniciativa. Na avaliação que faz do processo, o ponto não é a técnica:
Ver os estudantes se envolverem nesse projeto foi uma experiência única. A forma como eles assumiram a criação, encontraram soluções e se dedicaram a contar histórias que são suas me surpreendeu e emocionou. Não foi só sobre aprender técnicas ou cumprir tarefas; foi sobre descobrir o que têm a dizer e como dizer
São palavras da professora responsável pela ação, como a divulgação a identifica na segunda vez em que a cita.
Um trimestre de aula de Arte, sem edital, verba ou equipamento cedido
O material trata a mostra como iniciativa da própria unidade, desenvolvida no horário das aulas de Arte. Não há nome de programa, número de edital, repasse financeiro, equipamento emprestado nem formação específica oferecida ao professor. O detalhe dos aparelhos sustenta essa leitura: se a turma filmou e editou só com smartphones, o equipamento de trabalho era o que os estudantes já carregavam.
A rede estadual tem, em paralelo, um caminho institucional para o mesmo assunto — e ele passa longe daqui. Cinco meses antes desta mostra, um chamamento estadual ofereceu oficinas de audiovisual, a criação de um núcleo de audiovisual em cada município atendido e um conjunto de equipamentos para dez escolas públicas, com inscrição encerrada em agosto de 2024 e restrita a municípios de até 30 mil habitantes. Nada no material desta mostra a vincula àquele chamamento ou a qualquer outro programa: o que se descreve aqui nasceu e terminou dentro de uma disciplina.
Vale distinguir quem divulga de quem faz. O comunicado oficial descreve a experiência e a apresenta como resultado da rede, mas quem montou, filmou e cortou os curtas foi a turma, dentro do horário de uma disciplina — divulgar não é executar.
A mostra aconteceu; o convite para assistir, não
Um curta-metragem só termina quando alguém o vê. É nesse ponto que o material oficial se cala. Ele diz que a escola realizou a Mostra de Cinema Agê, mas não informa em que dia ela ocorreu, em que espaço, se houve sessão aberta às famílias ou à comunidade e quantas pessoas assistiram. Não há endereço de página, canal, perfil, plataforma de vídeo ou catálogo em que os filmes possam ser procurados, nem indicação de que ficarão disponíveis depois. Para quem lê de fora da escola, o que chega é a notícia de que as obras existem.
A lacuna se repete na rede. Um mês e meio antes, em novembro de 2024, uma turma de outra escola estadual pesquisou, roteirizou, gravou e editou um documentário sobre a antiga sala de cinema da própria cidade — e ali também o texto de divulgação afirmou que o vídeo tinha circulado sem dizer onde. No mesmo período, em outubro, outra escola de Vitória apareceu num projeto de placas de sinalização em braille, num arranjo distinto deste: o produto ali é objeto físico, instalado no próprio prédio, e por isso não depende de link nenhum para chegar a quem interessa.
Adiante, o audiovisual voltaria à sala de aula capixaba em outro papel. Em julho de 2025, portanto meses depois desta mostra, uma escola de Viana levou filmes já existentes para debate em sala e os alunos responderam gravando vlogs. A diferença entre os dois casos é exatamente a que este texto vem medindo: lá o cinema entrou como material de leitura; aqui, como obra a ser feita.
Sem contagem de curtas, sem títulos, sem nova edição anunciada
O que a divulgação não responde, e que faria diferença para estudante, família ou professor que queira repetir a experiência:
- quantos curtas ficaram prontos e quantos estudantes participaram — o texto fala em turma da 1ª série, sem número;
- quanto tempo dura cada produção e como cada uma se chama;
- que histórias foram contadas: a fonte afirma que os jovens trataram de histórias que são suas, mas não descreve uma sequer;
- se a mostra teve sessão pública, com data e local, ou se ficou restrita às turmas envolvidas;
- se houve seleção de melhores trabalhos, premiação ou inscrição em algum festival;
- como o trabalho entrou na avaliação da disciplina — se virou nota, com que critério;
- se haverá segunda edição. A divulgação não anuncia continuidade e tampouco a descarta; sobre 2025, não há uma linha.
Há ainda o balanço que o próprio texto faz. Ele afirma que o projeto produziu resultados pedagógicos significativos e lista ganhos — criatividade, pensamento crítico, protagonismo, autoestima, senso de pertencimento. Nenhum vem com medida, comparação, instrumento de avaliação ou prazo de observação. É a leitura que a rede faz do trabalho da escola, e vale como avaliação declarada por quem divulgou, não como efeito aferido.
A fala continua inteira; o nome da estudante, não
A divulgação oficial identifica pelo nome completo a estudante cuja fala está reproduzida acima. Esta reportagem manteve a frase inteira, do jeito que foi dita, e retirou a identificação. A razão é simples de verificar: nome completo, escola, série e cidade num mesmo parágrafo deixam de ser citação e viram endereço — chega-se à pessoa em uma busca. O trabalho é de dezembro de 2024; os índices de busca não esquecem, e daqui a muitos anos essa página continuará respondendo por um nome que já será de outra pessoa, com outra vida, para quem consultar por motivos que nada terão a ver com uma aula de Arte.
Há uma tensão real aqui, e ela não existe quando o assunto é prova de matemática: quem faz cinema assina obra, e crédito autoral é parte do trabalho. Tirar o nome de quem produziu tem custo — é reconhecimento que não vai para o currículo nem para o portfólio de quem começou agora. O custo do outro lado, porém, é maior e é irreversível: o crédito de um curta escolar rende uma linha hoje, e a exposição indexada dura enquanto a página existir. Quem quiser assinar o próprio trabalho poderá fazê-lo na ficha técnica do filme, onde o crédito pertence à obra e chega a quem a assiste, sem virar registro público colado ao nome de quem ainda cursa a educação básica. Não se trata de dúvida sobre a autoria: a turma fez, e o texto diz que fez.
O nome da professora fica, e a diferença não é arbitrária: ela responde profissionalmente pela iniciativa, fala na condição de quem a conduziu e assina uma escolha pedagógica. O da estudante sai porque, aos olhos de qualquer busca futura, ela é estudante da educação básica antes de ser autora — e nenhuma reportagem precisa do nome dela para contar que uma turma de Vitória fez cinema com o celular.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

