O Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) e a mineradora Vale S.A. assinaram na terça-feira (15), no Palácio Anchieta, em Vitória, um documento sobre combustíveis de baixo carbono e sobre captura de gás carbônico (CO₂). O estágio pesa mais do que o anúncio: o que Bandes e Vale assinaram é um protocolo de intenções, o degrau mais inicial de qualquer negociação. Não é contrato, não tem valor em reais, não escolhe projeto e não obriga nenhuma das duas partes a investir.
Pelo próprio texto divulgado pelo Governo do Espírito Santo, a finalidade do documento é avaliar modelos de negócio e possíveis estruturas de financiamento ligadas à descarbonização da indústria capixaba, com atenção às áreas de mineração e siderurgia. Avaliar é o verbo que está no material oficial. Nada ali indica financiamento aprovado, contratado ou sequer solicitado.
O que o protocolo entre Bandes e Vale garante hoje
Um protocolo de intenções registra o que duas partes pretendem estudar juntas. Pode virar contrato, pode virar linha de crédito e pode não virar nada — e o material trata a assinatura exatamente assim, como primeiro passo, não como resultado. O que passa a existir a partir da assinatura é a permissão mútua para trabalhar em conjunto em três frentes descritas no documento:
- compartilhar conhecimento entre o banco de desenvolvimento e a mineradora;
- elaborar estudos técnicos sobre modelos de negócio e formas de financiamento;
- reunir gente do mercado e especialistas, do país e de fora dele, para viabilizar o que vier a ser definido.
O que não passa a valer: nenhuma obra, nenhuma planta de combustível, nenhum contrato de fornecimento, nenhum crédito liberado e nenhuma meta de emissão assumida perante terceiro. Quem ler o anúncio e sair à procura de um empreendimento em funcionamento não vai encontrar, porque não foi isso que se anunciou.
Quem assinou e qual é o interesse de cada lado
A cerimônia reuniu o governador Renato Casagrande e o vice-governador Ricardo Ferraço, além dos secretários de Estado Sérgio Vidigal (Desenvolvimento) e Felipe Rigoni (Meio Ambiente e Recursos Hídricos). O texto de origem desta notícia é a divulgação oficial do próprio Governo do Espírito Santo: foi produzido por uma das partes do acordo e narra o acordo do ponto de vista de quem o assinou. Do outro lado da mesa está a companhia que o material descreve como a maior mineradora do Brasil, e que a diretoria do banco aponta como grande compradora do insumo que a parceria pretende ajudar a produzir. Nenhum dos dois é observador neutro da própria iniciativa — o que não invalida o anúncio, mas define como ele deve ser lido.
Na cerimônia, o governador resumiu assim a lógica do arranjo:
Estamos usando a força dos combustíveis fósseis para alavancarmos a energia limpa.
A frase é do governador Renato Casagrande.
Fundo de Descarbonização: meio bilhão anunciado, gestora ainda não escolhida
O único valor em dinheiro citado no anúncio não pertence ao protocolo, e sim a um fundo estadual mencionado pelo governador durante a cerimônia:
O debate na COP 30 é a implementação do financiamento e o nosso Fundo de Descarbonização já vai iniciar com meio bilhão de reais e tenho certeza que irá atrair novos investidores. Temos condições de publicar o edital para selecionar a gestora do Fundo
A declaração é do governador Renato Casagrande.
Os tempos verbais marcam a fase e merecem leitura devagar: vai iniciar e temos condições de publicar o edital. Na data da assinatura, portanto, o edital para escolher quem vai administrar o fundo ainda não havia sido publicado, e o meio bilhão de reais é o tamanho anunciado para o início do fundo — não dinheiro já aplicado em projeto. O material não informa de onde vem esse valor, quando o edital sairia, que critérios usaria para escolher a gestora, quem poderá pedir recurso ao fundo nem o que a COP 30, citada na fala, tem a ver com o cronograma estadual.
Afirmação ambiental sem número é promessa, não resultado
O anúncio é feito com três expressões que descrevem objetivo, e não medição: economia verde, energia limpa e descarbonização. Cabe perguntar o que o material entrega de dado verificável — e a resposta é nenhum. Não há tonelada de CO₂ evitada, não há percentual de redução, não há ano-base de comparação, não há período e não há qualquer indicação de quem faria a medição ou a auditoria do resultado. As tecnologias citadas, biometano, hidrogênio verde e captura e armazenamento de gás carbônico, aparecem em forma de lista, sem que o texto explique o que é cada uma, onde seriam produzidas no Estado, a que custo ou com que efeito sobre as emissões.
A própria empresa fala em metas sem dizer quais são:
Temos metas claras para reduzir nossas emissões e buscamos soluções inovadoras para alcançar esses objetivos.
A afirmação é da gerente de Mudanças Climáticas da Vale, Vivian MacKnight. O material não traz o número dessas metas, o ano em que deveriam ser cumpridas nem a base contra a qual a redução seria contada. Sem esses três elementos, meta é intenção declarada.
Do lado do banco, a assinatura foi colocada no começo da fila, e não no fim:
A Vale é um grande demandante do insumo, precisamos identificar e estimular o potencial de produção que o estado tem, e esta parceria é o primeiro passo para isso
A avaliação é da diretora Operacional do Bandes, Gabriela Vichi. Ou seja: pela descrição de quem assinou, o Estado ainda precisa identificar o potencial de produção desses combustíveis. Não há, no material, inventário de produção, lista de projetos candidatos ou município indicado.
O que o material oficial não informa
A ausência também é informação, e nenhum texto de divulgação costuma declará-la. Neste caso, ficam de fora:
- o prazo de validade do protocolo e o que acontece se ele não evoluir;
- quanto o Bandes pretende destinar a projetos dessa cadeia, e sob que condições de crédito;
- quais estudos serão feitos, por quem e em que prazo;
- onde, no Estado, essa produção poderia acontecer;
- a data prevista para o edital da gestora do Fundo de Descarbonização;
- o número das metas de emissão citadas pela mineradora e o ano de referência;
- se alguma etapa depende de licenciamento ambiental — o assunto não é mencionado uma única vez;
- por qual canal o público poderá acompanhar o andamento da parceria.
Um lado só: não há contraditório no material
Todas as manifestações reproduzidas no anúncio vêm das duas instituições que assinaram o documento e do governo que sediou a cerimônia. Não há avaliação independente, especialista sem vínculo com as partes, entidade ambiental ou representante de setor econômico ouvido. Isso não significa que exista oposição escondida — significa que o material não checou se existe. Ausência de crítica em texto oficial não é consenso: é escolha de quem escreveu o texto.
O vice-governador atribuiu à iniciativa um caráter inédito, afirmação que o material não submete a verificação:
A Vale está presente em alguns estados brasileiros, mas somos pioneiros numa iniciativa como essa.
A avaliação é do vice-governador Ricardo Ferraço. O diretor-presidente do Bandes, Marcelo Saintive, seguiu na mesma linha ao descrever as condições do Estado:
O Estado reúne condições ideais para esse tipo de iniciativa, com vocação logística, industrial e ambiental estratégica.
A frase é do diretor-presidente do Bandes, Marcelo Saintive. As duas declarações são juízos de valor de quem participa do acordo, e nenhuma delas vem acompanhada, no material, de comparação com outros estados ou de estudo que a sustente.
O tema já vinha sendo discutido no Estado
A conversa sobre mudar a matriz de energia da indústria capixaba não começou nesta assinatura. Meses antes, o assunto já havia reunido participantes em um fórum sobre transição energética e desenvolvimento sustentável no Espírito Santo, quando a discussão ainda estava restrita ao debate público, sem documento assinado entre banco e mineradora. O protocolo é o passo seguinte dessa agenda, e continua sendo um passo de estudo.
O que dá para fazer com essa informação agora
Pouca coisa, e isso precisa ser dito com clareza. Não há inscrição, edital aberto, chamada pública, linha de crédito disponível ou endereço para procurar. O documento assinado é entre duas instituições e não cria direito para empresa, trabalhador ou morador. O material também não divulga canal de atendimento sobre a parceria nem página onde os estudos serão publicados.
Para quem acompanha o setor, o marco a vigiar é objetivo: a publicação do edital que vai escolher a gestora do Fundo de Descarbonização. Enquanto ele não sair, o meio bilhão de reais anunciado permanece como valor previsto para o início do fundo, e a parceria entre Bandes e Vale permanece no estágio em que foi assinada — o de intenção.
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