O Governo do Estado juntou, num único dia e num único comunicado, coisas que estão em pontos muito distantes do calendário. Na sexta-feira, 26 de setembro de 2025, o governador Renato Casagrande e o vice-governador Ricardo Ferraço marcaram três entregas efetivas: a nova sede da Farmácia Cidadã Estadual, o começo do Serviço Especializado em Atendimento Vascular e a pavimentação concluída da Rodovia ES-357, com os acessos ao Terminal de Cargas de Colatina. Só que, entre as obras em Colatina listadas na agenda, as duas maiores cifras do dia não correspondem a nada construído: os R$ 35 milhões em viaturas foram apenas anunciados, e os R$ 5,6 milhões da creche pararam na assinatura da autorização de repasse.
Essa mistura é o que um pacote de entregas costuma esconder de quem lê corrido. Inauguração, autorização e anúncio aparecem no mesmo parágrafo, com o mesmo tom, e o leitor sai com a impressão de que tudo já existe. A separação abaixo é item por item, com o estágio de cada um, a cifra que o Estado divulgou para ele — quando divulgou — e quem aparece como responsável pela execução.
As obras em Colatina, item por item
Sete itens diferentes estão dentro do mesmo comunicado. Eles não se somam: os estágios são incompatíveis, dois deles não têm valor divulgado, um valor é de custeio anual e não de obra, e a nota oficial não apresenta um total. Qualquer número global aqui seria conta do portal, não informação do Estado.
| Item | Estágio na data | Cifra divulgada | Quem executa e quem paga |
|---|---|---|---|
| Pavimentação da Rodovia ES-357 e dos acessos ao Terminal de Cargas de Colatina, em trecho de 4,72 quilômetros | Entregue | R$ 17,9 milhões | Obra executada pelo Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo (DER-ES). O pagador aparece em voz passiva, sem sujeito: a nota fala em investimento, sem dizer de qual órgão sai o dinheiro. |
| Nova sede da Farmácia Cidadã Estadual, com 317 metros quadrados, no bairro Esplanada | Entregue | Nenhuma. O custo da obra e da mudança não foi divulgado. | Unidade estadual. A nota não nomeia quem executou a reforma nem informa se o imóvel é próprio ou alugado. |
| Serviço Especializado em Atendimento Vascular, na Clínica Saúde Fácil | Iniciado | Cerca de R$ 6,5 milhões por ano — custeio anual do serviço, não valor de obra | Iniciado pelo Governo do Estado por meio da Secretaria da Saúde (Sesa). A nota não informa de quem é a clínica onde o serviço vai funcionar. |
| Construção do Centro de Educação Infantil Municipal (CEIM) Nossa Senhora da Penha, com 424 vagas | Autorização de repasse assinada — nada construído | R$ 5,6 milhões | O dinheiro é do repasse estadual autorizado na agenda. A unidade é municipal, e a nota não diz quem vai tocar a obra nem em quanto tempo. |
| Computadores e notebooks para escolas da Rede Municipal | Recursos assegurados — sem compra declarada | Nenhuma. A nota não separa um valor para este item. | Destino é a rede municipal. A nota não informa quantos equipamentos, quem compra nem quando chegam. |
| 72 novas viaturas para a Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) e quatro caminhonetes 4×4 para a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) | Anunciado | Dentro dos R$ 35 milhões do Acordo de Mariana | Compra pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), com verba descentralizada pela Secretaria de Recuperação do Rio Doce (Serd). |
| Oito caminhões, oito viaturas de resgate e nove caminhonetes para o Corpo de Bombeiros Militar | Anunciado | A nota não diz se está dentro dos mesmos R$ 35 milhões ou se é outro dinheiro | Mesma via: compra pela Sesp, com verba descentralizada pela Serd. |
O próprio vice-governador reconheceu, na agenda, que o pacote reúne tempos verbais diferentes:
Comemoramos um conjunto significativo de investimentos que estão acontecendo e vão acontecer em Colatina.
A frase é de Ricardo Ferraço, que também coordena o Programa Estado Presente em Defesa da Vida. Segundo a nota, a comitiva estava na cidade desde a quarta-feira (24), em conversas com a Prefeitura, a Câmara de Vereadores e representantes da população.
A maior cifra do dia não é obra pronta
Vale insistir no ponto porque ele se repete em quase todo pacote de entregas. O maior número anunciado, R$ 35 milhões, é de veículos que ainda serão comprados. Uma das duas entregas físicas do dia — a nova sede da Farmácia Cidadã — não teve valor divulgado. E a única obra concluída com preço declarado é a rodovia, com R$ 17,9 milhões.
Há ainda um valor grande no texto que não pertence ao pacote do dia: os R$ 34,6 milhões que, segundo o Estado, o Governo Federal e o Governo do Estado aplicaram juntos em 2024 no fornecimento de medicamentos para a unidade de Colatina. É gasto de custeio do ano anterior, com medicamento, não com o prédio novo — e envolve dois entes, não um. Somá-lo ao restante inflaria em muito o tamanho aparente da agenda.
Um último cuidado de leitura: cifra de comunicado oficial mede o que o emissor se dispôs a pagar, não necessariamente o custo final da obra. Repasse autorizado é teto de contribuição, e o que o município puser por cima raramente entra na conta divulgada.
Farmácia Cidadã: endereço novo, horário não informado
Esta é a parte da agenda com efeito prático imediato para quem depende do serviço, e por isso merece o endereço completo. O atendimento passou a ser feito na Rua Papa Pio XII, nº 107, lojas 107A e 107B, no bairro Esplanada, em Colatina.
A unidade não atende só a cidade. Segundo a nota, ela recebe também usuários de Alto Rio Novo, Baixo Guandu, Governador Lindenberg, Mantenópolis, Marilândia, Pancas, São Domingos do Norte e São Roque do Canaã. Quem mora nesses municípios e depende dessa assistência farmacêutica é atendido nessa mesma porta.
O novo espaço tem 317 metros quadrados e comporta recepção ampla, área de dispensação, consultório farmacêutico, sala de assistência social, espaço de triagem, salas de coordenação, de Assistência Médica Ambulatorial (AMA), de digitalização e da Equipe Multidisciplinar de Avaliadores das Farmácias Cidadãs do Espírito Santo (EMAFES), além de sala de reuniões, copa, quatro banheiros e dois estoques, no térreo e no mezanino.
O motivo da mudança está no crescimento da procura, e os números do próprio Estado mostram o tamanho dele. Ao abrir, em 2009, a unidade tinha cerca de 3,2 mil processos ativos. Hoje passa de 10 mil, o que a nota descreve como aumento de mais de 210%.
Vale separar duas coisas que o comunicado apresenta juntas. Esses mais de 10 mil processos não são pacientes novos: são pessoas que já eram atendidas na sede antiga e passaram a ser atendidas em um endereço maior. O ganho aqui é de conforto, fila e acessibilidade — não de acesso a um serviço que antes não existia.
E aqui está a lacuna mais sentida por quem for até lá. A nota oficial não informa o horário de funcionamento da nova sede, não diz se é preciso agendar, não lista os documentos necessários, não informa telefone de contato e não diz o que acontece com quem procurar o endereço anterior — que, aliás, o comunicado nem menciona qual era.
Atendimento vascular: o que é, quem pode usar e o que falta saber
O Serviço Especializado em Atendimento Vascular começou pela Sesa e vai funcionar na Clínica Saúde Fácil, na Avenida Jonas Simonassi, bairro Maria das Graças. O público é o usuário do Sistema Único de Saúde (SUS) dos 15 municípios da Região Central de Saúde.
Vale entender o que a especialidade trata, porque o comunicado usa os termos sem explicar. A área cuida da circulação do sangue: varizes são veias dilatadas, em geral nas pernas; trombose é a formação de coágulo dentro do vaso, que trava a passagem do sangue; aneurisma é a dilatação da parede de uma artéria; e doença arterial periférica é o estreitamento das artérias que levam sangue aos membros. É por essa lista de doenças que a nota oficial justifica o serviço e insiste no diagnóstico precoce.
Os procedimentos que o Estado listou para a unidade são estes:
- consulta médica especializada em angiologia e cirurgia vascular;
- tratamento esclerosante não estético de varizes;
- ultrassonografia com doppler venoso e arterial de membros;
- trombectomia do sistema venoso.
Em linguagem de leigo: a primeira é a consulta; a segunda aplica substância na veia para fechá-la, e a nota faz questão de dizer que não é procedimento estético; a terceira é o exame de imagem que mostra o sangue correndo pelos vasos; e a quarta é a retirada do coágulo.
O investimento anual declarado é de cerca de R$ 6,5 milhões, e o Estado projeta 40.164 consultas, exames e procedimentos por ano. Esse é um número de oferta prevista, não de atendimento realizado — e o comunicado não informa quantos moradores da região já faziam esses mesmos procedimentos antes, por encaminhamento a outras cidades. Sem esse dado, não dá para saber qual é o ganho líquido.
Esse serviço vai trazer mais resolutividade para a região e mais qualidade de vida para os pacientes, já que muitas complicações graves podem ser prevenidas com diagnóstico precoce e acompanhamento vascular adequado
A avaliação é do superintendente Regional de Saúde de Colatina, Vaninho Mendes.
Os municípios cobertos pelo serviço são Águia Branca, Alto Rio Novo, Baixo Guandu, Colatina, Governador Lindenberg, Linhares, Mantenópolis, Marilândia, Pancas, Rio Bananal, São Domingos do Norte, São Gabriel da Palha, São Roque do Canaã, Sooretama e Vila Valério. A relação nominal corresponde aos 15 municípios declarados.
O que ninguém que precisa do serviço consegue saber pela nota: como se chega até ele. O comunicado não diz se o paciente precisa de encaminhamento da unidade básica, se entra por fila de regulação ou se pode procurar a clínica por conta própria; não informa a data em que as primeiras consultas começam, nem o horário de atendimento; e não esclarece se a Clínica Saúde Fácil é estrutura pública, contratada ou conveniada.
A rodovia entregue e o trecho que a nota não localiza
A pavimentação da ES-357 e dos acessos ao Terminal de Cargas é a entrega mais concreta do dia. São 4,72 quilômetros que ganharam calçada, faixa multiuso, acostamentos, rotatórias, três interseções, ponte sobre o rio Baunilha e as duas pistas de rolamento asfaltadas. O serviço saiu pelo DER-ES.
Foram aplicadas cerca de sete toneladas de CBUQ (Concreto Betuminoso Usinado a Quente) nas duas pistas de rolamento, acostamentos e também na faixa multiuso. Uma obra muito esperada pelo setor produtivo colatinense que vai impulsionar a economia local, além de trazer mais conforto e segurança para os usuários
Quem falou foi o diretor-geral do DER-ES, José Eustáquio de Freitas. O CBUQ que ele cita é a massa asfáltica quente, aplicada e compactada ainda em alta temperatura — o revestimento comum de rodovia. A quantidade aparece apenas nessa fala, e o material não a distribui por trecho.
Duas informações relevantes ficam de fora. O comunicado não diz entre que pontos está o trecho de 4,72 quilômetros nem se ele corresponde à rodovia inteira ou a um pedaço dela, e também não separa o que foi gasto na pista do que foi gasto nos acessos ao terminal — os dois entram na mesma cifra de R$ 17,9 milhões. Também não há informação sobre prazo de garantia da obra nem sobre o volume de tráfego que o trecho recebe.
A creche autorizada e os computadores sem número
Este é o item que mais pede cuidado de fase. O que aconteceu na agenda foi a assinatura da autorização do repasse de R$ 5,6 milhões para a construção do CEIM Nossa Senhora da Penha. Não houve início de obra, não houve inauguração e a nota não apresenta cronograma. Quem for à Prefeitura hoje procurar matrícula nessa unidade não encontra prédio.
As 424 vagas divulgadas — 264 de creche e 160 de pré-escola — são a capacidade projetada do prédio que ainda será construído. A nota não informa quantas crianças estão hoje na fila por vaga em Colatina, e sem esse número não é possível dizer quanto da demanda o CEIM resolve. Creche e pré-escola, vale lembrar, são etapas distintas da educação infantil: a creche atende as crianças mais novas e a pré-escola é a etapa imediatamente anterior ao ensino fundamental.
Junto veio a garantia de recursos para computadores e notebooks nas escolas da Rede Municipal — sem valor separado, sem quantidade e sem prazo. É a linha mais vaga do comunicado. Para efeito de comparação do que equipamento faz em sala de aula, em 2024 estudantes da Escola do Futuro de Colatina ficaram em 8º lugar num campeonato latino-americano, e no fim daquele mesmo ano a cidade reuniu trabalhos de alunos na 1ª Mostra Valorizando Talentos da Escola — episódios anteriores a esta agenda e sem relação com o repasse anunciado aqui.
A fala do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, registrada no comunicado, trata do valor da educação infantil em termos gerais, sem acrescentar prazo, cronograma ou contrapartida, e por isso não foi reproduzida aqui.
Viaturas: dinheiro de reparação, não do orçamento comum
Os R$ 35 milhões em viaturas têm uma origem específica, e ela muda a leitura do anúncio. O recurso vem do Acordo de Mariana, ou seja, de reparação por uma tragédia ambiental, e não do orçamento ordinário da segurança pública. Na prática, é dinheiro que existe porque houve um dano — e que chega às corporações por um caminho indireto: a verba é descentralizada pela Serd, a secretaria voltada à recuperação do rio Doce, e a compra é feita pela Sesp.
A distribuição divulgada foi esta: 72 viaturas para a PMES; quatro caminhonetes 4×4 para a PCES; e, para o Corpo de Bombeiros Militar, oito caminhões, oito viaturas de resgate e nove caminhonetes. As caminhonetes da Polícia Civil, informa a nota, atendem 11 cidades atingidas diretamente pela tragédia: Anchieta, Aracruz, Baixo Guandu, Colatina, Conceição da Barra, Fundão, Linhares, Marilândia, São Mateus, Serra e Sooretama. Os veículos do Corpo de Bombeiros vão para Baixo Guandu, Colatina, Marilândia, Linhares e Aracruz.
Duas ambiguidades ficam registradas, porque o texto oficial não as resolve. A primeira: a menção às 11 cidades vem logo depois de PMES e PCES aparecerem na mesma frase, e não fica claro se as 72 viaturas da Polícia Militar também se destinam a esse mesmo conjunto de municípios. A segunda: o comunicado apresenta os veículos do Corpo de Bombeiros em parágrafo separado, sem dizer se o custo deles está dentro dos R$ 35 milhões ou fora. Nenhum valor por unidade foi divulgado, e não há prazo de entrega para nenhuma das corporações.
O que o comunicado do Estado não informa
Reunindo as ausências, porque elas são parte da notícia:
- prazo de conclusão e de início de obra do CEIM Nossa Senhora da Penha;
- fila atual por vaga de creche e pré-escola em Colatina;
- quantidade, valor e prazo dos computadores e notebooks da rede municipal;
- custo da nova sede da Farmácia Cidadã e quem executou a obra;
- horário, forma de acesso, documentos exigidos e telefone das duas unidades de saúde;
- data das primeiras consultas do serviço vascular e critério de entrada do paciente;
- natureza da Clínica Saúde Fácil — pública, contratada ou conveniada;
- localização exata do trecho de 4,72 quilômetros da ES-357;
- prazo de entrega das viaturas e valor por veículo;
- se os veículos do Corpo de Bombeiros estão dentro dos R$ 35 milhões.
Um lado só da história
Todo o material que sustenta esta matéria é comunicado oficial do Governo do Estado — o mesmo ente que paga, executa parte das obras e anuncia o restante. Não há no texto ouvido nenhum morador de Colatina, nenhum usuário da Farmácia Cidadã, nenhum paciente à espera de consulta vascular, nenhum profissional de engenharia sem vínculo com o Estado e nenhuma voz de oposição na Câmara de Vereadores, embora a nota registre que a comitiva se reuniu com a Casa.
Ausência de crítica em material oficial não significa consenso: significa que só um lado foi consultado. O que está entregue pode ser verificado no local por qualquer pessoa; o que foi autorizado e anunciado depende de acompanhamento — contrato assinado, ordem de serviço, obra iniciada, veículo emplacado. Até lá, os R$ 35 milhões e os R$ 5,6 milhões continuam sendo intenção declarada, com data de anúncio e sem data de entrega.
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