Antibiótico na diarreia aguda de cães e gatos: quando é indicado — Direto Notícias

Antibiótico na diarreia aguda de cães e gatos: quando é indicado

A maioria dos episódios de diarreia aguda em cães e gatos não tem bactéria como causa e, por isso, não se resolve com antibiótico. A avaliação é da médica-veterinária Anna Carolina Rodrigues Santos, pós-graduada em Gastroenterologia Veterinária e Hematologia Veterinária, e aparece também na diretriz europeia sobre uso de antimicrobianos em diarreia aguda publicada em 2024. Nos dois casos, a conclusão vem com uma condição que não pode ser pulada: quem examina o animal, identifica a causa e define o tratamento é o médico-veterinário. Este texto explica o que o material técnico diz e o que ele não autoriza ninguém a fazer em casa.

Diarreia aguda é a que não passa de duas semanas

O primeiro ponto é o que o termo significa. Santos explica que a diarreia aguda não se estende por mais de duas semanas, sendo uma condição pontual e que não apresenta recorrência. Quadros que duram mais do que isso, ou que somem e voltam, já não se encaixam nessa descrição e pedem outra investigação.

Sobre a origem do problema, ela detalha:

Em cães e gatos suas principais causas são imprudências alimentares, mais comuns em cães do que em gatos, presença de parasitas, como vermes e protozoários, doenças infecciosas, tal qual, parvovirose, cinomose e as hemoparasitoses, e até mesmo intoxicações ou intermação

A avaliação é da médica-veterinária Anna Carolina Rodrigues Santos. Vale traduzir dois termos da lista: hemoparasitoses são infecções por parasitas que atingem a corrente sanguínea, e intermação é o quadro provocado por exposição excessiva ao calor. Nenhuma dessas causas é bacteriana — e é daí que nasce toda a discussão sobre o antibiótico.

Por que o antibiótico não ataca essa causa

Segundo Santos, nesses quadros o antibiótico não vai tratar a causa de base e ainda pode predispor ao desenvolvimento de disbiose, o que aumenta a possibilidade de o problema voltar em um futuro próximo por causa do tratamento inadequado. Disbiose é o desequilíbrio da população de micro-organismos que vive no intestino e ajuda na digestão e na defesa do organismo.

Há um segundo custo, que não recai só sobre o animal tratado:

Também não devemos esquecer do risco de resistência bacteriana

O alerta é da médica-veterinária. Resistência bacteriana é o processo pelo qual bactérias deixam de responder aos medicamentos que antes as eliminavam, o que reduz as opções de tratamento em infecções futuras — no mesmo animal e além dele.

Os sinais que transformam a diarreia em urgência

A informação de que a maioria dos casos dispensa antibiótico não é a mesma coisa que dizer que a maioria dos casos dispensa consulta. A diretriz de 2024 organiza suas recomendações justamente pela gravidade do quadro, e é a gravidade que muda a conduta.

O documento descreve o quadro leve como o do cão em bom estado geral, sem sinais de desidratação ou de doença sistêmica — ou seja, sem sinal de que o organismo inteiro foi atingido. Quando há doença grave, a mesma diretriz passa a sugerir o tratamento com antibióticos sistêmicos. Dois detalhes desse recorte são úteis para quem observa o animal em casa:

  • Sangue nas fezes, sozinho, não define a gravidade. A diretriz separa os quadros hemorrágicos dos não hemorrágicos e, nos casos leves e moderados, chega à mesma recomendação para os dois.
  • O que muda a classificação é o estado geral. Prostração, desidratação e sinais de que o animal está comprometido como um todo são o que separa o quadro leve do grave — e são o motivo para procurar atendimento veterinário sem esperar para ver no dia seguinte.

Há ainda um recorte de idade e de vacinação que o material destaca. O teste para parvovirose é recomendado para cães jovens com menos de seis meses e diarreia aguda; para cães acima de um ano com diarreia hemorrágica aguda; e para cães adultos não vacinados ou vacinados inadequadamente. Filhote com diarreia e vacinação incompleta é, portanto, exatamente o perfil que o material manda investigar para parvovirose — e investigar exige consultório.

Como o veterinário chega à causa

Para tratar bem, a médica-veterinária recomenda uma boa triagem, começando pela anamnese — a conversa em que o profissional levanta o histórico do animal, incluindo a exposição a doenças infecciosas e parasitárias e a possibilidade de alguma imprudência alimentar. É a etapa em que o relato de quem cuida vale tanto quanto o exame.

Em seguida, começamos a pensar em quais exames vão nos ajudar a guiar o diagnóstico. Um bom e velho exame de fezes, como o parasitológico, associado a teste rápido de giárdia ou parvovirose (se houver essa possibilidade), exame de sangue e de imagem, como o ultrassom abdominal, podem, sem dúvidas, elucidar o quadro e levar ao tratamento adequado

A descrição do roteiro é de Anna Carolina Rodrigues Santos. O teste para giárdia, acrescenta o material, deve ser considerado em cães jovens com diarreia aguda e é particularmente indicado naqueles cujo quadro não se resolve sozinho ou volta a aparecer.

O que sustenta o animal enquanto o quadro passa

Diante da diarreia, a escolha citada pela médica-veterinária é o tratamento de suporte: fluidoterapia — a reposição de líquidos e sais perdidos —, analgesia, anti-inflamatório se necessário, simbiótico para auxiliar na regulação da microbiota intestinal e alimentação adequada. Todos são itens de prescrição, definidos caso a caso por quem examina o animal.

Os probióticos também podem ser integrados à prescrição. Sobre eles, Santos afirma:

Um bom probiótico ajuda no tratamento das diarreias, independente de existir outra causa de base. Ou seja, mesmo se a causa for parasitária, o probiótico é bem-vindo, pois além de auxiliar na restauração da microbiota, melhora a barreira intestinal e aumenta a produção de ácidos graxos de cadeia curta, que podem melhorar a saúde intestinal

A explicação é da gastroenterologista veterinária. Ela acrescenta que não existem efeitos colaterais relacionados a esse tipo de medicação, mas relata que alguns pacientes podem apresentar reações individuais, como flatulência e distensão abdominal, ainda que raras. Já a diretriz europeia, quando trata do assunto, não apresenta recomendação favorável nem desfavorável ao uso de probióticos em cães com diarreia aguda — os dois recortes convivem no material e não se confundem.

O que a diretriz europeia de 2024 recomenda

Publicada em 2024 pela rede European Network for Optimization of Veterinary Antimicrobial Therapy (ENOVAT), a diretriz sobre uso de antimicrobianos em diarreia aguda canina organiza a orientação em recomendações por apresentação clínica. Quatro delas dizem quando não usar antibiótico: diarreia aguda não hemorrágica com doença leve; diarreia hemorrágica aguda com doença leve e bom estado geral, sem sinais de desidratação ou doença sistêmica; diarreia não hemorrágica com doença moderada; e diarreia hemorrágica aguda com doença moderada. Sobre esses cenários, o documento registra:

evidências científicas mostram que os antimicrobianos não conferem um efeito clinicamente relevante em animais com essas condições, independentemente da presença ou não de sangue nas fezes

O trecho é do próprio documento europeu. Do outro lado, nos quadros de doença grave — hemorrágicos ou não —, fica sugerido o tratamento com antibióticos sistêmicos, indicada a administração parenteral, por via intravenosa ou intramuscular. A escolha do medicamento, diz a diretriz, depende da gravidade do estado clínico do animal e da disponibilidade da medicação. É uma decisão que só existe dentro do atendimento veterinário, com o animal sob avaliação.

A duração também não é fixa: depende da resposta do animal, com avaliação diária durante a hospitalização. O documento pondera:

para a maioria dos quadros, o tratamento de três a sete dias é provavelmente suficiente para obter resolução clínica

A ponderação consta da diretriz. Vale registrar o alcance do texto: ele foi escrito sobre diarreia aguda em cães, e é assim que deve ser lido.

Melhorou depois do antibiótico não prova que foi o antibiótico

Resta a pergunta que sustenta o hábito: se o animal melhorou depois de tomar o remédio, não foi o remédio que resolveu? Anna Carolina Rodrigues Santos responde com outra pergunta:

Quando o animal faz uso de antibiótico essa não é a única medicação inclusa no seu protocolo de tratamento, certo? Geralmente, também são incluídos medicamentos de suporte e, até mesmo, fluidoterapia. Por isso, não tem como afirmar que o antibiótico resolveu o problema e, vale destacar, que a maioria dos casos são autolimitantes e apresentariam melhora de qualquer forma

A conclusão é da médica-veterinária. Autolimitante, no vocabulário clínico, é o quadro que se resolve por conta própria, com o suporte adequado e sem que o medicamento tenha sido determinante.

O que fazer com essa informação em casa

Nada do que está acima é receita. O material discute a decisão de um profissional diante do animal examinado, e é nesse lugar que ela precisa continuar. Não cabe a quem cuida começar antibiótico por conta própria — nem sobra de tratamento anterior, nem medicação de outro animal, nem indicação de conhecido. E, quando um antibiótico foi prescrito, interromper no meio porque o animal pareceu melhorar é decisão de risco: quem definiu a duração foi quem examinou o animal, e a própria diretriz condiciona esse prazo à resposta clínica avaliada dia a dia.

O que sobra de prático é mais simples e mais útil: observar o estado geral, contar ao veterinário o que o animal comeu, onde esteve e quando os sinais começaram, procurar atendimento quando houver prostração, desidratação ou piora, e não confundir ausência de antibiótico com ausência de tratamento. Suporte também é tratamento — e, no material, é o que resolve a maior parte dos casos.

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