Holanda proíbe a posse de gatos sphynx e scottish fold — Direto Notícias

Holanda proíbe a posse de gatos sphynx e scottish fold

A Holanda passou a proibir, a partir de janeiro, a posse de gatos das raças sphynx e scottish fold. A medida foi confirmada pelo ministro da Natureza, Jean Rummenie, e fecha um ciclo aberto em 2014, quando o país já havia vetado a criação e a venda das duas raças. A diferença agora é o alcance: além de não poder nascer nem ser comercializado em território holandês, o animal também não pode ser mantido em casa.

O argumento do governo é de saúde, não de estética. As duas raças devem sua aparência a mutações genéticas fixadas por seleção humana ao longo de gerações, e essas mesmas mutações vêm acompanhadas de problemas crônicos. Ao anunciar a regra, o ministro afirmou que o objetivo é:

evitar sofrimento desnecessário aos animais

A justificativa é do ministro da Natureza, Jean Rummenie.

A quem a proibição se aplica — e o papel do microchip

A norma não alcança todos os gatos dessas raças que vivem hoje na Holanda. Pelo texto, a proibição vale para dois grupos:

  • gatos nascidos após 1º de janeiro;
  • animais que não possuem microchip implantado.

O microchip é um dispositivo pequeno, aplicado sob a pele, que carrega um número único ligado a um cadastro com os dados do animal e de quem responde por ele. É esse registro que separa o gato que já vivia com um tutor antes do corte daquele que chegou depois: sem chip, não há como demonstrar quando o animal nasceu nem quem o mantinha.

Multa de €1.500 e fim das exposições

Tutores flagrados em descumprimento estão sujeitos a multa de €1.500, cerca de R$ 10 mil. O valor não foi calibrado apenas para punir: o Ministério da Natureza espera que a penalidade funcione como fator de dissuasão, ou seja, que o custo desestimule a compra antes que ela aconteça.

Competições, exposições e eventos envolvendo sphynx e scottish fold também passam a ser proibidos. O circuito de exposições é o que atribui valor a características físicas específicas: quanto mais marcado o traço, maior a premiação e maior a procura por filhotes que o tenham. Fechar essa vitrine reduz o incentivo econômico à reprodução.

No scottish fold, a orelha dobrada não é só a orelha

A característica que dá nome à raça — as orelhas voltadas para a frente — vem de uma alteração genética que afeta a cartilagem. O ponto que costuma escapar de quem escolhe o filhote é que cartilagem não existe só na ponta da orelha: ela reveste as articulações do corpo inteiro.

Por isso a alteração não se limita à aparência. Ela está associada a dores articulares, rigidez, dificuldade de locomoção e doenças degenerativas que se agravam ao longo da vida do animal. O traço estético e o problema de saúde são a mesma mutação: não há como selecionar um sem levar o outro junto.

Sem pelo, o sphynx perde uma barreira de proteção

Os gatos sphynx enfrentam um conjunto diferente de dificuldades. A ausência de pelagem retira do corpo a camada que ajuda a conservar calor, filtrar a luz do sol e distribuir a oleosidade natural da pele. Sem ela, o animal fica mais sensível ao frio, mais exposto a queimaduras solares e mais predisposto a infecções de pele, porque a gordura que se espalharia pelos fios acaba acumulada sobre o corpo.

Marco Melosi, presidente da Associação Nacional de Veterinários Italianos, detalhou o quadro:

Eles também têm problemas cardíacos e, se expostos ao sol, correm o risco de queimaduras. Além disso, precisam de proteção no inverno, pois sofrem muito com o frio. Portanto, essas mutações genéticas levam a uma vida extremamente dolorosa

A descrição é de Marco Melosi, presidente da Associação Nacional de Veterinários Italianos.

Veterinário e ex-criadora divergem sobre a medida

Para Melosi, o problema começa antes do nascimento do animal, na decisão de cruzar reprodutores que carregam a mutação:

Reproduzir um animal que sabemos que terá um risco muito alto de desenvolver patologias é problemático do ponto de vista ético

A avaliação é de Marco Melosi, em entrevista ao site italiano Fanpage.

A leitura não é consensual. A ex-criadora de sphynx Svetlana Dimtcheva sustenta que os animais não sofrem e que a proibição pode colocar a raça em risco:

O bem-estar animal é importante. É preciso ajudar esses gatos a regular a temperatura corporal. Nunca tive um gato que se queimasse de sol

A declaração é de Svetlana Dimtcheva, ao jornal holandês Telegraaf.

Ainda assim, o governo holandês manteve o entendimento de que os riscos ligados à estrutura genética dessas raças justificam a restrição, sobretudo quando avaliados do ponto de vista da prevenção de sofrimento evitável.

O que a Europa está revendo na criação de animais

A decisão holandesa não é um caso isolado. Ela acompanha um movimento mais amplo na Europa de revisão das práticas de criação e de posse de animais com características consideradas prejudiciais à saúde — a mesma linha de discussão que atinge traços físicos extremos fixados por criação.

O eixo do debate é a reprodução seletiva: a prática de cruzar animais para fixar um traço desejado. Quando esse traço é uma mutação que também produz dor, a questão em aberto é se a preferência do comprador basta para justificar o custo pago pelo animal ao longo de toda a vida.

Quem já convive com um desses gatos

Os próprios riscos descritos pelos veterinários indicam onde mora a atenção de quem já tem um sphynx ou um scottish fold em casa:

  • Frio: o sphynx não regula bem a temperatura corporal e precisa de abrigo aquecido no inverno.
  • Sol: exposição direta e prolongada aumenta o risco de queimadura na pele descoberta.
  • Pele: a oleosidade se acumula por não haver pelo que a distribua, o que exige limpeza regular.
  • Coração: a predisposição a problemas cardíacos recomenda acompanhamento veterinário periódico, e não só quando surge sintoma.
  • Articulações: no scottish fold, sinais como rigidez, recusa a pular e mudança no jeito de andar merecem avaliação, porque a degeneração é progressiva.

Fonte: R7

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