Corpo encontrado em Meaípe: o que a polícia apurou em Guarapari — Direto Notícias

Corpo encontrado em Meaípe: o que a polícia apurou em Guarapari

A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) detalhou nesta sexta-feira (06) o que apurou até agora sobre o corpo encontrado em Meaípe, em Guarapari, na tarde de terça-feira (03). A vítima é um homem de 75 anos, identificado pela Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES). A apuração está a cargo da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Guarapari, com apoio do Departamento Especializado.

São quatro os pontos que a polícia considera firmes neste momento: o corpo foi encontrado sem a cabeça e com indícios de carbonização; a perícia constatou um corte fino no pescoço e lesões no tórax; a morte deve ter ocorrido entre 13 e 20 de janeiro; e nenhuma pessoa foi apontada como autora do crime. Todas as linhas de investigação seguem abertas.

O chamado que levou a polícia ao sítio isolado de Meaípe

Na tarde de terça-feira (3), a Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) foi acionada para averiguar uma possível ocorrência criminal em um sítio na região de Meaípe. Uma testemunha havia relatado que estava sem notícias do proprietário há alguns dias e, ao ir até a propriedade, encontrou janelas quebradas e paredes destruídas.

No interior do terreno, os militares localizaram uma moradia aparentemente atingida por incêndio e, dentro dela, um corpo em avançado estado de decomposição, com indícios de carbonização e decapitação. As polícias Civil e Científica foram acionadas em seguida. O imóvel fica em área isolada, de difícil acesso e com vegetação densa, condição que marcaria as buscas dos dias seguintes.

“Assim que tomamos conhecimento da ocorrência, a equipe da DHPP de Guarapari, com apoio do Departamento Especializado, se deslocou imediatamente ao local. O primeiro objetivo foi compreender o que havia ocorrido. O corpo foi encontrado sem a cabeça, com um corte fino na região do pescoço, o que indica que não se trata de um corte grosseiro”

A descrição é do delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo, José Darcy Arruda.

Por que a confirmação de homicídio depende da perícia

Um corpo achado em circunstância violenta não vira homicídio por dedução. O enquadramento só se firma com o exame do corpo e do local, e é esse laudo que separa morte violenta de morte natural, acidente ou ação posterior ao óbito. Neste caso, foi o trabalho pericial que fechou a questão.

“A Polícia Científica foi fundamental para confirmar que se trata de um homicídio. Foi constatado um corte fino, compatível com instrumento pérfuro cortante, possivelmente uma faca, além de lesões na região do tórax. Esse tipo de crime foge do padrão mais comum e, por isso, exige ainda mais atenção”

A avaliação é do delegado Fabrício Dutra, chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP).

Instrumento perfurocortante é o termo técnico para a arma que perfura e corta ao mesmo tempo — no caso, possivelmente uma faca, conforme a perícia. A distinção não é detalhe de linguagem: o formato da lesão ajuda a reconstituir o gesto que a produziu e, por isso, entra na linha de investigação.

A cabeça não foi localizada, e a busca consumiu as primeiras 24 horas

“A cabeça não estava no local. Foram realizadas buscas com apoio do Corpo de Bombeiros e de cães farejadores da Polícia Civil. O terreno é extenso, de difícil iluminação e com vegetação fechada. Uma piscina existente no imóvel foi esvaziada, mas não havia vestígios do membro. A possibilidade de a cabeça ter sido levada por animal é considerada remota, diante das características do corte”

O relato é de José Darcy Arruda. Segundo Fabrício Dutra, as primeiras 24 horas de trabalho foram dedicadas justamente a essa procura e à preservação do local.

“As primeiras diligências envolveram buscas extensas com cães farejadores, perícia técnica e varredura completa do terreno. Trata-se de uma casa antiga, em área ampla e de mata fechada, o que exige técnicas específicas de investigação”

Entre 13 e 20 de janeiro: a janela que a perícia estabeleceu

“De acordo com as primeiras informações técnicas repassadas pela perícia, o óbito pode ter ocorrido entre os dias 13 e 20 de janeiro. Acreditamos no dia 13 como data mais provável, pois foi a última vez em que houve registro de uso do telefone celular da vítima. Já no dia 20, há relato de fumaça sendo vista na propriedade”

A informação é de Dutra. Se a data mais provável se confirmar, passaram-se cerca de três semanas entre a morte e o momento em que a polícia tomou conhecimento do caso, na terça-feira (03). A vítima vivia de forma reclusa, o que ajuda a explicar por que a ausência demorou a ser notada.

“Nós não tivemos uma cena de crime latente. Há um intervalo grande entre a possível data do homicídio e o momento em que a polícia tomou conhecimento do fato. Isso exige um trabalho ainda mais minucioso, tanto no campo quanto na inteligência”

Cena de crime latente é aquela em que os vestígios ainda estão preservados e podem ser coletados pouco depois do fato. Quando semanas se passam, chuva, calor, ação de animais e a própria decomposição degradam esse material, e a reconstituição passa a depender mais de registros indiretos — uso de celular, movimentação no entorno, depoimentos — do que do que sobrou no terreno.

Quem já foi identificado — e o que significa ser ouvido pela polícia

“Identificamos pessoas que tinham acesso eventual ao imóvel, como uma mulher que realizava limpeza periódica e um homem ligado a ela. Também apuramos que, recentemente, corretores de imóveis estiveram na propriedade, já que o imóvel estaria à venda. A família será intimada para esclarecer essa situação. Todas as linhas de investigação estão abertas”

A informação é de Fabrício Dutra.

Vale a leitura precisa dessa etapa: as pessoas citadas foram identificadas como quem tinha acesso eventual ao imóvel, e não apontadas como responsáveis pela morte. Ser chamado a depor — a oitiva, no vocabulário policial — é prestar informação sobre o que se sabe, e alcança rotineiramente vizinhos, prestadores de serviço e familiares. A intimação da família, no caso, tem por objetivo esclarecer a situação da venda do imóvel.

Do mesmo modo, dizer que todas as linhas de investigação estão abertas significa que nenhuma hipótese foi descartada e que a polícia não firmou uma versão única sobre motivação ou autoria. Até aqui, não há pessoa investigada como autora do crime, e ninguém foi preso.

O que a investigação faz a partir de agora

“Agora inicia-se um trabalho aprofundado para identificar com quem a vítima se relacionava, quem a viu pela última vez e quais circunstâncias envolvem o crime. A vítima vivia de forma bastante reclusa, praticamente isolada, o que dificulta a apuração. Mas vamos trabalhar com cautela, utilizando recursos tecnológicos e investigativos, para que o próprio corpo conte sua história”

O balanço é do delegado-geral José Darcy Arruda. Reconstituir a rotina e o círculo de convívio da vítima é o caminho usual quando não há testemunha direta do fato: quem a viu por último, com quem se relacionava e quem tinha motivo para estar no sítio.

“Neste momento, temos equipes em campo realizando novas buscas, policiais dedicados à oitiva de testemunhas e equipes de inteligência atuando de forma integrada. É um trabalho técnico, complexo e que exige cautela, mas não há crime perfeito. Vamos avançar e apresentar respostas à sociedade”

A conclusão é de Fabrício Dutra.

Como levar informação à polícia

Quem tiver informação sobre o caso pode acionar o Disque-Denúncia 181, que recebe relatos anônimos, sem identificação de quem liga. Em situação de emergência ou crime em andamento, o número é o 190. Nos dois casos, detalhes de data, horário e local costumam valer mais do que a impressão geral de quem informa.

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