Imagem divulgada pela rede estadual sobre a atividade de escape room virtual no CEEJA de Colatina

Escape room sobre preconceito racial na EJA de Colatina

Uma turma do Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) Pedro Antônio Vitali, em Colatina, percorreu as galerias de um museu que não existe. O percurso aconteceu dentro de um escape room montado na plataforma Genially, e cada galeria trazia um assunto ligado ao preconceito racial e às ideias que circulam sem prova. O comunicado oficial que descreve o escape room sobre preconceito racial tem data de 27 de setembro de 2024, e a aula já estava encerrada quando ele saiu. Nada aqui convoca ninguém para coisa alguma; sobre uma segunda edição, o material não fala.

Os verbos do comunicado: exploraram e foram desafiados

Vale ler devagar o que o texto oficial atribui aos alunos, porque a diferença muda a notícia. Eles exploraram as galerias e foram desafiados a resolver enigmas interdisciplinares. É tudo. O comunicado não diz que resolveram, não diz que pesquisaram para chegar até ali, não diz que entrevistaram ninguém e não registra que tenham escrito, gravado, montado ou apresentado coisa alguma depois. Não há mural, vídeo, exposição nem produto final no relato.

Quem montou o jogo também não foram eles. A frase da professora começa por aplicar um escape room com os alunos — o material chegou pronto à sala e a turma percorreu o que já estava montado. Não é detalhe de estilo: uma turma que constrói um jogo sobre estereótipos faz uma coisa; uma turma que joga um jogo pronto sobre estereótipos faz outra. O texto oficial descreve a segunda, e o comunicado nunca informa quem escolheu os temas das galerias nem quem escreveu os enigmas.

O que é um escape room e por que ele virou aula sobre preconceito racial

Escape room é um jogo em que o grupo precisa resolver uma sequência de charadas para avançar de sala em sala. Nasceu como diversão presencial, com portas trancadas e cadeados, e ganhou versão de tela: em vez de abrir a porta, o jogador clica no lugar certo e a próxima galeria se abre. O Genially, citado pelo comunicado, é uma dessas ferramentas de tela, em que o professor monta as etapas e distribui o link para a turma.

Levar isso para a sala de aula é o que o texto oficial chama de gamificação: usar regra, desafio e recompensa de jogo para ensinar conteúdo que normalmente viria em prova ou em texto corrido. E o comunicado cita ainda as metodologias ativas, expressão que descreve as práticas em que o aluno resolve, tenta e erra em vez de assistir. Nenhuma das duas palavras é explicada no material original — e nenhuma delas informa o que a turma efetivamente aprendeu.

Quantas galerias, quais temas: a lista nunca fecha

O comunicado escreve galerias no plural e não diz quantas são. Cada uma teria tratado de um assunto ligado ao preconceito racial e ao que passa por óbvio sem ser verdade — e nenhum desses assuntos é nomeado. Não há exemplo de estereótipo desmontado, não há exemplo de enigma, não há uma pergunta reproduzida. O leitor sabe que existiam salas com assuntos dentro, e nada além disso.

A única descrição dos enigmas aparece duas vezes no mesmo texto, com as mesmas palavras: na legenda da foto e no fecho do primeiro parágrafo. Eram interdisciplinares e desmontavam estereótipos comuns. Interdisciplinar significa que mais de uma matéria entrou na charada — mas quais matérias, o comunicado não diz em nenhum dos dois lugares.

A professora que aplicou a atividade é a única voz do texto

Aplicar um escape room com os alunos da EJA foi uma estratégia essencial para desmistificar os mitos do preconceito racial de forma interativa, promovendo a colaboração e o pensamento crítico. Além disso, a atividade proporcionou acesso à tecnologia, ampliando suas competências digitais enquanto refletiam sobre a importância da ciência no combate às desigualdades

A professora Klécia Rizzolli Rossoni explicou assim a escolha, no comunicado com que a rede divulgou a aula, e ela é a única pessoa ouvida do começo ao fim. Fora dela, quem aparece falando é a própria escola, que resume sua posição sobre o ensino semipresencial. Nenhum estudante é ouvido: sobre o que a turma pensou do assunto, o texto traz apenas a informação, dada pela professora, de que refletiam enquanto jogavam.

Vale dizer o que o material também não descreve: cor, origem ou trajetória de qualquer das pessoas citadas. Ninguém na sala é apresentado ao leitor, nem sequer pela idade ou pelo tempo que passou fora da escola. Quem lê fica sabendo que houve uma aula sobre preconceito racial e não fica sabendo nada sobre as pessoas que a viveram — o que é escolha de quem redigiu o comunicado, e não lacuna desta apuração.

Conscientização é o objetivo declarado, não o resultado medido

O comunicado diz que a iniciativa buscou promover a conscientização sobre preconceitos étnico-raciais ligados à cor da pele e a outras características biológicas. Buscar promover é intenção, e intenção é o que se escreve antes da aula. Depois dela, o texto não apresenta um único indicador: não há avaliação aplicada, não há comparação com outra turma, não há registro do que os alunos responderam, não há acompanhamento posterior. A atividade foi realizada — e atividade realizada é atividade, não resultado.

O mesmo vale para a frase de que os enigmas desmontam estereótipos comuns, escrita no presente, como efeito garantido. É a descrição do que o jogo se propunha a fazer. O que ele fez com quem jogou, o material não mede e não pergunta.

EJA semipresencial: o que o comunicado explica pela metade

A escola sustenta a escolha do jogo com um argumento sobre o formato: a modalidade semipresencial exige um ensino flexível e feito sob medida, porque cada pessoa matriculada chega de uma vida diferente e aprende num ritmo próprio. É a explicação de por que uma atividade de resolver sozinho, no tempo de cada um, cabe bem ali.

Falta a outra metade, que é justamente a que interessa a quem quer estudar. O texto não diz o que é um CEEJA nem em que ele difere de uma escola comum. Não informa a idade mínima para entrar, o que é preciso apresentar na secretaria, se existe período de inscrição ou se dá para começar em qualquer mês, se o curso avança disciplina por disciplina, quem marca as provas, quantas vezes por semana a pessoa precisa comparecer, nem que documento ela leva embora ao terminar. Também não há telefone, endereço ou página da unidade de Colatina para quem terminasse a leitura querendo se matricular.

Da quantidade de alunos à data da aula: o que ficou sem resposta

  • Quantos estudantes participaram — o comunicado não traz um número sequer, em nenhum ponto do texto.
  • Quando a atividade aconteceu — há a data em que a rede divulgou, não a data em que a turma jogou.
  • Qual turma, qual etapa — as palavras turma e etapa não aparecem no material.
  • Quais disciplinas entraram — os enigmas são chamados de interdisciplinares, e nenhuma matéria é nomeada.
  • Quem conduziu além da professora citada — não se sabe se houve equipe, coordenação pedagógica ou apoio de fora.
  • De onde veio o escape room — se foi produzido na escola, adaptado de material pronto ou cedido por terceiros.
  • Se a turma concluiu o jogo — o texto informa o desafio proposto e não informa o desfecho dele.
  • Se houve produto final — nada indica mural, vídeo, apresentação ou exposição depois da aula.
  • Se há vínculo com data ou norma — o comunicado não cita lei, diretriz, portaria, programa nem efeméride alguma.
  • Se a atividade se repetiu — sobre o que veio depois, o material simplesmente não fala.

Duas dessas ausências merecem uma linha a mais. A rede estadual mantém um calendário de datas indígenas e afro-brasileiras à disposição das escolas, e este comunicado não o menciona em nenhum momento — nem ele, nem qualquer outro programa de rede. Tratar a aula de Colatina como parte de uma política estadual seria juntar duas coisas que o texto oficial não junta. Some-se a isso um traço do próprio gênero: o texto foi escrito pela rede que promoveu a aula, e é ela quem assina o elogio ao que a aula produziu. Ninguém de fora examinou a atividade, a comunidade escolar não é consultada em nenhuma linha, e a turma não é chamada a dizer se aquilo funcionou.

A mesma escola voltou a aparecer sete meses depois

Este CEEJA de Colatina não some do noticiário. Em abril de 2025, a unidade montou uma célula animal com bolo de chocolate, brigadeiro e laranja para uma turma que incluía um estudante surdo, com intérprete de língua de sinais em sala — e quem conduziu a aula foi uma professora de mesmo nome que a citada aqui. Duas semanas antes, na mesma escola, estudantes com deficiência visual mergulharam as mãos em água a temperaturas diferentes para entender calor pelo tato. As duas aulas são posteriores a esta, e nenhuma delas volta ao tema racial.

No eixo do preconceito racial, o registro mais próximo é anterior: em agosto de 2024, um mês antes do escape room, uma turma da EJA de uma escola estadual de outro município da mesma rede leu um conto do século XIX numa roda de leitura sobre relações étnico-raciais. São duas turmas de EJA distantes uma da outra, e nenhum dos dois comunicados menciona o outro. Em Colatina, o assunto voltaria em dezembro de 2025, com outra escola do município a ler obras de autores negros e indígenas dentro da carga horária regular, mais de um ano depois desta aula.

Quanto à moldura de rede que falta neste comunicado: a rede estadual passou a oferecer às escolas, em janeiro de 2025, um calendário de datas indígenas e afro-brasileiras. É material que veio quatro meses depois do escape room, e nada no texto de Colatina o antecipa ou o invoca.

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