Estudantes da EEEFM Luiz Manoel Vellozo, escola estadual de Vila Velha, passaram quatro aulas com pincel, tinta e papel para representar as aves que vivem dentro e ao redor da própria escola. A oficina de aquarela na escola ocorreu nos dias 26 de maio e 2 de junho de 2025, ficou a cargo da professora de Artes Fabiana Pedroni e integra o projeto Retratos da Fauna: mapeando a biodiversidade da Escola, que junta Biologia, Geografia e Artes.
O resultado ainda não está visível para ninguém de fora da sala. O material de divulgação informa que as produções serão reunidas num livro ilustrado coletivo, em algum momento adiante. Sem data de publicação, sem tiragem, sem exposição anunciada e sem endereço — físico ou digital — em que as aquarelas possam ser vistas. Quem sair desta matéria atrás das obras não tem para onde seguir.
A oficina de aquarela na escola teve três professoras — e quem pintou foram os estudantes
Vale desfazer a inversão que o texto de origem embute. Aquarela é material e método: ela não promove educação ambiental nem desperta expressão artística por conta própria. Quem observou as aves, registrou o que viu e transformou isso em imagem foram os estudantes da unidade. Quem montou a situação em que isso pôde acontecer foram professoras com nome e disciplina.
São três as docentes que o material nomeia, cada uma numa função distinta:
- Fabiana Pedroni, de Artes, ministrou a oficina e as quatro aulas de técnica;
- Lívia Cavalcante de Souza, de Biologia, e Janete Souza de Oliveira, de Geografia, coordenam a iniciativa.
Separar as funções não é preciosismo: é o que permite dizer quem responde pelo quê. Coordenar o projeto e dar a aula de técnica são trabalhos diferentes, e o material atribui cada um a pessoas diferentes. Nenhuma das três é apresentada como autora das pinturas — essa parte é dos estudantes, e é a única atividade do relato cujo produto se pode segurar na mão.
As aves do Parque da Mantegueira, um assunto que a divulgação não abre
O recorte ambiental do trabalho é estreito e específico: aves. Não é biodiversidade em geral, não é clima, não é resíduo. O material afirma que os estudantes se voltaram para as espécies que habitam o ambiente escolar e o entorno, com atenção especial às do Parque da Mantegueira, descrito ali como área de remanescente da Mata Atlântica próxima à escola. Remanescente é o trecho que sobrou da cobertura vegetal de um lugar, em contraste com o que foi ocupado ao redor.
O assunto para por aí. Nenhuma espécie de ave é citada em nenhum momento, nem pelo nome popular nem pelo científico. O texto igualmente cala sobre a extensão do parque, sobre quem cuida dele, sobre a distância até a escola e sobre existir ou não proteção legal incidindo naquele trecho.
Fica em aberto, ainda, um ponto que muda o caráter da atividade: em nenhuma linha o texto afirma que a turma foi até o parque. As palavras usadas são observar, registrar e representar as aves do ambiente escolar e do entorno — o que tanto cabe numa saída a campo quanto num trabalho feito no pátio da escola, ou a partir de imagens. Saber qual dos casos ocorreu é justamente o que distingue observação de natureza de exercício de desenho, e a nota não permite decidir.
O nome da estudante ouvida não vai nesta reportagem
O relato abaixo é de uma estudante do ensino médio da escola. Na divulgação oficial ela aparece com nome completo e com a série que cursa; nesta matéria, os dois dados ficam de fora por decisão editorial. O critério é fixo nestas páginas e independe de a matéria ser elogiosa: identificar quem está na educação básica deixa um rastro permanente em buscadores, colado a uma turma que não passa de algumas dezenas de pessoas, dentro de uma escola conhecida pelo nome. Ela não foi premiada nem eleita para representar ninguém — o nome ali ilustra, não é o fato. O das professoras permanece, porque elas assinam a iniciativa como profissionais. O que ela disse está reproduzido abaixo na íntegra:
Achei muito divertido trabalhar com aquarela! Aprendi várias técnicas e consegui observar melhor os detalhes dos pássaros da Mata Atlântica. Foi uma experiência diferente e muito legal!
Quem fala é uma estudante do ensino médio da unidade.
A leitura das coordenadoras: a arte como ponte entre duas disciplinas
Entre as avaliações que a divulgação reúne, a que descreve um mecanismo, e não apenas satisfação, é a da professora de Geografia:
Foi muito bonito ver como a arte serviu como elo entre o conhecimento científico e a expressão criativa. Eles se conectaram com a natureza de forma genuína
A avaliação é de Janete Souza de Oliveira, uma das duas coordenadoras do projeto.
O material também lista ganhos pedagógicos que atribui à atividade — mais capacidade de observação, trabalho em grupo e valorização da biodiversidade —, além de pesquisa científica, observação sistemática e pensamento crítico. Todos são afirmados pelo próprio texto de divulgação, sem apresentar avaliação, medição ou instrumento que os sustente. Valem como a leitura que o promotor da atividade faz do próprio resultado.
Sete perguntas que o texto de divulgação deixa sem resposta
- Quantos estudantes passaram pela oficina, vindos de quantas turmas e de quais séries.
- Quantas aquarelas foram produzidas ao todo, e se cada estudante fez uma ou várias.
- Quais aves foram retratadas — nenhuma espécie é nomeada.
- Onde as pinturas estão agora: se ficaram com os autores, se estão expostas na escola ou guardadas.
- Quando sai o livro ilustrado coletivo, quantos exemplares terá, quem edita e se haverá versão digital ou distribuição fora da escola.
- Se houve saída de campo ao Parque da Mantegueira e, em caso positivo, quantas e com que acompanhamento.
- Se o projeto continua no restante do ano letivo ou se chega a outras escolas da rede. O texto não anuncia nova etapa e tampouco declara encerramento: sobre o futuro, existe silêncio, não uma decisão informada.
Nenhum desses buracos é descuido da escola: é o tamanho que um texto de divulgação tem, escrito pela rede que promoveu a atividade e do ponto de vista dela. Ninguém de fora da unidade é ouvido, e o único depoimento de quem executou o trabalho é o da estudante citada acima. Não aparecer ali quem avalie o projeto por fora não significa que essa avaliação não exista.
Arte entrando pela porta da escola já tinha acontecido em Vila Velha
O formato tem precedente no município — oito meses antes desta oficina, em outubro de 2024, houve workshop de desenho com carvão e pintura com tintas minerais em escola de Vila Velha, com outro material e outra técnica, em episódio independente deste. E, poucos dias antes desta oficina, em 5 de junho de 2025, estudantes de Vila Velha visitaram uma aldeia indígena em outro município, em projeto de tema diferente. O material desta matéria não relaciona as três iniciativas nem afirma que envolvem a mesma unidade de ensino.
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