Registro da agenda do Governo do Estado em Nova Venécia, quando foram anunciadas obras de educação, infraestrutura e saúde

Obras anunciadas em Nova Venécia: a fase real de cada item

O governador Renato Casagrande passou o sábado (30) em Nova Venécia, na microrregião Noroeste, numa agenda com anúncios de Educação, Infraestrutura e Saúde. Das obras anunciadas em Nova Venécia, o próprio material do governo põe duas na frente: a EEEFM Dom Daniel Comboni, que vai passar por reforma e ampliação, e o trecho da Rodovia ES-137 — a Rodovia do Café — entre os KMs 121 e 126, cujas obras de implantação foram autorizadas a continuar. Nada foi entregue naquele dia. O que a agenda produziu foi uma ordem de serviço assinada, um repasse autorizado, um convênio anunciado e a liberação de dinheiro para postos de saúde.

A maior cifra do dia é de uma obra que ainda não começou

Foi na solenidade oficial que a EEEFM Dom Daniel Comboni ganhou sua Ordem de Serviço, assinada pelo governador. O Estado põe R$ 12,5 milhões na reforma e ampliação da unidade — o maior valor da agenda destinado ao município. Ordem de serviço é a autorização para que a obra comece: naquela data não havia canteiro, não havia etapa concluída e nenhum prazo de entrega foi divulgado.

Segundo o material do governo, mais de 1.000 estudantes já matriculados na unidade serão beneficiados diretamente. O número conta quem estuda ali hoje, e não vagas criadas: o release não diz se a ampliação eleva a capacidade da escola e, se elevar, em quanto.

Pelo que o projeto prevê, a obra tem duas frentes. A primeira é um bloco educacional novo, que reúne:

  • salas de aula climatizadas, laboratórios, auditório e sala de leitura;
  • cozinha e refeitório modernizados;
  • quadra poliesportiva e urbanização da área externa.

A segunda frente é a parte que não aparece: instalações elétricas, rede lógica, sistema hidrossanitário e o sistema de prevenção e combate a incêndio, todos listados entre as melhorias previstas. Autorizações desse mesmo tipo aparecem com frequência nas agendas do governador ao lado de entregas reais — em junho de 2025, por exemplo, uma delas saiu no mesmo evento em que uma quadra poliesportiva foi inaugurada na Serra, o que ajuda a enxergar a distância entre autorizar e entregar dentro de uma única solenidade.

A rodovia abre o anúncio e é o único destaque sem valor

O outro destaque é a Rodovia ES-137, a Rodovia do Café: o governo autorizou que sigam as obras de implantação do trecho entre os KMs 121 e 126. É o único destaque do dia que o material oficial apresenta sem cifra alguma. Não há valor de contrato, não há prazo, não há empresa executora informada e não há explicação sobre por que a obra precisava ser retomada.

O que existe sobre o dinheiro dessa frente está na fala do governador, no desfile da manhã:

“Quero parabenizar a todos, pois é uma festa que envolve toda a comunidade. Estamos trazendo novos investimentos em parceria com a Prefeitura e Assembleia Legislativa. Vamos retomar as obras da rodovia até São Gabriel da Palha, com o dinheiro já empenhado e na conta do Município. Além de investir na ampliação de escola e na construção de creche. São obras de um Governo organizado e municipalista que fazem diferença de verdade para a população”

Casagrande falava no desfile que abre a Festa da Cappitella, com as famílias descendentes dos imigrantes italianos da cidade, antes da solenidade em que as assinaturas ocorreram. A fala acrescenta dois dados que o corpo do anúncio não traz — o recurso já estaria empenhado e depositado — e, ao mesmo tempo, descreve a rodovia de outro jeito: enquanto o texto oficial delimita o trecho aos KMs 121 e 126, a declaração fala em retomar as obras até São Gabriel da Palha. O material não concilia as duas descrições nem diz de qual município é a conta que recebeu o empenho.

Vale a comparação de estágios: autorizar obra rodoviária é etapa anterior a executá-la, e a diferença aparece no próprio calendário do Estado — em julho de 2025 o Governo autorizou obras de revitalização de rodovia em Domingos Martins, uma frente diferente desta, em outra cidade.

A creche é municipal, e o Estado entra com o repasse

O bairro Aeroporto vai ganhar um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), e o dinheiro sai do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (Funpaes): cerca de R$ 6,2 milhões, cujo repasse Casagrande autorizou na mesma agenda. A construção segue o plano que a Prefeitura de Nova Venécia apresentou.

Duas informações se separam aqui, e o release as apresenta juntas. Quem paga é o Estado, pelo fundo. Quem planejou e vai tocar é a Prefeitura — a unidade é municipal, e o plano é dela. Repasse autorizado é um estágio anterior à ordem de serviço: significa que o dinheiro foi destinado, não que a obra já pode começar. O material não informa prazo, não informa quantas crianças a unidade atenderá nem quando o bairro Aeroporto passa a contar com ela.

Asfalto no Parque de Exposições: convênio previsto, sem rua listada

O item de Infraestrutura do anúncio é a pavimentação asfáltica do Parque de Exposições e de ruas da sede do município. O Estado diz que vai realizar a obra e cita um investimento previsto da ordem de R$ 8 milhões, amarrado a um convênio com a Secretaria de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedurb).

Os dois termos em destaque marcam o estágio: verbo no futuro e valor previsto, não contratado. O anúncio também não fecha a lista — fala em diversas ruas, sem dizer quais nem quantas, de modo que nenhum morador consegue saber, pelo texto, se a rua dele está dentro. Pacotes com esse mesmo desenho já passaram por outras cidades capixabas: em maio de 2025 o Estado reuniu a reabilitação de uma rodovia e outras obras em Conceição do Castelo, misturando na mesma agenda itens prontos e itens apenas autorizados.

Um milhão para os postos, e quatro obras que já estavam de pé

As Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município entraram no 2º ciclo do Plano Decenal APS +10 e receberam a assinatura de um repasse de R$ 1 milhão para reforma e ampliação. Aqui o release usa a voz passiva e some com o sujeito: não diz quem assinou pelo município, quais unidades entram no pacote nem quantas são.

Um dado à parte, e o mais concreto do texto: há quatro unidades de saúde em construção na cidade, com R$ 8,6 milhões do Estado, dinheiro do 1º ciclo do mesmo plano. É o único trecho do anúncio que descreve obra fisicamente em andamento em Nova Venécia — e ele não faz parte do que foi assinado no sábado: vem de um ciclo anterior.

Um aviso de leitura, porque o release repete o mesmo algarismo com sentidos diferentes: o 1 aparece como R$ 1 milhão de repasse e como 1º ciclo do plano, e o 2 aparece apenas como o número do ciclo atual, sem valor associado. São coisas distintas na mesma frase.

O fecho troca de mapa e leva os números maiores

O último trecho do release abandona Nova Venécia e abre o mapa para o Espírito Santo inteiro. São R$ 68 milhões previstos pelo Estado para reformar e ampliar UBS em todo o território capixaba. A primeira etapa do Plano APS +10 já teve 108 unidades autorizadas, espalhadas por 52 municípios, com R$ 270 milhões em investimento. Dessas 108, o governo registra 14 UBSs inauguradas.

Duas observações mudam o peso desse parágrafo. A primeira: R$ 270 milhões é a maior cifra de todo o texto e não tem relação com Nova Venécia — é o número da etapa estadual. A segunda: das 108 unidades autorizadas nessa etapa, o próprio material registra 14 inauguradas. Esse é o único verbo de entrega do anúncio inteiro, e ele descreve obras de outros municípios. O release não diz em quanto tempo a primeira etapa foi autorizada nem qual é o prazo previsto para as unidades restantes.

Ordem de serviço, convênio e repasse não são a mesma coisa

As obras anunciadas em Nova Venécia estão em quatro estágios administrativos diferentes, todos empilhados sob a mesma palavra: investimento. Vale separar.

  • Ordem de serviço assinada — a obra está autorizada a começar. Foi o caso da EEEFM Dom Daniel Comboni, com R$ 12,5 milhões.
  • Repasse autorizado — o dinheiro foi destinado, e a obra ainda depende das etapas seguintes. Foi o caso do CMEI do bairro Aeroporto, com R$ 6,2 milhões pelo Funpaes, e o do R$ 1 milhão das UBS.
  • Convênio previsto — existe o acordo entre Estado e município, e o valor anunciado é estimativa. Foi o caso da pavimentação do Parque de Exposições, com R$ 8 milhões pela Sedurb.
  • Obra em execução — há canteiro. Em Nova Venécia isso só se aplica às quatro unidades de saúde do 1º ciclo, com R$ 8,6 milhões, que já estavam em construção antes da visita.

Somar essas linhas não produz um total válido: elas estão em estágios diferentes, dependem de condições diferentes e o próprio release não apresenta soma nenhuma para o município.

O que as obras anunciadas em Nova Venécia já mudam hoje

Para quem mora em Nova Venécia, o efeito prático da agenda do sábado (30) é este: a EEEFM Dom Daniel Comboni continua funcionando como está enquanto a obra autorizada não começa; o CMEI do bairro Aeroporto ainda não existe e depende das etapas posteriores ao repasse; a pavimentação do Parque de Exposições e das ruas da sede segue como convênio previsto, sem lista de endereços; e as UBS que receberão o R$ 1 milhão do 2º ciclo não foram identificadas. O que está de fato em obra são as quatro unidades de saúde do 1º ciclo. A agenda do governo se repete pelo interior com o mesmo formato — nove dias depois, em 10 de setembro de 2025, o Estado anunciou repasses para escolas e melhorias em acesso turístico em Itapemirim, episódio posterior a este e em outro município.

Onde o material oficial para de informar

  • Prazo. Nenhum dos itens tem data de início ou de conclusão divulgada.
  • A rodovia. Não há valor, não há executor e não há motivo declarado para a paralisação que a retomada pressupõe.
  • Executor. Fora a menção ao plano da Prefeitura no caso do CMEI, o texto não nomeia quem executa nenhuma das obras.
  • Endereços. Quais ruas da sede recebem asfalto e quais UBS recebem reforma não estão no anúncio.
  • Capacidade. Não se sabe quantos estudantes a escola passará a comportar depois da ampliação, nem quantas crianças o CMEI atenderá.
  • Os ciclos do plano. O texto não explica o que separa o 2º ciclo do 1º ciclo do Plano Decenal APS +10, quantos ciclos o plano tem nem em que ano ele termina.

Também não integra a matéria a declaração protocolar do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, reproduzida no release: ela trata de objetivos gerais da rede e não acrescenta prazo, valor ou etapa a nenhum dos itens acima.

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