Uma escola estadual de São Gabriel da Palha transformou o dia 30 de setembro em rodada de negociação internacional. O Centro Estadual de Ensino Fundamental, Médio e de Tempo Integral (CEEFMTI) Governador Gerson Camata reuniu 320 estudantes do Ensino Médio, dos turnos integral e parcial, em uma Mini Simulação da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos (SEDH).
A atividade integrou a programação da Semana Estadual de Debate contra o Extermínio de Jovens, instituída pela Lei nº 9.646/2011. Semanas estaduais como essa funcionam sempre do mesmo jeito: a lei fixa um período no calendário do Estado para concentrar ações sobre um assunto, e cada instituição decide como ocupar esse espaço. A escola escolheu ocupá-lo com um exercício de debate.
O que uma simulação da ONU decide — e o que ela não decide
Nada do que foi debatido na escola tem efeito fora dela. Simulação é exercício pedagógico: os participantes assumem papéis, seguem regras de fala e de votação e produzem documentos que valem como resultado da atividade, não como decisão de governo ou de organismo internacional. Nenhuma posição defendida ali cria política pública, muda uma lei ou compromete qualquer autoridade.
Esse é justamente o ponto do formato. O participante recebe uma posição para sustentar e precisa argumentar dentro dela, com as regras do debate, mesmo quando discorda pessoalmente do que está defendendo. O que se treina é a mecânica: pedir a palavra, negociar apoio, ceder em um ponto para avançar em outro e redigir um texto que a maioria aceite assinar. A posição defendida pertence ao grupo dentro da simulação — não à pessoa que falou e não à escola.
Oito comitês, 40 delegados em cada um
Os 320 participantes foram divididos em oito comitês temáticos. Cada um reuniu 40 delegados e teve Mesa Diretora própria, formada por presidentes e diretores experientes. A função da mesa é conduzir a sessão: abrir e fechar a lista de oradores, controlar o tempo de fala e submeter as propostas a voto.
Delegado, aqui, não tem relação com autoridade policial. No vocabulário desse tipo de simulação, é o participante que representa uma delegação e fala em nome dela, e não em nome próprio. A divisão em oito grupos menores cumpre uma função prática: com 40 pessoas por comitê, cada participante tem chance real de usar a palavra, coisa que um plenário único de 320 pessoas não permitiria.
Os temas que cada comitê levou à mesa
O Comitê de Direitos Humanos (CDH) recebeu o tema Combate ao extermínio da juventude negra periférica, em diálogo direto com a proposta da Semana Estadual. O relato da atividade registra que a discussão no comitê passou por desigualdade, racismo e justiça social.
Os demais grupos trataram de regulação de casas de apostas, discriminação racial no esporte, violência contra a mulher, exploração do trabalho juvenil e preservação do patrimônio cultural. Cada uma dessas pautas foi sustentada pelo comitê a que ela coube, dentro do exercício. Nenhuma delas representa posição da escola, do Estado ou de qualquer país.
A leitura de quem dirige a escola
Eventos como esta Mini ONU vão muito além da sala de aula. Eles são fundamentais para formar cidadãos conscientes, críticos e engajados com as problemáticas do mundo. Ao debaterem temas complexos, como o extermínio da nossa juventude, nossos estudantes desenvolvem empatia, argumentação e a capacidade de buscar soluções coletivas.
A avaliação é da diretora da unidade, Leida Raasch.
Das 7h às 14h em um único dia
O cronograma ocupou o expediente inteiro, das 7h às 14h, entre sessões, negociação e votação. Um estudante do Ensino Médio que participou resumiu assim a experiência:
Foi uma vivência transformadora. Descobri um amor genuíno pela simulação da ONU e por tudo o que ela representa. Conheci pessoas incríveis, que levarei comigo como inspiração para a vida.
O material divulgado sobre a atividade não traz estatísticas de violência juvenil no município ou no Estado, não detalha os documentos aprovados em cada comitê e não informa se haverá nova edição.
O debate é simulado, a denúncia não
Como o exercício escolar não gera medida concreta, situações reais continuam a depender dos canais de sempre. O 181, o Disque-Denúncia, recebe informações de forma anônima. O 190 é o número para emergência em curso. E o 180 atende casos de violência contra a mulher, tema que também esteve entre as pautas dos comitês. São ligações gratuitas e podem ser feitas de qualquer telefone.
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