A queima de fogos das festas de fim de ano concentra o período mais crítico do calendário para quem tem animal em casa — e o estampido não atinge apenas os cães. Gatos, criações de fazenda e espécies silvestres reagem ao barulho com medo intenso, fuga desordenada e problemas de saúde que aparecem depois da festa. Para o tutor, o que reduz o estrago é o que se faz nas horas anteriores ao primeiro rojão, não durante o susto.
A raiz do problema é a audição, muito mais sensível que a humana em quase todas essas espécies:
“A sensibilidade auditiva dos pets, como gatos e cães, pode levar a reações extremas de medo e ansiedade, enquanto animais silvestres e de fazenda podem sofrer estresse severo, resultando em comportamentos perigosos e problemas de saúde”
A avaliação é da médica veterinária Ranna Sousa, coordenadora do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Anhanguera.
O que o barulho faz no corpo do animal
Os fogos de artifício produzem sons altos, imprevisíveis e repetitivos. O problema não é só o volume: é a imprevisibilidade. Um ruído contínuo permite que o animal se acostume; explosões espaçadas ao acaso, não — cada uma reinicia o alerta, e o organismo responde como se fosse ameaça real, com fuga e medo.
Esse estado não termina junto com a queima. O estresse prolongado provoca alterações fisiológicas, prejudica o sistema imunológico e pode deixar mudanças duradouras de comportamento, como pânico diante de qualquer barulho seco nas semanas seguintes.
O que fazer antes de a queima começar
- Antecipe o passeio. Leve o cão para a rua ainda de dia, para não precisar sair no horário dos fogos.
- Feche a casa como quem fecha um cofre. Portões, telas de janela, vãos de muro e o fecho da coleira. A tentativa de fuga está entre as reações mais comuns, e é ela que leva a atropelamento e a ferimento grave.
- Deixe o animal identificado. Coleira com plaquinha e telefone atualizado, e microchip registrado com dados que ainda funcionem. Animal que foge no escuro volta pelo contato de quem o encontra.
- Prepare o cômodo mais interno da casa, longe de janelas, com a cama ou a caixa de transporte de sempre, água fresca e — no caso do gato — caixa de areia dentro do mesmo cômodo.
- Ofereça a refeição mais cedo. Muitos animais recusam comida durante o barulho.
- Não deixe ninguém no quintal, na varanda, na laje ou preso na corrente. É onde acontecem as quedas e os enforcamentos por coleira.
- Se o animal já teve reação severa em outro ano, fale com o veterinário antes da data. Existe conduta específica para casos assim, mas ela é prescrita caso a caso: nunca medique por conta própria, nem repita remédio de outro animal, de outra espécie ou de outro fim de ano.
Durante a queima: o que ajuda e o que piora
Fique em casa com o animal, se puder. A presença de alguém conhecido é o fator que mais acalma. Mantenha portas, janelas e cortinas fechadas — isso corta parte do som e todo o clarão. Um som ambiente constante, como televisão, rádio ou ventilador, ajuda a mascarar os picos de estouro.
Deixe o esconderijo acessível e não force nada. Gato que se enfia atrás do sofá e cão que se espreme embaixo da cama estão fazendo o que sabem fazer; puxar o animal para o colo ou para fora do buraco aumenta o pânico. Também não adianta punir tremor, latido, uivo ou xixi fora do lugar — não é desobediência, é medo, e a bronca soma um segundo estresse ao primeiro.
Levar o animal para assistir à queima para acostumar não dessensibiliza ninguém: expõe o animal ao estímulo no ponto mais alto, justamente o que se quer evitar. Se o animal escapar, comece a busca imediatamente pela vizinhança e avise os vizinhos ainda naquela noite — o rastro fica mais frio a cada hora.
Cães e gatos avisam de formas diferentes
Nos cães o sofrimento é escancarado: tremores, vocalização excessiva, salivação intensa, destruição de objetos e tentativas de fuga. Em casos mais graves aparecem taquicardia, crises convulsivas e acidentes provocados pela própria fuga, que colocam em risco o animal e as pessoas por perto.
Nos gatos, o quadro engana. Eles se escondem em silêncio, em lugar fechado, e passam a impressão de que estão lidando bem com a situação. O efeito aparece depois, em perda de apetite, mudança de comportamento, agressividade e problemas urinários — risco maior nos gatos mais sensíveis e nos idosos.
Quando parar de esperar e procurar o veterinário
Susto que passa com o silêncio é uma coisa; emergência é outra. Procure atendimento sem esperar melhorar sozinho diante de:
- convulsão, desmaio ou perda de consciência;
- coração acelerado e respiração ofegante que não normalizam depois que os fogos param;
- salivação intensa acompanhada de prostração, tremor que não cede ou vômito;
- qualquer ferimento de tentativa de fuga — corte, queda, unha arrancada, dente quebrado, mancar, sangramento;
- gato que vai várias vezes à caixa de areia e não urina, ou urina com sangue: obstrução urinária é emergência e não espera o dia seguinte;
- recusa de água e comida que se estende para além da noite da queima;
- animal que fugiu e voltou por conta própria — lesão interna de atropelamento nem sempre aparece por fora.
Medo que persiste depois das festas, com o animal tremendo a qualquer barulho seco ou se recusando a sair de casa, também é assunto de consulta: trata-se de alteração de comportamento instalada, e existe acompanhamento para isso. Vale ainda checar antes da virada qual clínica de emergência da região atende no feriado e deixar o telefone anotado — descobrir isso com o animal convulsionando no colo custa tempo.
Fora de casa, o estrago é maior e ninguém contabiliza
Os animais silvestres estão entre os mais vulneráveis. Aves abandonam ninhos e deixam ovos e filhotes expostos. Mamíferos como coelhos e veados entram em pânico e correm sem direção, o que aumenta o risco de atropelamento e de colisão. O estresse ainda interfere na reprodução, na alimentação e na própria sobrevivência dessas espécies.
Nas propriedades rurais, o prejuízo é físico e produtivo ao mesmo tempo. Cavalos, vacas e galinhas se assustam, tentam fugir, caem, colidem e se ferem; em situação extrema, o estresse derruba a produção de leite e de ovos. Quem tem criação perto de área urbana ou de local de festa precisa redobrar a atenção nesses dias — e soltar fogos junto a áreas naturais ou a propriedades rurais é justamente o que se recomenda não fazer.
Comemorar sem estampido já é uma escolha disponível
Campanhas por fogos silenciosos e por outras formas de comemoração ganharam espaço nos últimos anos, e o efeito visual continua o mesmo sem a onda de choque sonora. Para a especialista, informação é o que muda o comportamento de quem solta:
“Promover a conscientização sobre os efeitos negativos dos fogos pode incentivar práticas alternativas de celebração, garantindo o bem-estar de todos os animais durante as festividades”
A ponderação é de Ranna Sousa.
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