Uma tertúlia literária dialógica reuniu a turma da 7ª etapa do Ensino Fundamental da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Nelson Mandela, em Viana, na terça-feira (06) de agosto de 2024. O grupo leu e discutiu o Conto de Escola, de Machado de Assis, sob o tema da Educação para as Relações Étnico-raciais. O comunicado que divulgou a atividade descreve um encontro só e não informa se haverá outro, nessa turma ou em qualquer outra.
O que uma tertúlia literária dialógica tem de diferente de uma aula
Tertúlia é palavra antiga para o encontro em que um grupo se reúne para conversar sobre um assunto. Aplicada à leitura, a expressão descreve uma roda em que o livro é o ponto de partida e o peso recai sobre o que cada participante tem a dizer do que leu. O texto oficial usa o nome da prática, mas não descreve o método. Não diz se a leitura foi feita antes ou na hora, se cada pessoa levou um trecho escolhido, quem mediou a roda, quanto tempo ela durou nem quantas pessoas estavam na sala.
E não há produto no relato: a turma leu e conversou. Nada foi escrito, encenado, gravado ou exposto em seguida — pelo menos, nada que o comunicado mencione. É uma distinção que costuma se perder quando a divulgação fala em promover diálogo: participar de uma leitura não equivale a criar alguma coisa a partir dela, e o material só sustenta a primeira das duas hipóteses.
Um conto do século XIX e a ponte que o texto oficial faz até o tema
A obra levada à roda foi o Conto de Escola, de Machado de Assis, narrativa ambientada numa sala de aula do Rio de Janeiro do século XIX. O tema declarado do encontro foi a Educação para as Relações Étnico-raciais, e a ligação entre as duas coisas, no comunicado, passa por um lugar específico: a rede diz que a roda existia para que a turma reconhecesse o valor da diversidade étnico-racial, e que o caminho até lá seria conversar sobre a biografia do autor.
Ou seja: o elo apresentado não é o enredo do conto, é a vida de quem o escreveu. E aí o relato para. O comunicado não conta um único ponto dessa biografia que tenha sido discutido, não reproduz nenhuma pergunta feita à turma e não diz o que uma história de sala de aula do século XIX tem a ver com o assunto do dia. Quem juntar as duas pontas estará completando um raciocínio que o texto oficial não escreve.
A informação que só aparece nas falas: espaços em privação de liberdade
Os dois profissionais ouvidos descrevem a atividade num contexto que o resto do material não menciona. O diretor da escola, Givanildo José Cordeiro, afirma que a prática desperta o hábito de ler e de conversar nos espaços em privação de liberdade, e a pedagoga que fecha o texto repete a expressão ao tratar do tema racial. Nenhuma outra linha toca no ponto: a abertura fala em diversidade, o corpo fala em tertúlia, e o contexto em que tudo isso acontece só aparece quando quem trabalha ali fala.
Aparece, e sem explicação. O material não informa em que unidade essa escolarização ocorre, não diz se toda a 7ª etapa está nessa condição, não descreve como as aulas chegam até lá, quantas turmas existem nem quem as atende. Para quem quisesse entender a educação escolar em espaços de privação de liberdade — quem tem direito a ela, como se faz a matrícula, o que vale o certificado no fim —, o comunicado não oferece nada.
Duas vozes, as duas da mesma escola
É de grande importância incentivar a leitura na Educação de Jovens e Adultos, o diálogo e a criticidade dos alunos. A EEEFM Nelson Mandela utiliza práticas como as Tertúlias Literárias Dialógicas para fomentar o ensino e a imersão no mundo literário. Práticas como essa faz a diferença na vida educacional de nossos alunos, ainda mais quando abordamos as Relações Étnico-Raciais dentro dos espaços em privação de liberdade
A avaliação é da pedagoga Fabiana Gabriela da Silva, e é a única fala reproduzida no material — que vem assim, com a concordância exatamente como está no original, sem retoque. Do diretor, o texto traz só o resumo do que ele teria dito: nenhuma palavra dele chega ao leitor, de modo que não há como separar o que foi declarado do que é síntese de quem redigiu. Fora essas duas pessoas, ninguém fala. Não há estudante ouvido, não há família, não há conselho escolar e não há avaliação vinda de fora da rede que promoveu a atividade: quem narra o resultado é quem organizou a ação.
Nenhum estudante é nomeado — e nenhum é contado
O comunicado não traz o nome de um único participante, e esta matéria também não traz. A diferença, aqui, é que não houve o que omitir: a rede identificou apenas os dois profissionais, que respondem pela iniciativa no exercício da função e por isso seguem nomeados. Cabe anotar que, num grupo pequeno e num contexto que os próprios funcionários descrevem como de privação de liberdade, nome e turma bastariam para apontar pessoas — e esse tipo de registro fica indexado muito depois de a turma se dispersar.
Falta, porém, o outro lado da conta: ninguém foi contado. O único número do texto é a 7ª etapa, e ele não mede gente — é a posição da turma no percurso da EJA, não a quantidade de pessoas na sala. O material não diz quantas pessoas estiveram na roda, quantas estão matriculadas nessa etapa nem quantas turmas a escola mantém. Sem isso, não dá para saber se a tertúlia alcançou uma dezena de pessoas ou uma centena.
Do que aconteceu na sala ao que a rede não explicou
Em três parágrafos, o comunicado deixa sem resposta quase todo o essencial para acompanhar a iniciativa. Na sala: quanto durou o encontro, quem o conduziu, se houve preparação prévia da leitura e o que a turma disse. Na escola: a que ponto do percurso do Ensino Fundamental corresponde a 7ª etapa, se a tertúlia integra o planejamento do ano ou foi ação isolada, e se os profissionais passaram por formação específica para tratar de relações étnico-raciais em sala.
E, no plano da política pública, a lacuna maior: o material não cita lei, decreto, portaria, diretriz ou programa algum que sustente o trabalho de Educação para as Relações Étnico-raciais nessa unidade. Também não indica onde ler o texto integral de qualquer documento do tipo, não diz quem acompanha o que as escolas fazem no tema e não aponta canal para a comunidade escolar propor ou cobrar atividades assim. O assunto chega ao leitor como iniciativa de uma escola, sem a moldura que diria se é obrigação da rede ou escolha de quem está lá dentro.
Onde a mesma pauta reapareceu depois
A leitura em Viana não ficou sozinha no calendário. Dez meses depois, em junho de 2025, o mesmo eixo voltou em outra cidade, com uma roda sobre profissões e racismo com estudantes em privação de liberdade em Cachoeiro de Itapemirim — outra unidade, outras pessoas e episódio sem relação com o de Viana. Cinco dias depois, o assunto mudou de público e foi para o outro lado da sala: professores da EJA participaram de formação sobre educação das relações étnico-raciais em Guaçuí. Os dois episódios são posteriores a esta tertúlia e nenhum deles a menciona.
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