O anúncio reconstituído abaixo é de 4 de outubro de 2024, e a votação que ele antecipava ocorreu dois dias depois, em 6 de outubro daquele ano. Nada aqui convoca ninguém a nada. O que esta página guarda é a memória de uma promessa administrativa: a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) explicando, na véspera, como faria a segurança nas eleições 2024 no Espírito Santo — e, principalmente, tudo aquilo que ela deixou de explicar. O plano foi montado em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e apresentado numa entrevista coletiva na quinta-feira (03), na sede da Secretaria, em Vitória.
O comunicado do qual este post nasceu é de largada, não de chegada. Ele descreve escala, horário e divisão de tarefas; não registra uma única ocorrência, prisão ou apreensão, porque foi escrito antes de o primeiro eleitor votar. Todos os verbos que importam estão no futuro.
O que a segurança nas eleições 2024 mobilizou, corporação por corporação
O comunicado apresenta um efetivo total de 8.070 agentes, reunindo forças estaduais, federais e municipais. Dentro desse anúncio, seis parcelas aparecem com número próprio:
- 6.536 policiais da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) — o maior contingente, encarregado de policiar tanto as seções quanto os pontos onde os votos seriam contados.
- 661 agentes das Guardas Municipais das 14 cidades onde essas corporações existem. O comunicado não nomeia as 14.
- 330 policiais da PCES, dedicados aos procedimentos de polícia judiciária em 71 municípios onde não há presença da Polícia Federal (PF).
- 258 militares do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMES), acionáveis para emergências.
- 45 profissionais da Polícia Científica, nos plantões.
- 70 agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF), nas rodovias federais, nos dias 05 e 06 de outubro.
A frase que abre a relação de participantes é a de que o planejamento inclui essas forças. É um verbo que dá exemplos e não fecha a conta: o comunicado não afirma, em nenhum ponto, que a lista de órgãos esteja completa nem que as parcelas acima componham o total de 8.070. Quem quiser saber se sobra ou falta gente entre um número e outro sai do comunicado sem resposta: ele nunca costura as partes ao todo.
O número do título antigo e o número do comunicado não são a mesma afirmação
Este post circulou por quase dois anos sob um título que anunciava mais de 8 mil agentes. O comunicado da Sesp não escreve isso em lugar nenhum: ele escreve efetivo total de 8.070. Os dois enunciados não são intercambiáveis, e a diferença não está no algarismo.
Dizer mais de 8 mil é fixar um mínimo arredondado e deixar o teto em aberto — cabe 8.070 e caberia o dobro. Dizer efetivo total de 8.070 é apresentar uma conta fechada, que o órgão assume por inteiro. O título trocou a precisão que a fonte tinha oferecido por uma expressão mais frouxa e, de quebra, apagou 70 pessoas do anúncio. O acerto do título antigo está no substantivo: tanto ele quanto a fonte falam em agentes, e não em policiais — o que importa, porque o arranjo descrito reúne militares, peritos, guardas municipais e agentes federais, categorias que uma palavra só não cobre.
Resta a pergunta que nem o título nem o comunicado respondem: 8.070 conta pessoas em um dia, ou o somatório dos dois dias de atuação? A ação descrita não cabe num só domingo — a PMES começaria o trabalho dedicado às 17 horas de sábado (05) e só encerraria ao fim da apuração, na noite de domingo (06); a PRF atuaria nos dois dias. Se alguém trabalhou nos dois turnos, foi contado uma vez ou duas? A Sesp não respondeu a isso, e quem republica não pode responder no lugar dela.
Cinco participantes entram na lista sem número e sem tarefa descrita
A relação de quem compõe o planejamento é maior do que a relação de quem aparece com efetivo. Entram na lista, sem contingente informado e sem função descrita, a Secretaria da Casa Militar (SCM), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan) e a EDP. A Polícia Federal é a exceção parcial: não tem efetivo divulgado, mas tem tarefa. Caberia a ela receber os flagrantes de crime eleitoral em sete cidades: Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana, São Mateus e Cachoeiro de Itapemirim.
Duas das quatro entidades sem tarefa descrita não são polícia: uma companhia de saneamento e uma empresa cuja atividade o comunicado não explica. É plausível que estejam ali por causa de água e de energia nos locais de votação, mas plausível não é informado, e nesse ponto o comunicado se cala. Listar a presença sem descrever a tarefa foi o que o órgão fez; apontar a diferença cabe a quem lê depois.
O mesmo vale, em outro nível, para a Justiça Eleitoral. O comunicado afirma que o planejamento foi feito em parceria com o TRE e reproduz o secretário dizendo que o aparato de segurança está à disposição dela. Nenhum ato praticado pela Justiça Eleitoral dentro do esquema é descrito — não há decisão, requisição, orientação ou providência atribuída a ela no texto. Isso não acusa coisa alguma: é a diferença entre estar citado como parceiro e ter uma linha dizendo o que se fez.
O mesmo nome com duas siglas, na mesma frase
A lista de forças do comunicado traz, uma ao lado da outra, Polícia Científica do Espírito Santo (PCES) e Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES). É o mesmo nome por extenso, duas vezes, com siglas diferentes.
Mais adiante o próprio texto trata as duas como coisas distintas: atribui à PCES um efetivo de 330 e a elaboração dos procedimentos de polícia judiciária, e à Polícia Científica um efetivo de 45 nos plantões. São atribuições de naturezas diferentes, e os números não se confundem. O comunicado não explica a duplicidade, e aqui ela fica como está: a leitura correta do nome por extenso é do órgão que o escreveu, não de quem republica. Quem lê corrido pode terminar contando uma corporação a mais do que existe — ou uma a menos.
Oscilação menor no mesmo texto: a ação é chamada de operação Eleições na fala do secretário e de Operação Eleições 2024 no trecho sobre os bombeiros. O comunicado não anuncia número de equipes, não divide a ação em etapas e não dá data de início e de fim para o conjunto — os horários que existem valem para corporações específicas, não para a operação inteira.
Os horários que estavam marcados: 17h de sábado, 07h de domingo, 08h no site
Três marcos de relógio aparecem no comunicado, e são a parte mais concreta dele:
- 17 horas de sábado (05) — a PMES passaria a trabalhar exclusivamente para o pleito, com o objetivo declarado de coibir propagandas irregulares, e ficaria em campo até a contagem terminar, na noite de domingo (06).
- 07 horas de domingo (06) — entraria em funcionamento o Centro Integrado de Comando e Controle Estadual (CICCE), reunindo gente de cada instituição do arranjo para observar ao vivo o que se passasse nas seções e nas ruas em volta delas.
- 08h de domingo — ficaria disponível, na aba de estatísticas do site da Sesp, o Painel Eleições 2024, reunindo ocorrências atendidas pelas agências que compõem o CICCE.
O território a cobrir também está no texto: o Espírito Santo tinha 1.726 locais de votação, distribuídos em 59 zonas eleitorais, mais 50 juntas de apuração. Nas delegacias, o comunicado previa expediente extraordinário nas Delegacias Municipais do interior, enquanto as Delegacias Regionais continuariam recebendo o que não fosse de natureza eleitoral, com o atendimento reunido num ponto só, a Central de Teleflagrante.
O painel prometido para o domingo, e o endereço que mudou de lugar
A novidade que o comunicado apresentava era o Painel Eleições 2024: um levantamento aberto a qualquer pessoa, separando as ocorrências eleitorais por cidade e por natureza, com números renovados enquanto o domingo corresse, no endereço www.sesp.es.gov.br.
Esse endereço continua no ar. Conferido agora, ele responde com um redirecionamento e leva ao site da Secretaria, que abre normalmente — o link não quebrou, apenas passou a apontar para outro caminho do mesmo portal. O que o comunicado nunca disse é por quanto tempo o painel daquela votação ficaria publicado, nem se os dados reunidos naquele domingo permaneceriam consultáveis depois. Também não disse quem alimentaria o painel, com que intervalo de atualização, nem o que aconteceria com uma ocorrência registrada fora dos órgãos do CICCE.
8.070 mede o tamanho do plano, não o que ele produziu
Um efetivo de 8.070 pessoas mede quanto se colocou em campo. Não mede crime eleitoral evitado, propaganda irregular retirada, flagrante recebido pela Polícia Federal nem ocorrência atendida pelo CICCE. São grandezas distintas, e o comunicado só traz a primeira — coerentemente, porque foi escrito antes do fato.
E aqui é preciso separar o que a fonte promete do que ela cala. Ela promete dados durante o dia, no painel, atualizados periodicamente. Ela não promete um balanço final: não há no texto uma frase dizendo que a Sesp divulgaria, depois da apuração, quantas ocorrências houve, de que tipo e em quais municípios. Isso não equivale a dizer que esse balanço não existiu — o comunicado simplesmente não toca no ponto, e nada do que ele traz sustenta uma resposta nem a contrária.
“Este é um trabalho feito a muitas mãos, um planejamento iniciado há meses e que vai culminar na execução da operação Eleições, neste domingo. Todo o aparato de segurança pública está à disposição da Justiça Eleitoral, com quem compartilhamos este planejamento. Nosso objetivo é garantir eleições limpas, claras, eleições que transcorram da melhor maneira possível garantindo o Estado Democrático de Direito”
Quem falava era o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, diante de jornalistas na sede da Secretaria, em Vitória, na quinta-feira que antecedeu a votação. A fala carrega os dois únicos dados de bastidor do comunicado inteiro: que o planejamento começou meses antes e que foi compartilhado com a Justiça Eleitoral. Não traz prazo, custo nem indicador.
O material tem uma segunda fala, do presidente do TRE-ES, desembargador Carlos Simões Fonseca. Ela assegura que a população pode confiar no esquema e que todos os órgãos estão empenhados — e é só isso: nenhum número, nenhuma providência, nenhuma data. Por não acrescentar fato ao que já está acima, não é reproduzida aqui.
O comunicado fala de efetivo e não fala de eleitor
Do começo ao fim, o texto oficial descreve a segurança pelo lado de quem a organiza. A pergunta que interessava a quem ia votar — o que muda para mim no domingo? — não é respondida em nenhuma linha. Não há uma palavra sobre restrição de circulação perto dos locais de votação, sobre transporte, sobre horário de funcionamento do comércio ou sobre qualquer regra de conduta além da menção genérica a propaganda irregular, cujo conteúdo o comunicado não explica.
A lacuna mais séria é a de canal. O texto diz que a Polícia Federal receberia os flagrantes de crimes eleitorais em sete cidades e que a PCES cuidaria dos procedimentos nos 71 municípios sem presença federal — mas não informa como uma pessoa comum aciona qualquer um dos dois. Não há telefone, não há aplicativo, não há endereço, não há uma linha de orientação para quem presenciasse uma irregularidade dentro ou fora da seção. O único endereço que o comunicado publica é o do painel, e painel serve para consultar, não para denunciar. Inventar aqui um canal que a fonte não deu seria pior do que registrar a falta — então fica registrada a falta.
Do custo às 14 guardas: onze pontos que a Sesp não divulgou
- Se os 8.070 correspondem ao efetivo de um dia ou ao somatório dos dias de atuação.
- Se as parcelas divulgadas por corporação compõem esse total, e o que responde pela diferença.
- Quantos agentes a Polícia Federal, a Abin e a Secretaria da Casa Militar colocariam em campo.
- Que papel a Cesan e a EDP teriam no esquema.
- Quais são as 14 cidades com Guarda Municipal envolvida.
- Como o cidadão comunica um crime eleitoral, e a quem.
- Qual o custo da mobilização e de que orçamento ele sai.
- Quantas equipes, quantas viaturas e qual a distribuição por município ou por zona eleitoral.
- Por quanto tempo o Painel Eleições 2024 ficaria disponível e o que aconteceria com os dados depois.
- Se haveria divulgação de um balanço ao fim da apuração, e em que formato.
- Se o mesmo desenho valeria para uma eventual segunda votação, já que o material trata apenas do primeiro turno.
Uma advertência sobre a procedência de tudo isso: o material é assinado pelo órgão que iria executar a própria operação e foi distribuído antes de ela começar. Ninguém de fora do arranjo aparece nele — nenhum partido, nenhuma candidatura, nenhuma entidade de fiscalização. Um relato sem contraponto não vira relato checado só por estar em papel timbrado.
O que veio depois daquele domingo
A mesma secretaria repetiu o formato mais de uma vez naquele fim de ano. Um mês depois desta votação, ela anunciou outro reforço de policiamento no Espírito Santo, montado junto com forças de outros estados — episódio posterior a este e igualmente divulgado no dia da largada, sem resultado nenhum em mãos. Em dezembro veio uma mobilização de verão cujo efetivo foi apresentado por dia, e não como total fechado — a mesma dúvida de unidade deste post, ali resolvida pela própria fonte.
Do outro lado do balcão, a votação de 6 de outubro de 2024 escolheu quem assumiria as prefeituras capixabas em janeiro seguinte. Três meses depois, os prefeitos eleitos naquele pleito foram reunidos pelo Estado para ouvir uma proposta de repasse na área da educação, ainda sem instrumento assinado na ocasião — episódio posterior a este e de outra natureza, que mostra o que a urna daquele domingo pôs em movimento depois que o efetivo policial voltou para casa.
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