Alunos da disciplina eletiva Terra, Vida e Cosmos, da Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Emir de Macedo Gomes, em Linhares, dividiram-se por turmas e montaram estações temáticas para um projeto sobre biomas brasileiros. A divisão foi turma a turma, uma estação para cada, e coube aos próprios estudantes atuar como mediadores nelas — a nota oficial não diz para quem. A atividade ocorreu numa sexta-feira, dia 16, em agosto de 2024, e desde então nenhuma nova edição foi anunciada no material oficial.
O projeto sobre biomas brasileiros virou uma estação por sala
O tema geral do dia foi Biomas do Brasil: diversidade, saberes e tecnologias sociais. A palavra que descreve o formato é estação: em vez de uma turma assistir a uma apresentação, cada sala virou um ponto com assunto próprio, e quem passava por ali era atendido por estudantes.
Vale separar o que os alunos fizeram do que apenas usaram, porque o comunicado mistura as duas coisas. Pelo que ele descreve, os estudantes:
- escreveram uma cartilha que reúne as dificuldades de quem planta cacau, do pé à colheita;
- produziram um folder com o passo a passo que leva do fruto ao chocolate;
- redigiram um relato sobre a composição química do doce e o que ela faz com a saúde de quem come;
- expuseram plantas medicinais e suas aplicações terapêuticas;
- montaram e mediaram as estações, uma por sala.
Os óculos de realidade virtual entram nessa lista pelo lado do uso: a exibição das plantas foi feita com auxílio deles, e o material fala numa viagem imersiva pelos biomas. Quem produziu esse conteúdo imersivo, de onde vieram os aparelhos, quantos eram e se pertencem à escola — nada disso aparece no texto oficial. Assistir a um conteúdo pronto e criar um conteúdo são atos diferentes, e aqui só o primeiro está descrito.
Duas frentes, o cacau e as plantas medicinais — e uma lista que não se fecha
Os trabalhos foram divididos em duas frentes de discussão. A primeira, Cacau capixaba: um fruto original do bioma amazônico presente na Mata Atlântica. A segunda, Biomas brasileiros em foco: uma metodologia ativa para engajar estudantes na conservação e conscientização sobre a relação entre plantas medicinais e seu percurso histórico com a humanidade.
Repare no verbo com que o comunicado apresenta os trabalhos: entre os apresentados, destacaram-se aqueles quatro. Destacar é recortar. Não existe, no material, a informação de quantos projetos houve ao todo, quantas estações foram montadas nem quantas turmas participaram — logo, os itens acima são exemplos, não o inventário do dia.
Vale o mesmo cuidado com os biomas. O título do tema fala em biomas do Brasil, no plural, e no corpo aparecem apenas dois nomes: o bioma amazônico e a Mata Atlântica, os dois dentro do nome de um dos projetos. Quais biomas as estações cobriram, e quantos, o texto não diz.
Duas expressões que o comunicado usa sem explicar nenhuma
Eletiva é o nome de um componente que a escola oferece e o estudante escolhe cursar — no caso, um chamado Terra, Vida e Cosmos, que cruza conteúdos em vez de ficar preso a uma única matéria. O texto oficial não informa como a turma se inscreve, quantas aulas o componente tem por semana nem em que ano do Ensino Médio ele é oferecido.
Metodologia ativa aparece duas vezes: no nome de um dos projetos e na fala da professora. É expressão de catálogo, não a descrição de nada que alguém tenha feito. O que o comunicado de fato conta é bem mais concreto: alunos produzindo material impresso, expondo plantas e explicando o assunto de pé, ao lado da estação, para quem chegava. O mesmo vale para conservação e conscientização, que estão no nome do segundo projeto e não voltam em nenhuma linha que descreva o que foi feito com eles.
Uma professora avalia o formato, e o que ela revela sem querer
Naiara Giuriatto, professora de Física, avaliou a experiência no material que divulgou a atividade, e o que ela comenta é o formato, não o conteúdo:
A prática vivida foi excepcional, no sentido de poder ver o aluno como mediador da metodologia ativa. A experiência de ter uma estação por sala foi algo inovador e permitiu uma replicação em larga escala de algo que havia sido feito apenas para uma turma
A última oração carrega um fato que o comunicado não desenvolve em nenhum outro lugar: já havia existido uma versão anterior, feita para uma única turma. Ou seja, o dia 16 não foi a estreia da ideia, mas a ampliação dela. Quando a primeira versão aconteceu, com que turma e por que foi ampliada, o material silencia.
A mediadora tem nome no comunicado oficial e não tem aqui
Uma das estudantes que mediaram as estações é identificada pelo primeiro e pelos dois últimos nomes no comunicado. Nesta reportagem ela aparece pelo que fez. O elogio contido na fala dela não muda o cálculo: somar nome, escola, eletiva e cidade aponta uma adolescente específica entre os poucos que cursam o mesmo componente, e uma página de portal continua no índice de busca muito depois de a sexta-feira 16 ter deixado de interessar a alguém. Quem responde pela iniciativa como profissional adulta — a professora — segue nomeada.
A fala foi mantida inteira, sem cortes por dentro. Ela foi dita a respeito do papel de mediar uma das estações:
Gostei muito de ser mediadora na atividade. Ter essa responsabilidade foi um aprendizado para mim, aprimorando minha capacidade de comunicação e influenciando positivamente meu futuro. Foi uma experiência incrível e que deve ser repetida
Note que a repetição aparece como desejo de quem participou — deve ser repetida —, e não como calendário anunciado por alguém que decide isso.
Iniciativa de uma escola, sem nada que indique programa da rede
Todo o material se passa dentro de um endereço só: uma eletiva, uma escola, uma professora. Não há menção a coordenação entre unidades, a verba, a meta, a orientação normativa nem a calendário comum que faça de outras escolas participantes do mesmo movimento. Enquanto isso não aparecer, o que existe é a iniciativa de uma unidade que teve sua atividade divulgada — o que é diferente de política adotada por uma rede inteira, e a diferença importa para quem lê pensando na escola do próprio filho.
Vale lembrar de onde saiu tudo isto: o relato foi redigido pela estrutura de comunicação que divulga as ações da própria escola, e ela tem interesse no resultado. Ninguém de fora mediu a atividade, ninguém que passou pelas estações foi ouvido, e nenhum aluno aparece dizendo que achou a experiência dispensável.
Nem nota, nem júri, nem número de participantes
Para um texto tão curto, o comunicado sobre o projeto sobre biomas brasileiros deixa muita coisa de fora:
- quantas pessoas participaram — nem estudantes, nem turmas, nem professores envolvidos;
- que série ou ano cursam os alunos da eletiva;
- quem visitou as estações — outras turmas da própria escola, famílias, alunos de outras unidades: o material não escolhe nenhuma dessas hipóteses;
- se houve avaliação, nota ou premiação. O texto não diz que houve e também não diz que não houve — quem lê fica sem saber se aquilo valeu ponto, virou disputa ou terminou ali mesmo;
- quanto tempo durou a preparação, e se ela tomou aulas de outros componentes;
- se o material produzido — cartilha, folder e relato — continuou disponível para alguém depois daquela sexta-feira.
Há ainda um detalhe de composição do próprio comunicado que vale apontar: a frase de abertura, sobre a atividade ter proporcionado compreensão teórica e prática dos temas, é apresentada no alto como se fosse constatação do texto — mas, mais abaixo, ela reaparece atribuída à professora, em discurso indireto. É a opinião de uma participante posta como abertura sem dono.
O que a escola e outras unidades já registraram em atividades parecidas
A EEEM Emir de Macedo Gomes voltou ao noticiário dez meses depois, quando sediou, em junho de 2025, a entrega de medalhas de uma olimpíada nacional de matemática a estudantes de escolas da região — aquilo é dez meses mais tarde, com outra turma e outro assunto.
Pôr óculos de realidade virtual na aula também não é exclusividade de Linhares. Em fevereiro de 2025, seis meses depois da sexta-feira descrita acima, outra escola estadual pôs os aparelhos para revisar conteúdos de ciências. E o modelo de eletiva com produção prática reaparece em uma eletiva de robótica em que alunos montaram um braço mecânico com sensores — de julho de 2025, quase um ano à frente do que se lê aqui.
Antes, e não depois: três semanas antes desta sexta-feira 16, alunos de outra cidade tinham deixado a sala por outro caminho, indo a campo conhecer pesquisa e manejo ligados à Mata Atlântica — o mesmo bioma que aparece no nome de um dos projetos de Linhares.
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