As chinesas Alibaba e ByteDance passaram a treinar seus modelos mais avançados de inteligência artificial em data centers fora da China, principalmente em Singapura e na Malásia. O objetivo é continuar usando os processadores da Nvidia que hoje não podem entrar em território chinês. A informação foi publicada em 27 de novembro de 2025 e atribuída ao Financial Times.
O que a apuração afirma e o que ainda não foi confirmado
Vale separar as duas coisas. Trata-se de apuração jornalística construída a partir de fontes do setor, e não de anúncio oficial das empresas: no material publicado não há confirmação de Alibaba nem de ByteDance sobre a mudança, e a única fala reproduzida vem de um operador que não é identificado pelo nome.
Para desenvolver modelos avançados, você precisa dos melhores chips. Aqui, tudo está dentro da lei.
A frase é de um operador com base em Singapura, sem identificação no relato.
Quem impôs cada restrição, e desde quando
A pressão vem de dois lados, em datas diferentes, e nenhuma delas é decisão das empresas de tecnologia:
- Desde abril de 2025: o governo Trump bloqueou a venda do chip H20 para a China. Foi a partir daí que treinar fora do país deixou de ser exceção.
- Em agosto de 2025: parte da regra foi afrouxada e a Nvidia e a AMD puderam retomar a venda do H20, com a condição de repassar 15% da receita dessas vendas ao governo americano.
- Segue barrado: o Blackwell B200 e outras placas de máxima performance continuam proibidos, com justificativa de segurança nacional. Ou seja, a liberação de agosto não devolveu o que interessa para treinar modelo de ponta.
- Do lado chinês: Pequim exige que data centers financiados pelo Estado usem apenas chips fabricados no país. No fim de novembro, reguladores foram além e proibiram a ByteDance de instalar GPUs da Nvidia em novos data centers dentro da China.
O resultado é uma empresa espremida entre duas regras opostas: não pode comprar o chip que quer de Washington e não pode instalar o que tem em parte da própria casa.
Por que treinar um modelo em outro país muda tanta coisa
Um modelo de inteligência artificial tem duas fases bem diferentes. Usar o modelo — pedir um texto, uma tradução, uma resposta — é relativamente barato e pode ser feito de quase qualquer lugar. Treinar é a fase em que o sistema processa uma montanha de dados durante semanas seguidas, com milhares de chips trabalhando ao mesmo tempo no mesmo galpão. É essa segunda fase que fica presa à geografia, por três motivos práticos:
- O chip. Só um punhado de modelos de processador dá conta desse volume de contas. Sem eles, o treino não fica lento: fica inviável. Por isso a lista de chips liberados vale mais que qualquer outro insumo.
- A energia. Milhares de chips ligados sem parar consomem eletricidade e precisam de refrigeração contínua. O prédio só existe onde há energia estável e barata o bastante para sustentar meses de operação.
- A lei do lugar. O que decide se aquele equipamento pode ser usado não é a nacionalidade da empresa, e sim o endereço da máquina. Alugar capacidade num país onde o chip é permitido resolve o problema sem que o equipamento cruze a fronteira proibida: a máquina fica lá, e a empresa se conecta de longe.
Por que Singapura e Malásia entraram na conta
A região reúne o que esse tipo de operação exige: regras previsíveis, conexão de internet muito rápida, custo menor e data centers de grande porte em expansão acelerada. Johor, na Malásia, colada a Singapura, teve dezenas de novos projetos aprovados e virou a alternativa natural para quem está pressionado por restrição geopolítica.
Os modelos chineses não pararam de crescer
A restrição de chip não travou o uso. O Doubao, da ByteDance, já atende 157 milhões de usuários ativos por mês e se espalhou entre desenvolvedores de outros países por ser de código aberto. O Qwen, da Alibaba, segue como um dos modelos corporativos mais fortes do país.
A exceção ao movimento de saída é a DeepSeek. A empresa estocou chips da Nvidia antes das proibições, continua treinando dentro da China e trabalha com fabricantes locais, entre eles a Huawei, para desenvolver chips de próxima geração.
O que isso significa para quem só usa a tecnologia
Para o usuário final, o efeito é indireto e chega com atraso. Modelo treinado com menos capacidade de cálculo tende a evoluir mais devagar, e o custo de alugar computação em outro país entra no preço do serviço. Também muda o mapa: parte da infraestrutura que sustenta a inteligência artificial asiática deixou de ficar onde está a empresa e passou a ficar onde a regra permite ligar a máquina.
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