A gata Carminha, vira-lata de pelagem preta e branca adotada há seis anos, recebeu o troféu Golden Beast (Bicho de Ouro), do The New York Film Festival, pela atuação no longa O Agente Secreto. As duas cenas em que ela aparece foram gravadas no Recife, na casa onde o personagem de Wagner Moura se hospeda, e foram conduzidas com um recurso que existe em qualquer casa com gato: ração cremosa e os alimentos de que ela gosta.
A produção soma 56 prêmios, entre eles Globos de Ouro, troféus em Cannes e o Critics Choice Awards. Na trama, Carminha vive a personagem de dois rostos Liza e Elis, e virou uma das estrelas mais comentadas do filme.
A escalação veio do temperamento, e não do treino
Carminha foi adotada pela especialista em comportamento animal Kamila Alves e divide a casa com outros cinco gatos. A escolha para o papel não foi aleatória: a personalidade tranquila, sociável e receptiva foi o que permitiu à gata se adaptar às gravações e à presença constante de pessoas no set.
Ela não costuma estranhar humanos, não arranha e lida bem com estímulos novos
A descrição é de Kamila Alves, tutora da gata. Foram essas características, segundo ela, que facilitaram a interação de Carminha com os atores e com a equipe de filmagem.
O dado importa antes de qualquer plano de treino em casa: o temperamento veio primeiro e determinou o papel. O manejo com comida aproveitou uma gata que já lidava bem com gente e com novidade.
Como funcionou o reforço positivo na prática
Usamos ração cremosa e alimentos que ela gosta para atrair a atenção dela. A cena é justamente o momento em que ela se aproxima para cumprimentá-lo
Quem conta é a tutora, Kamila Alves. A frase descreve o mecanismo: nada é exigido do animal. A comida entra como atrativo e a câmera aproveita o movimento que a gata faz por conta própria — a aproximação para cumprimentar o protagonista.
É esse o desenho do reforço positivo: em vez de obrigar o animal a executar uma ação, cria-se um motivo para que ele escolha executá-la, e o que ele valoriza aparece junto com o comportamento desejado. Não há punição nem contenção, e o animal continua com a opção de simplesmente ir embora. Nas gravações, os limites da gata foram respeitados e os estímulos excessivos, evitados.
O que o tutor comum consegue repetir em casa
O que o bastidor descreve não depende de equipe de cinema. Três atitudes cabem em qualquer casa:
- Use o que o animal já gosta como convite. Ração cremosa ou petisco servem para chamar o gato até um ponto, em vez de pegá-lo no colo e levá-lo até lá.
- Deixe a aproximação partir dele. No relato da tutora, a cena é o momento em que a gata se aproxima, não aquele em que alguém a coloca no lugar.
- Pare no primeiro sinal de desconforto. Respeitar limite e evitar estímulo em excesso foi a regra no set; em casa, é o que separa uma associação boa de um susto que o animal guarda.
O que não dá para tentar sozinho
Atrair um gato com petisco na sala é uma coisa; colocá-lo em uma gravação é outra. Carminha enfrentou luz, equipe circulando e marcações faciais no rosto para servir de referência aos efeitos visuais — acompanhada por quem trabalha profissionalmente com comportamento animal, que no caso é a própria tutora.
Três coisas ficam fora do alcance do tutor comum. Reproduzir esse ambiente com um gato que estranha desconhecido, arranha ou não lida bem com novidade: não há treino descrito que transforme esse perfil. Forçar contato ou insistir quando o animal recua, o oposto do que foi feito no set. E lidar sozinho com medo persistente, estresse recorrente ou agressividade — quadro que pede avaliação de um profissional de comportamento animal, não um pote de petisco.
As duas faces são efeito visual, não anatomia
Na tela, a personagem tem duas faces, com três olhos, dois focinhos, duas bocas e dois pares de bigodes. Nada disso está na gata. A aparência foi construída por Imagens Geradas por Computador (CGI), e as marcações faciais aplicadas durante as gravações serviram de referência para o trabalho de pós-produção.
É uma condição rara que pode acontecer em gatos, e no filme isso dialoga com a ideia de dupla personalidade presente na narrativa
A observação é de Kamila Alves. A gata que atuou tem um rosto só.
O cachê voltou inteiro para a gata
Kamila Alves revelou que o valor recebido pela participação foi integralmente revertido para Carminha, em forma de petiscos, ração úmida e brinquedos.
Eu nem conhecia essa categoria de prêmio. Quando soube da indicação, foi uma surpresa enorme. A gente ficou muito feliz. Ela recebeu o cachê dela e ganhou tudo o que mais gosta
A frase é da tutora, Kamila Alves, ao comentar a indicação e o prêmio.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!