Danças urbanas em Vitória: o que foi o Jogo de Dentro

As três apresentações do projeto Jogo de Dentro já aconteceram: foram em 23, 24 e 26 de setembro de 2024, no Espaço Ladeira, no Centro de Vitória. Quem chega a esta página agora encontra o registro de um trabalho de danças urbanas em Vitória que já saiu de cartaz, e não uma agenda a cumprir. A entrada foi gratuita nas três datas, cada uma com janela própria: das 15h às 18h no dia 23, das 19h às 22h no dia 24 e das 20h às 23h no dia 26.

O que acontecia dentro dessa janela não era um espetáculo ensaiado e repetido. Músicos, dançarinos e um fotógrafo improvisavam ao mesmo tempo, no mesmo espaço, sob a condução de uma diretora coreográfica — e o público não ficava sentado assistindo. A descrição do formato, no material de divulgação, é da própria diretora do projeto, Yuriê Perazzini.

A iniciativa propõe experimentações, por meio de jogos lúdicos, que podem ser compreendidos como composições coreográficas: texturas, tempo, velocidade, espaço e subjetividade, tudo acontecendo ao vivo

A avaliação é da diretora Yuriê Perazzini.

Como funcionava uma noite de danças urbanas em Vitória sem roteiro pronto

A lógica do trabalho era a de um jogo: ninguém sabia de antemão o que ia nascer. Cada encontro durava, em média, 1h30, segundo o material, e o desenho coreográfico se formava ali mesmo, orientado pela direção e negociado entre quem tocava, quem dançava e quem estava atrás da câmera. O termo que o projeto usa para isso é jogo-dança.

Vale registrar uma conta que o material não fecha: as três janelas anunciadas tinham três horas cada, e a duração média informada para os encontros é de 1h30. O texto de divulgação não explica se cada noite comportava mais de um encontro, se o intervalo restante era de montagem, de conversa com o público ou de circulação livre.

A câmera, no arranjo proposto, não estava fora da cena registrando o que os outros faziam. Era mais um corpo em jogo:

É importante dizer que o fotógrafo também entra na dança. Ele joga com a luz e cria diálogos entre os movimentos de sua câmera, os movimentos dos corpos e os sons

A observação também é de Yuriê Perazzini.

De onde vem o nome: a roda de capoeira

O nome do projeto não é enigma nem invenção de marketing, e o próprio material explica a origem: Jogo de Dentro vem do jogo de capoeira, onde música e movimento conversam o tempo todo. Na leitura da coreógrafa, o projeto se organiza como uma conversa interna entre a percussão e o corpo — a mesma que sustenta uma prática afro-brasileira em que dança, arte marcial, música, jogo e religiosidade não se separam.

Na capoeira, a relação se dá entre quem toca o berimbau, o atabaque, o pandeiro, o agogô e os capoeiristas que jogam no centro da roda. Algo similar acontece nas jams das danças urbanas e nos movimentos da sound system, em que as pessoas chegam para tocar, dançar e improvisar coletivamente

A explicação é de Yuriê Perazzini, que assina a direção coreográfica. A trilha tocada ao vivo não parava na capoeira: o material informa que ela trazia também elementos do congo, expressão da cultura popular do Espírito Santo.

Quem estava em cena, com nome e função

O material declara que o time reunido para o projeto era formado inteiramente por pessoas pretas e indígenas. São seis artistas, além da diretora, cada um com uma função declarada no trabalho:

  • Gessé Paixão — músico, educador, compositor e poeta;
  • Leandro Bonfim — produtor musical;
  • Makapon Puri — bailarina, arte-educadora e angoleira;
  • Nick Sacre — dançarina urbana;
  • Danilo dos Anjos — artista da dança, capoeirista, dreadmaker e produtor cultural;
  • Douglas Bonella — fotógrafo, geógrafo, professor e capoeirista.

A lista de funções ajuda a entender o que se via em cena. Quase todos os nomes chegam com mais de um ofício declarado — ensino, poesia, geografia, produção musical, produção cultural, fotografia —, e é essa soma de repertórios que o formato de improviso põe para funcionar ao mesmo tempo.

O público entrava na roda — e depois todo mundo conversava

Não havia quarta parede: com o jogo em andamento, quem tinha ido assistir era chamado para dentro da roda e podia responder aos artistas com o próprio corpo. Terminada a apresentação, formava-se uma roda de conversa aberta a todo mundo que tivesse participado, para que cada pessoa dissesse o que havia sentido ali. Não era um bate-papo protocolar de encerramento: o projeto anunciava um assunto para essa parte.

Será um momento de reflexão sobre as questões raciais e as culturas urbanas pretas e periféricas em diáspora

O anúncio é de Yuriê Perazzini.

Quem dirigiu o projeto e o que ela mantém em Vitória

Yuriê Perazzini é dançarina, professora de dança e produtora cultural, e no Jogo de Dentro assinou a direção coreográfica. O material a apresenta ainda como capoeirista, coreógrafa, pesquisadora e artista, e informa que ela atua nas danças urbanas do Espírito Santo desde 2002, com aprofundamento em estudos da diáspora africana.

Duas estruturas ligadas a ela seguem existindo depois de as três noites terminarem. Desde 2016 ela coordena a Casa Urbana, espaço cultural que funciona na própria residência dela, no bairro Maruípe, em Vitória, com ações de formação, pesquisa e residência artística voltadas às danças afro-urbanas e a eventos de cultura de base comunitária. E há a União de Dançarines do Espírito Santo (UDES), a entidade que realizou o projeto.

Sobre a UDES, o material de divulgação traz duas formulações que não coincidem, e as duas ficam aqui como estão: em um trecho, Yuriê Perazzini aparece como cofundadora da entidade ao lado da visual merchandiser Zênia Cáo; em outro, o texto afirma que foi ela quem criou a UDES em 2009 — mesmo ano em que, ainda segundo o material, nasceu o Encontro de Danças Urbanas. O texto também credita a ela a criação da metodologia Dance Fusion: Como descolonizar um corpo? – Método Moquear.

De onde veio o dinheiro do projeto

Como transparência, e uma vez só: o Jogo de Dentro foi bancado por recurso público de fomento à cultura. O projeto foi contemplado pelo Edital 03/2022 – Seleção de Projetos de Valorização da Diversidade Cultural Capixaba, da Secretaria da Cultura (Secult). Ou seja: a gratuidade da entrada não era cortesia dos artistas, era condição do edital que pagou a realização.

Um detalhe de calendário que merece nota: o edital é de 2022 e as apresentações ocorreram em setembro de 2024. O material não explica o intervalo entre a seleção e a estreia — se houve etapa de pesquisa, prazo contratual ou remanejamento de datas.

O que ficou depois das três noites

Projeto de temporada curta costuma sumir junto com o cartaz. Neste caso havia uma contrapartida prevista que sobrevive às datas: a produção de um vídeo de cerca de cinco minutos, reunindo o que resultou dos encontros, com publicação anunciada para Instagram e YouTube.

É o caminho permanente que o material aponta — com uma ressalva importante para quem for procurar: o texto de divulgação não informa em qual perfil do Instagram nem em qual canal do YouTube o vídeo seria publicado, e não fixa data para isso. Também não há endereço eletrônico do projeto, da UDES ou da Casa Urbana no material. Sem esses dados, não há como indicar aqui um link seguro; qualquer endereço montado por dedução levaria o leitor a lugar errado.

O que o material de divulgação não informa

A ausência também é informação, e este release oficial deixa de fora itens que o leitor perguntaria primeiro:

  • Quanto o projeto recebeu. O edital é nomeado, o valor não. Não há cifra de repasse nem prestação de contas no material.
  • Quantas pessoas cabiam. Não há capacidade do Espaço Ladeira, nem informação sobre lotação, senha ou ordem de chegada — e, como a entrada era gratuita e sem inscrição anunciada, esse é justamente o dado que faltaria a quem quisesse ir.
  • Acessibilidade e classificação etária. O texto não diz se o espaço tem acesso para pessoa com deficiência, nem se havia recomendação de idade.
  • Quantos encontros houve ao todo. São três datas anunciadas e uma duração média de 1h30 por encontro, sem o número total.
  • Se o vídeo saiu. A contrapartida está descrita no futuro; o material, publicado antes das apresentações, não podia confirmar a entrega.
  • Se haveria continuidade. Não há anúncio de nova temporada, de circulação por outros municípios nem de próxima edição.
  • Contraditório. O material é de divulgação oficial e traz um lado só — o de quem realiza e o de quem financia. Não há avaliação independente sobre o resultado, e a ausência de crítica no texto não equivale a consenso sobre ele.

Serviço (encerrado)

Atenção: as datas abaixo passaram. A informação fica registrada para consulta.

  • Projeto: Jogo de Dentro — danças urbanas, com direção de Yuriê Perazzini
  • 23 de setembro de 2024 — das 15h às 18h
  • 24 de setembro de 2024 — das 19h às 22h
  • 26 de setembro de 2024 — das 20h às 23h
  • Local: Espaço Ladeira — Rua Nestor Gomes, 277, Edifício Anchieta, Centro, Vitória (ES)
  • Entrada: gratuita

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