O apelo descrito aqui é de 16 de janeiro de 2025, e o estoque de hoje não é conhecido. Naquela data, o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Estado (Hemoes), da Secretaria da Saúde (Sesa), pediu que a população mantivesse a doação de sangue no Hemoes durante as férias, período em que viagens e passeios diminuem a procura pelos hemocentros — um desafio que o material atribui aos hemocentros de todo o país. O efeito mais duro, segundo o comunicado, recai sobre quatro tipos sanguíneos: O negativo, A negativo, B negativo e AB negativo. Em que patamar estava o estoque naquele momento, o comunicado passa ao largo; e o patamar de agora não foi apurado aqui.
Há, porém, uma parte do mesmo material que não vence com o calendário. O hemocentro estadual declara que seu objetivo é a fidelização do doador — gente que doe por hábito, e não apenas quando alguém próximo precisa. Nesse ponto o texto sustenta que a necessidade de doadores é contínua, e não uma emergência de verão. Passou a convocação daquele janeiro; permanecem as condições exigidas de quem doa, conferidas adiante.
Por que o O negativo pesa mais do que os outros três
Os quatro tipos citados no alerta recebem no material o apelido de sangue coringa: podem ser transfundidos tanto em pacientes de Rh positivo quanto de Rh negativo, desde que respeitada a compatibilidade da tipagem sanguínea ABO. Essa versatilidade é justamente o que os consome depressa. Entre os quatro, o comunicado separa o O negativo por um motivo prático, dito por quem faz a triagem de quem chega para doar:
Isso acaba se tornando uma dificuldade para manter o equilíbrio adequado dos estoques deste tipo sanguíneo, pois os Rh negativos, em especial o O negativo, são usados principalmente para emergências médicas
Quem explicava isso era a médica Belisa Sossai, coordenadora do Setor de Triagem Clínica do Hemoes, no comunicado que o hemocentro divulgou naquele meio de janeiro. Ela apresenta esses quatro como os de menor presença entre a população, com menos de 15% de portadores dessa tipagem. O percentual, porém, vem solto: qual população ele mede, o comunicado não esclarece.
Num segundo trecho, a coordenadora falava do que acontece quando a procura cai e a reserva desses tipos, já pequena, encolhe mais:
E esse número pode zerar, afetando diretamente aqueles pacientes que necessitam de transfusões
A frase se refere aos períodos de estoque baixo, que o comunicado apresenta como fenômeno global e recorrente, e não como a medição de um dia.
Doação de sangue no Hemoes: a conta que o alerta faz e a que ele não faz
O material traz um único número de referência: são necessárias cerca de 400 doações por mês dos tipos O negativo, A negativo, B negativo e AB negativo somados, para manter o estoque de Rh negativo em nível estável. Vale ler esse número pelo que ele conta e pelo que ele não conta.
- Ele conta doações por mês — não doadores distintos, não bolsas em estoque, não dias de reserva.
- Vem com um cerca de na frente, o que o torna aproximação, e não exigência mínima.
- Vale para os quatro tipos em conjunto. A necessidade não vem repartida entre eles: quanto caberia ao O negativo, que o próprio comunicado aponta como o mais crítico, fica sem resposta.
Falta na mesma frase o resto da conta: quantas doações desses tipos vinham ocorrendo, a que distância o resultado estava das 400 e qual seria o nível considerado adequado para o estoque de sangue como um todo — o parâmetro publicado vale só para a parcela Rh negativa. O comunicado descreve o alvo e guarda o placar.
Idade, peso e documento: o que o comunicado exige de quem vai doar
Este é o trecho mais aproveitável do material e o único que descreve um percurso do começo ao fim. Segundo o comunicado, para se tornar doador basta comparecer a uma unidade de Hemocentro do Estado cumprindo quatro condições:
- ter entre 16 e 69 anos;
- pesar mais de 50 quilos;
- apresentar bom estado de saúde;
- levar um documento oficial com foto.
Abaixo de 18 anos, é preciso autorização de um responsável. Já na unidade, a coleta vem depois de uma passagem pela equipe de triagem — etapa que o comunicado cita e não detalha: o que ali se pergunta, se examina ou se mede fica de fora.
O alerta remetia o leitor a uma página do hemocentro sobre o perfil do doador. Esse endereço foi conferido e continua abrindo: a página do Hemoes sobre quem pode e quem não pode doar está no ar e reúne os requisitos da doação. É a parte do texto de 2025 que ainda serve hoje: a convocação daquele verão perdeu a validade, o endereço não.
Regras de elegibilidade também existem fora da medicina humana, e são outras. O portal tratou, em texto posterior a este, das condições e das etapas da doação de sangue entre animais — procedimento distinto, sem relação com o estoque descrito neste texto.
O alerta pede doadores e não diz onde doar
Esta é a falha que mais custa a quem leu o alerta e quis agir. O comunicado convoca, informa quem pode doar e para por aí. Item a item, isto ficou de fora:
- Onde. O texto fala apenas em qualquer unidade de Hemocentro do Estado. Não lista as unidades, não dá endereço e não nomeia os municípios atendidos. A única localidade citada no comunicado inteiro é Vitória — e por causa dos ambulatórios que funcionam lá, não por causa da coleta.
- Horário de atendimento. O comunicado inteiro passa sem citar um só.
- Agendamento. Marcar antes é necessário? A pergunta sequer é levantada.
- Intervalo entre doações. Quanto tempo alguém espera para voltar a doar fica sem número.
- O que impede a doação. A lista de impedimentos fica fora do texto: o comunicado transfere essa parte para a página do hemocentro.
- Quanto tempo leva. A duração da triagem e da coleta fica em branco.
- O estoque daquele dia. Nenhum número de bolsas, de dias de reserva ou de percentual do ideal.
- O saldo do apelo. O comunicado registra o pedido, e pedido é ato, não resultado: nenhum indicador o acompanha — nem quantas doações vieram em seguida, nem se o estoque subiu.
Nenhum desses buracos foi tapado por conta própria. Regra de doação, idade mínima e intervalo entre coletas fazem alguém sair de casa e atravessar a cidade — errar por escrito nesses três pontos manda o leitor a uma viagem inútil, e isso é pior do que admitir a falta.
Uma lista de quatro tipos não dispensa os demais
Há um ponto do alerta que decide o que alguém faz depois de lê-lo. O comunicado nomeia quatro tipos, e só quatro, porque são esses que formam o grupo Rh negativo. Em nenhuma linha, porém, ele declara supridos os demais: o que afirma é que as férias derrubam o estoque de sangue e que a queda se concentra em especial nos Rh negativos, mais críticos porque a reserva deles já é pequena. Quem tem tipagem positiva não encontra ali nada que dispense a própria doação — encontra apenas um apelo que não foi endereçado a ela.
Sangue dourado: menos de 50 pessoas no mundo, 2 registradas no Brasil
Na segunda metade, o comunicado larga o estoque e vai explicar um caso extremo de raridade, o Rh nulo — cientificamente Rhesus null, apelidado de sangue dourado. O material estima que menos de 50 pessoas no mundo sejam conhecidas por possuí-lo, duas delas no Brasil, e informa, em outro parágrafo, que há 2 casos registrados no país segundo o Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR), do Ministério da Saúde. São dois enunciados de naturezas diferentes — uma estimativa de portadores conhecidos e uma contagem de registros — postos lado a lado, sem que o hemocentro relacione um ao outro.
A explicação técnica que o comunicado oferece: os tipos sanguíneos são definidos pela presença de antígenos nas hemácias, de que existem cerca de 350 variedades, e o Rh nulo se caracteriza pela ausência total dos antígenos do tipo RhD. Por isso o material o trata como o verdadeiro doador universal, também aqui condicionado à tipagem ABO.
Ficam sem explicação três coisas: para que serve o registro no cadastro nacional, como uma pessoa descobre ter essa tipagem e o que se faz depois de descobrir. É contexto que o comunicado levanta e larga pela metade.
O aviso vem de quem administra o estoque
Quem emitiu o alerta é a mesma estrutura que gerencia as reservas e que receberia as doações pedidas. Nada disso põe em dúvida o que está escrito, e o comunicado assume a própria autoria desde a primeira linha; o leitor é que ganha em saber de onde parte o pedido. No comunicado, a única pessoa a falar é a coordenadora do Setor de Triagem Clínica. Não há doador, não há profissional de fora do hemocentro e não há ninguém que dependa de transfusão dizendo qualquer coisa. Nenhum caso de paciente é narrado e nenhuma pessoa atendida é descrita — o que, num texto de saúde, é preferível: história clínica de gente identificável não é argumento de campanha.
O trecho final do apelo é o que resiste ao envelhecimento do resto:
Elas devem ser realizadas por altruísmo e pela vontade de fazer o bem. O grande objetivo do Hemoes é a fidelização do doador, estimulando na população o hábito de doações de sangue regulares, e não apenas quando existe um familiar ou amigo precisando
Belisa Sossai fechava assim o comunicado, ao lembrar que doar é sempre ato voluntário. O sangue recolhido pelo Hemoes e pelos hemocentros regionais segue para hospitais da rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e para quem faz tratamento periódico no Ambulatório de Hematologia e no Ambulatório Transfusional, na unidade de Vitória. Esse é o destino que o comunicado descreve; outro ele não oferece.
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