A Secretaria da Educação (Sedu) colocou no ar uma edição especial do informativo Geaciq Indica para marcar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. O número saiu na própria quinta-feira (25) e tem como assunto central o debate sobre Interseccionalidade e mulheres negras. O destino declarado é a Rede Estadual de Ensino do Espírito Santo.
Quem assina a publicação é a Gerência de Educação Antirracista, do Campo, Indígena e Quilombola (Geaciq), área interna da secretaria. Pela nota oficial, o informativo junta materiais complementares de apoio ao trabalho de Educação das Relações étnico-raciais (ERER) dentro das unidades da rede.
Um informativo mensal, não um documento único
A palavra que a secretaria usa para nomear o material é informativo, e o texto oficial diz que ele sai todos os meses. Ou seja: a edição de julho de 2024 é um número dentro de uma série, não uma publicação avulsa que se encerra em si mesma. O que a Sedu descreve é um periódico de indicações — leituras e materiais de apoio reunidos pela gerência e oferecidos a quem trabalha na rede.
ERER é a sigla que o próprio texto da secretaria abre: Educação das Relações étnico-raciais. Na prática, nomeia o campo que trata de como a escola aborda história, cultura e desigualdades raciais dentro das disciplinas e da rotina escolar. A nota oficial não cita nenhuma lei, portaria, resolução ou diretriz curricular como base dessa política — o fundamento normativo simplesmente não aparece no material divulgado, e não cabe supô-lo.
A Geaciq Indica faz parte do conjunto de estratégias planejadas pela gerência para incentivar práticas que reforcem o compromisso com uma educação para a Equidade Racial
A explicação é da gerente da Geaciq, Aline de Freitas Dias, que a secretaria aponta como corresponsável pelo material. Ela informa ainda que o documento sai todo mês e que a intenção é sustentar um repertório consistente ao longo do tempo, e não uma ação isolada de data comemorativa.
Por que 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra
A efeméride que motivou a edição é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, marcado no calendário em 25 de julho. A secretaria informa o dia e o alcance da data, mas não conta quando nem por iniciativa de quem ela foi instituída. Quem chega à nota atrás dessa origem não a encontra ali.
Pela descrição oficial, a edição trabalha em dois planos ao mesmo tempo. Um é de homenagem: a trajetória e a resistência de mulheres negras. O outro é de reflexão, voltado ao racismo e à violência de gênero, entre outras discriminações que, segundo o texto, recaem sobre esse grupo de forma somada.
Um nome aparece citado como exemplo: Tereza de Benguela, líder quilombola que conduziu o Quilombo do Quariterê, no Mato Grosso, e a quem o texto oficial credita coragem e habilidade à frente da comunidade. A nota não situa o período histórico, não descreve o quilombo e não relaciona os demais nomes que a edição possa trazer.
O que interseccionalidade quer dizer
O tema anunciado da edição carrega um termo que a secretaria usa sem explicar a quem está fora da escola: interseccionalidade. Ele nomeia o olhar que analisa desigualdades sobrepostas — a ideia de que uma mulher negra não enfrenta racismo de um lado e machismo de outro, em compartimentos separados, mas os dois combinados, o que produz uma situação diferente tanto da de uma mulher branca quanto da de um homem negro. É esse cruzamento que o número especial coloca em debate.
A homenagem, diz a gerência, não se limita a figuras históricas:
Além do teor pedagógico, a edição especial vem homenagear mulheres negras que estão em nosso convívio, sendo estudantes, professoras e servidoras com atuação em diferentes funções em nossa rede, além de lembrar nomes importantes no cenário nacional brasileiro
A frase é de Aline de Freitas Dias, gerente da Geaciq.
Onde acessar a edição — e o que não veio junto
A nota da secretaria termina remetendo o leitor à íntegra do material, com um convite para clicar e ler a edição do mês de julho. O endereço, porém, não foi divulgado: o texto oficial manda clicar sem informar a página, e não há como apontar aqui o local exato do arquivo. Quem procura o documento depende dos canais da própria secretaria e da unidade em que estuda ou trabalha.
Vale registrar que esse trecho final — o único da nota que oferecia acesso ao documento — não chegou a ser publicado no texto que circulou desde 2024. Na prática, a matéria anunciava um material sem dizer que havia caminho para ele.
Sete perguntas que a nota não responde
- Tamanho e formato: não há informação sobre quantas páginas tem a edição, nem se ela circula em arquivo digital, impressa ou nas duas formas.
- Para quem serve: o texto fala em apoiar atividades nas escolas, mas não separa se o material é para o professor preparar aula, para o estudante ler ou para a família acompanhar.
- Uso obrigatório ou sugerido: a secretaria não diz se as unidades precisam adotar o conteúdo ou se a leitura é livre.
- Como chega às escolas: não há descrição da via de distribuição — correio eletrônico institucional, sistema interno, site ou envio pelas regionais.
- Alcance: nenhum número de escolas atendidas, de profissionais alcançados ou de acessos às edições anteriores.
- Autoria do conteúdo: a gerência assina a publicação, mas os textos e as indicações da edição não têm autores identificados na nota.
- Base legal: como já dito, nenhuma norma é mencionada.
A edição é de julho de 2024 e a série não tem continuidade confirmada
O material descrito aqui é o número de julho de 2024, e a nota oficial não afirma que ele siga disponível. A periodicidade mensal declarada pela gerência indica que outras edições viriam depois, mas a secretaria não fixa prazo para a série, não confirma que os números antigos continuem acessíveis e não indica um acervo onde consultá-los. Nada no material sustenta dizer ao leitor que a edição especial está no ar hoje — quem quiser conferir precisa procurar a secretaria.
Um lado só, e isso precisa ficar dito
O texto que originou esta matéria é comunicado da própria secretaria: quem descreve o material é quem o produziu. Não há na nota avaliação de professores da rede, de estudantes, de famílias ou de pesquisadores sobre o conteúdo, nem qualquer apontamento crítico. Ausência de contraponto em comunicado oficial não é sinal de consenso — é característica do gênero.
O tema também aparece na ponta, dentro das escolas capixabas. Quase um ano depois desta edição, em maio de 2025, uma escola de Guarapari dedicou uma semana das artes à força da mulher latino-americana — iniciativa posterior e independente desta, útil para ver como o assunto sai do informativo da secretaria e vira atividade de sala.
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