Três livros sobre Santa Teresa nasceram de um trabalho que ocupou o ano letivo de 2024 inteiro na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Frederico Pretti, no município. Os volumes foram lançados numa sexta-feira, dia 06, e o material oficial que anunciou o lançamento não informa onde alguém de fora da escola consegue um exemplar.
Lançamento a nota descreve; circulação, não
O texto de origem trata o desfecho por duas palavras: diz que houve publicação e que as obras foram lançadas. Nenhuma das duas vem acompanhada do que mostraria que os livros chegaram a quem não estava na cerimônia. O material não registra quantos exemplares foram impressos, quem cuidou da edição, se a entrega é gratuita ou se há venda, nem se os volumes ficaram na biblioteca da unidade, em alguma repartição da cidade ou em versão digital.
A distinção muda o que o leitor pode fazer com a informação. Lançamento é a data em que a obra foi apresentada em público; circulação é o caminho por onde ela chega a quem não estava lá. A nota descreve o primeiro e cala sobre o segundo — e é o segundo que responde à pergunta mais provável de quem lê: onde eu leio isso?
Três livros sobre Santa Teresa, duas frentes de pesquisa
Os volumes não saíram de um levantamento único. Foram duas apurações distintas: uma se debruçou sobre os casarões históricos da cidade e virou o primeiro livro; a outra tratou da migração mineira para a região e rendeu os seguintes. Os títulos das três obras não foram divulgados, o que atrapalha até a busca de quem quiser procurá-las depois pelo nome.
Outro ponto que o material deixa em aberto: ele chama os três volumes de obras literárias e, na mesma passagem, os apresenta como resultado de pesquisa. Não diz qual é a natureza de cada um — se reúnem relatos recolhidos, se são registro documental do que foi levantado ou outro formato.
Quem escreveu não está nomeado no material
A nota credita o trabalho à escola e descreve o que ele deixou para os estudantes: entre as habilidades práticas que lista está a escrita, ao lado da coleta de dados. Ainda assim, nenhum autor é identificado. Não há relação de autoria, não há número de participantes, não se sabe de quais turmas ou séries eles saíram e o docente que orientou cada pesquisa também não aparece. A única voz do material é a da direção.
Vale explicar uma escolha editorial que não chegou a pesar aqui. Nome de estudante da educação básica não é publicado nestas páginas: nome somado a escola, turma e município aponta uma pessoa dentro de um grupo pequeno, e esse registro fica indexado para sempre. A exceção seria justamente autoria de livro, em que o nome deixa de ilustrar e passa a ser o fato. Só que não houve o que omitir: o material não nomeia um único estudante — nem como autor, nem como participante.
O que significam iniciação científica e educação patrimonial
Duas expressões atravessam a nota e pedem tradução. Iniciação científica é colocar o estudante para pesquisar de verdade: formular a pergunta, ir atrás de quem sabe, registrar e organizar o que encontrou, em vez de apenas receber conteúdo pronto. Educação patrimonial é o trabalho de ensinar a reconhecer o que é patrimônio de uma cidade — construções, modos de viver, histórias que só existem na memória de quem as viveu.
No Frederico Pretti as duas coisas apareceram juntas, num projeto que atravessou quatro áreas ao mesmo tempo: História, Geografia, Língua Portuguesa e tecnologia. O material também aponta ganhos que não cabem em prova bimestral, no que chama de competências socioemocionais: empatia e respeito à diversidade cultural.
A avaliação da direção
O projeto sensibilizou a comunidade sobre a relevância da conservação do patrimônio cultural e ampliou a compreensão da diversidade cultural de Santa Teresa, tradicionalmente reconhecida como o berço da imigração italiana no Brasil. Ao dar protagonismo aos migrantes mineiros, cujas histórias eram pouco exploradas, o trabalho reforçou a multiplicidade de influências que moldam a identidade local
A avaliação é da diretora da escola, Simone Zamprogno.
O que ela descreve é um deslocamento de foco. A cidade é lembrada, no material, pela imigração italiana; a segunda pesquisa foi atrás de outra corrente, a dos migrantes mineiros, e a própria gestora registra que essas histórias eram pouco exploradas.
Onde a história para, e o que a nota não informa
Não há anúncio de continuidade. O material não fala em segunda edição, em novo ciclo de pesquisa no ano letivo seguinte nem em ponto de retirada dos exemplares. O que está declarado é um ciclo fechado: um ano de trabalho, duas pesquisas, três livros e um lançamento já realizado.
Ficam de fora da nota, entre outros pontos:
- os títulos dos três livros;
- quem assina cada obra e quantos estudantes participaram;
- qual docente orientou cada uma das duas pesquisas;
- quantos exemplares foram impressos e quem editou;
- se a distribuição é gratuita ou se há venda, e por qual valor;
- onde os livros podem ser consultados ou retirados;
- se existe versão digital;
- quantos casarões foram levantados e quantos relatos de migrantes foram registrados;
- se o projeto terá continuidade.
Nada disso é falha de apuração: é o que o material divulgado deixou de fora. E, como toda nota oficial, ela traz um lado só — não há avaliação externa do projeto, nem manifestação de quem participou ou de quem foi entrevistado pelos estudantes. A ausência de crítica no material não é sinal de que não exista.
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