Preço da memória dispara com IA e pressiona celular e notebook

A corrida das grandes empresas de tecnologia para montar estruturas de inteligência artificial está drenando a produção mundial de chips de memória, e o efeito começa a chegar à etiqueta de celulares e notebooks. A projeção do setor, divulgada em novembro de 2025, é de alta de 5% a 15% nos preços de laptops e de até 10% nos smartphones em 2026. São previsões de mercado, e não reajustes já aplicados na loja.

Um aviso necessário antes dos números: o material trata do mercado global de componentes, com valores cotados em dólar. Não há dado sobre o varejo brasileiro — nem sobre quanto desse aumento chegaria à prateleira aqui, nem quando. No Brasil, o preço final de um aparelho ainda passa por câmbio, tributação e pela política de cada marca, variáveis que não estão nessas estimativas.

O que já subiu e o que ainda é previsão

As duas coisas costumam aparecer misturadas na mesma manchete, e não são a mesma coisa. O que já subiu é o preço do componente, aquilo que a indústria compra:

  • A Samsung, maior fabricante de memória do mundo, elevou preços em até 60% desde setembro.
  • Chips DDR5 de 32 GB saltaram de US$ 149 para US$ 239 em poucas semanas, segundo dados confirmados pela Reuters.
  • Os componentes de 16 GB e 128 GB seguiram tendência semelhante, com alta de cerca de 50%.
  • Pelo levantamento da Counterpoint Research, os preços de DRAM subiram 50% ao longo de 2025, com previsão de mais 30% no quarto trimestre e de outros 20% no início de 2026.

O que ainda é previsão é o repasse ao produto acabado. A faixa de 5% a 15% em notebooks e de até 10% em celulares se refere a 2026. Analistas do setor também esperam que o preço da memória usada em servidores dobre até o fim de 2026 — esse, sim, um mercado onde o repasse é direto.

Por que a memória sumiu: o caminho do data center até o seu celular

A parte que quase nunca é explicada é como uma coisa puxa a outra. Memória não é um produto único, e é aí que mora o problema.

Os modelos de inteligência artificial são treinados em servidores que precisam de um tipo específico de chip, a memória de alta largura de banda, conhecida pela sigla HBM. Ela move muito mais dados por segundo do que a memória comum e é o que sustenta esse tipo de treinamento. Só que ela sai das mesmas fábricas que produzem a memória convencional — a que vai dentro do celular, do notebook e do computador de mesa. Samsung, SK Hynix e Micron estão priorizando a produção de HBM para atender clientes como a Nvidia. Cada fatia de capacidade que migra para lá é uma fatia que deixa de virar memória de eletrônico do dia a dia.

A disputa ainda avançou uma casa. Os servidores Grace Blackwell, da Nvidia, passaram a usar também a memória LPDDR5X — um tipo que antes era típico de smartphones. Ou seja, o centro de dados deixou de competir só pela capacidade da fábrica e passou a competir pelo mesmo componente que equipa o aparelho no seu bolso.

O resultado é uma pressão simultânea em DRAM, NAND e HDD — memória de trabalho, memória de armazenamento e disco rígido pressionados ao mesmo tempo. Executivos do setor descrevem o quadro como a primeira grande crise de memória em três décadas: não é o maior aumento já visto, é a primeira vez que essas três frentes apertam juntas.

A conta de 2023 e 2024 chegou agora

A escassez não nasceu apenas do apetite da inteligência artificial. A indústria de memória vinha de um período de prejuízo e, por causa dele, os fabricantes cortaram investimentos em expansão em 2023 e 2024. Fábrica de chip não se liga por decisão de trimestre: quando a demanda por IA explodiu, a capacidade instalada era a que havia sido decidida dois anos antes — e ela não acompanhou.

O que as fabricantes de aparelhos já fizeram

Quem monta o produto final tenta se proteger travando fornecimento. A Lenovo assinou contratos de longo prazo com fornecedores para garantir estoque em 2026, o que na prática significa aceitar comprar volume grande antes de saber onde o preço vai parar.

A expectativa de quem está do outro lado da mesa não é de alívio no curto prazo:

a pressão em 2026 será muito maior do que a deste ano

A avaliação é do presidente da Xiaomi, Lu Weibing.

Quando a oferta deve normalizar

O gargalo é de capacidade física, e por isso não se resolve rápido. Uma fábrica nova de chips leva muitos meses — em alguns casos, anos — até entrar em operação. Enquanto ela não entra, a oferta segue curta por decisão de quem produz:

Manter oferta apertada e preços altos virou o mantra.

A frase é de Dan Nystedt, vice-presidente da TriOrient, em entrevista à CNBC.

Para quem acompanha o assunto de fora do setor, o indicador a observar não é a manchete de alta, e sim dois sinais concretos: se o preço do componente para de subir nos levantamentos trimestrais e se as fabricantes anunciam nova capacidade entrando em operação. Até que um dos dois apareça, as estimativas de 2026 continuam sendo estimativas — inclusive para o consumidor brasileiro, que não está contemplado em nenhum dos números acima.

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