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31 de dezembro de 1968: a última transmissão do Repórter Esso

microfone antigo de rádio AM sobre mesa de estúdio
Foto: Brett Sayles / Pexels

31 de dezembro de 1968, às 20h25, a Rádio Nacional e a Rádio Globo do Rio de Janeiro levaram ao ar a última edição do Repórter Esso, o noticiário que por 27 anos foi “a testemunha ocular da história” e “o primeiro a dar as últimas”. É a efeméride que fala do próprio ofício de contar notícia, e por isso vale a pena parar para contá-la também neste calendário.

A última edição do Repórter Esso

Naquela noite final, o locutor Roberto Figueiredo leu as festas de Ano-Novo, o pronunciamento do presidente Costa e Silva sobre o AI-5 — decretado dezoito dias antes —, a condenação de Israel na ONU e a previsão do tempo, seguindo a rotina normal de qualquer edição do programa. Era a mesma estrutura de sempre, com as mesmas categorias de notícia que o programa cobria havia décadas, sem nenhum indício, nos primeiros minutos, de que aquela seria uma edição diferente das outras.

Só depois disso ele começou a recapitular as principais notícias dos 27 anos de existência do Repórter Esso, e foi nesse momento que a emoção tomou conta da leitura. A recapitulação funcionava como um resumo de época inteira, décadas de manchetes condensadas em poucos minutos de locução ao vivo, sem gravação nem edição posterior.

Vinte e sete anos como testemunha ocular da história

O programa estreara em 28 de agosto de 1941, para cobrir a Segunda Guerra, e inventou no Brasil o formato do radiojornal: texto curto, hora certa, vinheta de trombetas, locutor treinado para não improvisar uma só palavra fora do roteiro. Antes dele, o rádio brasileiro não tinha um formato fixo e reconhecível para noticiário, e foi justamente essa disciplina de horário e de texto enxuto que deu ao programa a força de “testemunha ocular da história” que o slogan prometia.

Esse formato rígido, quase militar na disciplina de leitura, foi justamente o que tornou tão marcante o momento em que ele se rompeu na última edição, diante de milhões de ouvintes acostumados a um Repórter Esso sempre impassível, seco, sem espaço para opinião ou emoção pessoal do locutor durante os 27 anos anteriores.

A noite em que o locutor chorou no ar

Roberto Figueiredo chorou no ar. O locutor reserva Plácido Ribeiro assumiu a leitura por alguns instantes, até que Figueiredo se recompôs e encerrou o programa, aos prantos, desejando boa noite e feliz ano-novo aos ouvintes que acompanhavam, sem saber com certeza, se aquela seria mesmo a despedida definitiva do noticiário que embalara sua geração desde a infância de muitos deles.

Não era comum, na época, um profissional de rádio deixar transparecer emoção pessoal durante uma transmissão ao vivo, sobretudo num programa de notícias construído em torno da ideia de neutralidade e precisão. Por isso o momento em que Figueiredo se quebrou na leitura ficou marcado na memória de quem ouviu naquela noite, e continua sendo lembrado até hoje como um dos episódios mais emblemáticos da história do rádio brasileiro.

Por que o noticiário mais famoso do rádio acabou

O fim teve mais de uma causa: a concorrência crescente da televisão, a queda de audiência do rádio como meio principal de informação e a decisão do patrocinador de espalhar a verba publicitária por outros formatos. Segundo pesquisadores do rádio brasileiro, também pesou o desgaste político do período, marcado pelo próprio AI-5 lido naquela última edição. Passados mais de cinco décadas, o Repórter Esso segue como referência de como se fazia jornalismo de rádio no Brasil antes de a televisão tomar o lugar central que ocupa até hoje na vida de quem busca notícia todos os dias. É uma efeméride que fala do próprio ofício do jornalista: mostra que até o texto mais curto, lido no tom mais neutro possível, carrega por trás uma pessoa de verdade, capaz de se emocionar quando o assunto é a própria história do trabalho que ela dedicou a vida inteira a fazer.

Outras datas de dezembro

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