Uma blitz contra o transporte clandestino em Vitória abordou 58 veículos e registrou 39 infrações de trânsito na noite de quinta-feira (16), na Avenida Adalberto Simão Nader, no bairro República. Dois condutores acabaram presos em flagrante, outros três assinaram Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) e cinco veículos foram removidos ao pátio.
A ação leva o nome de Força Pela Vida e teve como alvo veículos que faziam transporte remunerado de passageiros sem licença para isso, com os motoristas identificados pelos agentes nas áreas de embarque e desembarque do Aeroporto de Vitória. Participaram os agentes de trânsito do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran|ES), a Guarda Civil Municipal de Vitória (GTO/ GCMV) e efetivo da Polícia Civil do Estado do Espírito Santo (PCES), por meio da Delegacia de Delitos de Trânsito (DDT).
58 abordagens, 39 infrações: o que cada número mede
Os números divulgados sobre a operação não medem a mesma coisa, e vale separá-los antes de qualquer leitura:
- 58 veículos foram abordados pela equipe de fiscalização durante a blitz;
- 39 infrações foram registradas nessa mesma abordagem, por condutas vedadas pela legislação de trânsito;
- cinco veículos foram removidos ao pátio;
- dois condutores foram presos em flagrante;
- três motoristas assinaram TCOs e tiveram os veículos apreendidos e removidos ao pátio do Detran.
Uma infração não equivale a um veículo: o mesmo carro pode responder por mais de uma conduta, e o material divulgado não abre esse cruzamento. Também não fica esclarecido se os cinco veículos removidos ao pátio incluem ou não os três que foram apreendidos junto com os termos assinados. Os dois totais aparecem em parágrafos diferentes, sem que a fonte diga como se relacionam — e somá-los seria conta do leitor, não dado do órgão.
Das 39 infrações, o material oficial discrimina sete condutas e encerra a lista com a expressão entre outras, sem detalhar o restante:
- conduzir com o licenciamento vencido (5);
- veículo com o equipamento do sistema de iluminação e de sinalização alterados (4);
- recusar-se a ser submetido a teste do etilômetro (3);
- veículo em mau estado de conservação (3);
- condutor efetuando transporte remunerado de pessoas quando não for licenciado para esse fim (3);
- calçado inadequado (3);
- disputar corrida (2).
Presos em flagrante, autuados e apreendidos são situações diferentes
A operação terminou com três desfechos distintos, e cada um tem peso próprio.
Dois condutores foram presos em flagrante por participar de corrida, disputa ou competição automobilística em via pública sem autorização, gerando situação de risco — a descrição da conduta é a que consta do material oficial.
Outros dois motoristas foram flagrados praticando exercício irregular de profissão, e mais um por violar a suspensão do direito de dirigir. Esses três assinaram Termos Circunstanciados de Ocorrência e tiveram os veículos apreendidos e removidos ao pátio do Detran. O material não explica o que é o Termo Circunstanciado de Ocorrência nem qual é a etapa seguinte para quem assina um.
Havia ainda o álcool: dois condutores foram flagrados dirigindo sob efeito de álcool e três se recusaram a se submeter ao teste do etilômetro. Segundo a informação oficial, quem recusa o teste responde com as mesmas penalidades de quem é flagrado sob efeito de álcool. A fonte não cita a norma que estabelece isso, não informa qual é a penalidade nem em que valor ela fica — e estimar esse número aqui seria inventar dado.
Fiscalização não é condenação. Quem foi abordado, autuado ou teve o veículo removido não teve nada julgado nesta noite: a autuação registra a conduta que o agente observou e abre um procedimento, não o encerra. O material divulgado não informa prazos, instâncias ou como se apresenta defesa, e também não diz o que o dono precisa fazer — nem quanto precisa pagar — para retirar o veículo do pátio.
Onde a operação aconteceu e onde os motoristas foram encontrados
São dois endereços, e a diferença importa. A blitz foi montada na Avenida Adalberto Simão Nader, no bairro República, em Vitória. Já a abordagem dos condutores clandestinos partiu da identificação feita pelos agentes nas áreas de embarque e desembarque do aeroporto.
Ou seja: o ponto onde o serviço irregular era oferecido e o ponto onde os veículos foram parados não são o mesmo lugar, embora fiquem na mesma cidade. Resumir tudo como uma ação dentro do aeroporto apaga essa distinção.
Transporte clandestino em Vitória: o que o passageiro não consegue saber
O material oficial descreve a operação do ponto de vista de quem fiscaliza. Para quem desembarca no aeroporto com mala na mão e precisa decidir em qual carro entrar, ele deixa de fora justamente o que serviria de guia. Não há, na divulgação:
- nenhuma orientação sobre como o passageiro verifica, na hora, se o veículo é licenciado para transporte remunerado de pessoas;
- nenhum canal indicado para denunciar oferta de transporte clandestino — telefone, aplicativo, site ou posto de atendimento;
- nenhuma informação sobre selo, adesivo, cadastro público ou consulta que permita conferir a situação de um carro;
- nenhum dado sobre o risco concreto a que o passageiro fica exposto, como cobertura de seguro em caso de sinistro;
- nenhuma indicação de que a operação terá novas edições, em que frequência ou em que outros pontos da cidade.
A ausência dessas informações é parte da notícia. Um comunicado oficial descreve o que o órgão fez; ele não costuma listar o que ficou sem resposta.
O mesmo vale para o programa citado por um dos entrevistados: a operação é apresentada como vertente do Estado Presente, mas o material não explica o que é esse programa, quem o coordena nem quais órgãos o integram.
O que dizem os responsáveis pela fiscalização
O gerente de Fiscalização de trânsito do Detran|ES descreveu o alcance da abordagem, além do foco no transporte irregular:
“Estamos com foco no combate ao transporte clandestino de passageiros e em identificar infrações e possíveis crimes de trânsito, como, por exemplo, dirigir sob influência de álcool. Hoje mesmo, nós flagramos a conduta de disputa de corrida em via pública. São comportamentos com potencial para causar sinistros de trânsito e mortes nas vias.”
A declaração é de Jederson Lobato, gerente de Fiscalização de trânsito do Detran|ES.
Do lado da Polícia Civil, a operação foi enquadrada como parte de uma frente maior:
“Essa operação integrada é uma vertente do Estado Presente para fazer a repressão aos delitos de trânsito. Hoje nós focamos no transporte clandestino aqui no aeroporto.”
Quem afirma é o delegado Joel Lyrio Junior, da Delegacia de Delitos de Trânsito.
Já a Guarda Civil Municipal registrou que a blitz não foi aleatória, e sim montada a partir de um levantamento anterior:
“Fizemos essa blitz planejada para combater o transporte clandestino, que identificamos que está atuando no aeroporto de Vitória, colocando em risco os passageiros.”
A avaliação é do Inspetor Charles de Marchi, coordenador do Grupamento Tático Operacional (GTO) da GCM Vitória.
Um lado só, e uma frente entre outras
Todas as falas divulgadas são de agentes públicos que participaram da ação. Nenhum motorista abordado, nenhum representante do setor de transporte de passageiros e nenhum passageiro do aeroporto foi ouvido no material. Isso não significa que haja consenso sobre a operação: significa que o outro lado não aparece no documento que a originou.
Vale lembrar que a fiscalização de rua na Grande Vitória não se limita ao trânsito. Em episódio anterior e sem relação com esta operação, outra frente estadual mirou a fiscalização na venda de bicicletas elétricas na Grande Vitória, num exemplo de como veículos que circulam pelas mesmas vias entram na mira de órgãos diferentes.
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