O caso do motorista de aplicativo morto em Colatina, no noroeste do Espírito Santo, tem um suspeito preso. Um homem de 18 anos foi capturado na tarde de quinta-feira (24), no bairro Bela Vista, e é apontado como suspeito de matar a tiros um motorista de aplicativo de 31 anos, atingido dentro do próprio carro no bairro Vista da Serra, na noite do dia 02 de outubro. Assinam a ação a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Colatina, da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), e a Força-Tática do 8º Batalhão da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES). A nota oficial não diz se a prisão cumpriu ordem judicial ou se houve flagrante, e o suspeito foi levado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Colatina, onde, segundo o órgão, permanece à disposição da Justiça.
O comunicado não nomeia mandado nem flagrante
Este é o ponto que o leitor precisa guardar antes de qualquer outro: a PCES informa que prendeu, mas não informa como. O texto oficial não menciona mandado de prisão de nenhum tipo, não indica o juízo que teria expedido a ordem e não afirma que a captura tenha sido em flagrante. Delegacia apura e prende; ordem de prisão fora do flagrante é expedida por juízo — e é exatamente essa informação que o material não traz. Sem ela, não dá para dizer ao leitor em que situação processual o homem de 18 anos foi levado à unidade prisional.
O destino declarado também merece tradução. Centro de Detenção Provisória é unidade de custódia antes da decisão definitiva, e não de cumprimento de pena. Estar à disposição da Justiça significa que a permanência depende de decisão judicial, que pode confirmar, substituir ou revogar a custódia. Prisão não é condenação, e a nota não registra julgamento algum. Até que exista decisão, o que há é uma pessoa suspeita — palavra que o próprio órgão usa, e que este texto não substitui por nenhum rótulo mais duro.
O que os policiais encontraram na noite do dia 02 de outubro
A chamada que levou a Polícia Militar até o bairro Vista da Serra, naquela noite, era de tiros. No local, os militares encontraram um veículo que havia batido em uma árvore, em área de mata, e um homem ferido já sob atendimento das ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192). O que moradores contaram à equipe é que os disparos alcançaram o motorista quando ele ainda estava dentro do carro. Ele chegou com vida ao Hospital Silvio Avidos, mas não resistiu aos ferimentos.
A revista feita no interior do automóvel não localizou nenhum material ilícito, e esse é um ponto em que a nota afirma a negativa, em vez de apenas se calar. O carro levou um tiro, não constava com restrições e acabou guinchado. O detalhe diz algo sobre a rotina de quem dirige por aplicativo: o homem estava no próprio carro, à noite, e o material não informa se ele fazia uma corrida naquele momento nem se havia passageiro.
Três atiradores no relato, dois suspeitos apontados
Há uma lacuna que a própria nota abre e não fecha. Os relatos colhidos na noite do crime falam em três indivíduos que atiraram na direção do veículo e fugiram a pé. A acusação descrita pela Polícia Civil, porém, alcança duas pessoas: o homem de 18 anos preso e um segundo suspeito, de 20 anos, que a Polícia Civil descreve como coautor — palavra do órgão, não deste texto. A palavra que o comunicado usa para a dupla é conluio, ou seja, os dois teriam agido de forma combinada. Há ainda a figura de um mandante, que o delegado do caso diz não ter sido localizado.
A PCES não relaciona os dois conjuntos. O comunicado não diz se o terceiro atirador do relato inicial foi identificado, se é uma das pessoas já apontadas ou se segue sem identificação. Somar os citados para chegar a um total de envolvidos seria conta do portal, e não informação do órgão — por isso não se faz aqui.
O segundo suspeito foi morto em Linhares antes de responder
O desdobramento mais grave do material não estava no título com que a história circulou. O segundo suspeito, de 20 anos, foi morto em Linhares no dia 15 de outubro, antes que a acusação contra ele chegasse a qualquer instância. São, portanto, duas mortes dentro do mesmo comunicado: a do motorista de aplicativo e a dele.
Ele foi assassinado em um ato que pode ser caracterizado como ‘queima de arquivo’. As investigações continuam e estamos empenhados na localização e prisão do mandante do homicídio
A avaliação é do titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Colatina, delegado Deverly Pereira Junior. Queima de arquivo é a leitura do delegado sobre o episódio, não um enquadramento penal, e o material não informa quem apura a morte ocorrida em Linhares nem em que estágio está essa apuração.
Ainda segundo ele, os dois seriam integrantes de uma facção criminosa que a Polícia Civil identifica como Tropa do Urso e aponta como ativa no comércio de drogas naquela área. A ordem para matar teria partido de um dos chefes do grupo. Tudo isso é versão da investigação, divulgada pelo órgão que investiga: não há no material qualquer manifestação de defesa dos citados, e nota policial traz um lado só. Ausência de contraditório no comunicado não é concordância de ninguém.
O que o comunicado sobre o motorista de aplicativo morto em Colatina não informa
- A modalidade da prisão. Nenhum mandado é citado, nenhum juízo é indicado e não há afirmação de flagrante.
- Apreensões. A nota não relata a apreensão de objeto algum no momento da prisão e não diz se a arma usada nos disparos foi localizada.
- As circunstâncias da captura. O material indica o bairro, mas não informa se houve entrada em imóvel nem, em caso positivo, quem autorizou o acesso da equipe.
- O enquadramento penal. O texto trata o caso como homicídio, mas não descreve qualificadoras, não cita dispositivo legal e não diz se o suspeito foi indiciado.
- O rito seguinte. Não há menção a audiência de custódia, a prazo de investigação nem a data de conclusão do inquérito.
- A terceira pessoa do relato inicial. Nada se diz sobre sua identificação ou situação.
- A apuração da morte em Linhares. O comunicado não informa quem investiga nem em que fase está.
- A defesa. Nenhum dos citados tem manifestação registrada no material.
Por que este texto não traz o nome da vítima nem a motivação apontada
Duas informações que estão no comunicado oficial ficaram de fora por decisão editorial, e o leitor tem direito de saber que a ausência é escolha, não falha de apuração.
A primeira é o nome do motorista. Ele morreu, não responde a nada e não escolheu virar registro permanente de busca. Publicar o nome ao lado de idade, profissão, bairro e data reúne num único endereço indexado tudo o que devolve a família à vizinhança — e alcança quem ficou muito antes de alcançar qualquer interesse público. O fato está inteiro sem o nome: um trabalhador de aplicativo foi morto a tiros dentro do carro em que trabalhava.
A segunda é a motivação pessoal que a investigação atribui ao crime. O comunicado a descreve, e ela envolve a vida privada da vítima e de uma terceira pessoa que não é acusada de nada. Reproduzir a passagem exporia quem não está no caso e converteria uma hipótese em explicação fechada, quando o próprio texto oficial diz que o crime teria sido ordenado supostamente. Por isso o trecho foi descartado inteiro, e não aparado por dentro — recorte de relato fabrica um resumo que ninguém declarou.
Onde levar informação sobre o caso
O delegado afirma que a investigação continua e que a prioridade é localizar quem teria encomendado o crime. Quem tiver informação pode acionar:
- 181 — Disque-Denúncia: canal para repassar informação sem se identificar.
- 190 — Polícia Militar: para emergência em andamento.
O comunicado da PCES não divulga telefone da delegacia responsável nem endereço para quem queira prestar depoimento sobre o caso.
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