Gangue da Hilux: operação em João Neiva deixa um morto — Direto Notícias

Gangue da Hilux: operação em João Neiva deixa um morto

A operação terminou com uma morte. Um homem de 32 anos foi atingido no rosto por um disparo de policial e morreu ainda no local, na terça-feira (11), durante uma ação da Delegacia Especializada de Crimes de Furtos e Roubos de Veículos (DFRV) na BR-259, em João Neiva. Outros dois homens, de 27 e 29 anos, foram detidos e autuados em flagrante. O relato é da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) — e o desfecho já está sob apuração de um departamento diferente daquele que conduziu a operação.

O que a Polícia Civil diz que aconteceu na BR-259

Os três homens estavam sob monitoramento da equipe da DFRV, a delegacia que apura furto e roubo de veículos no Estado. Segundo o material oficial, eles seguiam num Fiat Siena quando foram parados na altura de João Neiva. A corporação afirma que não obedeceram à ordem de abordagem e que um dos ocupantes gesticulou como se fosse atirar contra os policiais. Um agente disparou. O projétil pegou o braço de um dos ocupantes, atravessou e acertou o rosto de outro.

O texto da PCES descreve o disparo como reação para se defender de uma possível injusta agressão. É a formulação da própria corporação sobre a conduta do seu agente, escrita no dia do fato. Não há, no material, versão da defesa dos detidos, da família do homem morto ou de qualquer testemunha que não seja policial. Ausência de contestação num comunicado oficial não é o mesmo que versão confirmada.

A Hilux abandonada em Baixo Guandu, antes da abordagem

Antes do encontro no trevo de João Neiva, ainda conforme o relato, a equipe da DFRV avisou a Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) de Baixo Guandu de que havia um homem dirigindo pela região uma Toyota Hilux com registro de furto e roubo. A PMES tentou pará-lo, ele escapou e deixou o veículo para trás. Depois, esse mesmo homem teria entrado no Fiat Siena com os outros dois.

O material não conta o que aconteceu com a caminhonete abandonada — se foi apreendida, devolvida ao proprietário ou incluída em alguma das contagens de recuperação que o próprio texto apresenta adiante. Também não diz em que horário a tentativa de abordagem em Baixo Guandu ocorreu, nem qual dos três ocupantes do Siena, pela idade, seria o motorista da Hilux.

O que cada um dos dois autuados responde — e a diferença entre eles

Os dois sobreviventes foram autuados em flagrante, e não presos por ordem judicial: a palavra mandado não aparece uma única vez no material. Flagrante é providência lavrada na delegacia, no calor da ocorrência; cabe à Justiça, em seguida, decidir se a prisão se mantém. E autuação não é condenação — nenhum dos dois foi julgado, e ambos permanecem na condição de suspeitos.

  • Homem de 29 anos — autuado e encaminhado à sede da DFRV, com destino ao sistema prisional. Responde por receptação, associação criminosa, adulteração veicular e resistência.
  • Homem de 27 anos — autuado, porém ainda internado. Responde por associação criminosa, adulteração veicular e resistência. Foi socorrido e está no Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, na Serra. Só seguirá para o sistema prisional quando receber alta médica.

A diferença entre os dois enquadramentos não é detalhe, e o material não a explica: apenas o homem de 29 anos responde também por receptação. Em linguagem de leigo, os quatro itens tratam de coisas distintas — receptação é ficar com bem que se sabe ser produto de crime; adulteração veicular é mexer em placa, chassi ou identificação do carro; resistência é opor-se à ação do policial; e associação criminosa é o vínculo estável entre pessoas para cometer crimes, que é justamente o ponto que a investigação ainda precisa demonstrar.

A morte vai ser investigada por outro departamento

O corpo do homem de 32 anos foi levado ao Instituto Médico Legal (IML), da Polícia Científica, para necropsia — o exame que estabelece causa e circunstância da morte — e depois será liberado aos familiares. A apuração do confronto ficará com o Serviço de Investigações Especiais (SIE), do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), setor que, informa a PCES, cuida das ocorrências de confronto envolvendo agentes de segurança do Estado.

Na prática: a versão divulgada no dia é o ponto de partida de uma investigação, não a sua conclusão. Nada no material indica prazo para esse trabalho, nem se os policiais que participaram da abordagem foram afastados enquanto ele corre.

Gangue da Hilux é apelido de grupo, não tipificação penal

O termo Gangue da Hilux aparece no material sempre como nome pelo qual o grupo é conhecido ou chamado — nunca como enquadramento. O texto não diz quem cunhou o apelido: não informa se ele nasceu dentro da investigação, entre os próprios envolvidos ou na cobertura jornalística. A única atribuição existente é indireta e vem do titular da DFRV, delegado Luiz Gustavo Ximenes: segundo ele, as investigações indicam que os suspeitos fazem parte da chamada Gangue da Hilux, um grupo que usaria bloqueadores de rastreador, além de dispositivos para destravar as caminhonetes e dar partida nelas.

A distinção importa para quem lê. Apelido é rótulo de investigação; o que consta do auto de flagrante é associação criminosa. Integrar um grupo apelidado não é, por si, uma acusação formal — a acusação formal é a que está escrita na autuação. Nenhum dos envolvidos foi identificado pelo nome no material, e a DFRV informa que as diligências continuam para localizar os demais.

A prisão anterior, em Cariacica, e os números que o material não relaciona

O mesmo comunicado emenda, no fim, uma ocorrência distinta e anterior. Na quinta-feira (6), a DFRV prendeu no bairro Cariacica Sede, em Cariacica, um homem de 24 anos que a corporação aponta como suspeito de integrar o mesmo grupo apelidado, descrito no texto como especializado em furtar caminhonetes. A ele são atribuídos os furtos de duas Toyota Hilux, ocorridos em 5 e em 6 de fevereiro, com a participação — diz o texto — de um segundo suspeito, de 27 anos, e de mais um envolvido, sem identificação; o carro usado teria sido um Toyota Etios, encontrado com o homem detido. Após os procedimentos de praxe, ele foi levado ao sistema prisional, à disposição da Justiça. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) localizou no dia 6 um dos carros levados na véspera, que a essa altura já estava de placas adulteradas. Essa prisão foi noticiada à parte, no dia anterior, em registro da prisão anterior em Cariacica, ligada aos furtos de caminhonetes na Grande Vitória — episódio independente, com outra pessoa e outro município.

É neste trecho que o material apresenta dois conjuntos de números sem costurá-los. De um lado, contabiliza, entre 19 de janeiro e 6 de fevereiro, sete furtos de caminhonetes Toyota Hilux na Grande Vitória, dos quais cinco veículos já teriam sido recuperados. De outro, registra que em 26 de janeiro a PMES recuperou em Cariacica mais uma caminhonete do mesmo modelo, com restrição de furto e roubo. O texto não diz se essa recuperação está dentro das cinco, nem se as duas Hilux furtadas em 5 e 6 de fevereiro estão dentro das sete, nem onde entra a caminhonete abandonada em Baixo Guandu. Os dois blocos ficam aqui como a fonte os apresenta, sem soma: somá-los produziria um número que ninguém informou.

Há ainda uma coincidência que o texto oficial não esclarece: o suspeito de 27 anos citado no caso de Cariacica tem a mesma idade do homem de 27 anos autuado em João Neiva seis dias depois. O material não afirma que sejam a mesma pessoa — e, sem essa afirmação, não há como dizer que seja. Vale um cuidado parecido no relato da recuperação de 26 de janeiro: ali o comunicado abandona os termos suspeitos e indivíduos, usados no resto do texto, e passa a tratar as pessoas como culpadas antes de qualquer julgamento. O que o trecho conta é que houve fuga durante a ação e que um deles deixou cair um aparelho celular, com a frase seguinte sem deixar claro se o identificado foi o aparelho ou a pessoa.

A DFRV também informa que, desde a quarta-feira (05), suas equipes mantêm diligências contínuas, entre elas a checagem de imagens de videomonitoramento, com o objetivo de chegar aos demais envolvidos.

O que o material da Polícia Civil não informa

  • Se havia arma com os ocupantes do Fiat Siena. O texto diz que um deles fez menção de atirar, mas não registra apreensão de arma nenhuma.
  • O estado de saúde do homem de 27 anos internado e a previsão de alta.
  • Se os policiais que participaram da abordagem foram afastados enquanto o SIE apura o confronto.
  • Quantas pessoas a investigação atribui ao grupo apelidado e quantas já foram identificadas.
  • O destino da Toyota Hilux abandonada em Baixo Guandu.
  • Se o homem de 27 anos de João Neiva e o suspeito de 27 anos do caso de Cariacica são a mesma pessoa.
  • Quem cunhou o apelido e desde quando a investigação o utiliza.
  • Se os autuados têm defesa constituída — nenhuma manifestação aparece no comunicado.
  • De onde partiu qualquer decisão judicial: não há menção a mandado em nenhuma das duas ocorrências descritas.

Como informar sobre veículo furtado

Quem tiver informação sobre caminhonetes furtadas ou sobre pessoas envolvidas pode acionar o 181, o Disque-Denúncia, que não exige que a pessoa se identifique: o serviço registra o relato e o encaminha às equipes de investigação. Diante de situação em andamento, com risco imediato, o número é o 190. O comunicado divulgado pela Polícia Civil não aponta canal específico para este caso nem número de protocolo para acompanhamento.

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