
Hoje, 13 de março, o Brasil relembra o Comício da Central do Brasil, o discurso que o presidente João Goulart fez em 1964 na Praça da República, no Rio de Janeiro. Foi o último ato público de Jango antes do golpe que o depôs, dezoito dias depois.
O que aconteceu no Comício da Central do Brasil
Em 13 de março de 1964, João Goulart discursou na Praça da República, em frente à estação Dom Pedro II, conhecida como Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Segundo o Atlas Histórico do Brasil, da FGV, cerca de 150 mil pessoas ocuparam a praça: sindicalistas, servidores públicos civis e militares, estudantes e trabalhadores rurais.
Foi ali, diante dessa multidão, que Jango anunciou publicamente as Reformas de Base, um conjunto de mudanças estruturais que o presidente defendia havia tempo e que incluía alterações na forma como terras e empresas eram usadas e distribuídas no país.
O tamanho da concentração já era, por si só, um sinal do momento político do país: um presidente da República reunindo, em uma única praça, representantes de categorias tão diferentes — do operariado urbano ao trabalhador do campo — para anunciar mudanças que ele considerava urgentes.
As Reformas de Base anunciadas por João Goulart
No próprio comício, João Goulart assinou decretos que colocavam as Reformas de Base em prática. Um deles tratava da desapropriação de propriedades com mais de cem hectares localizadas perto de rodovias e ferrovias federais. Outro determinava a encampação de refinarias particulares de petróleo, entre elas a Capuava, a Ipiranga, a Manguinhos, a Amazonas e a Destilaria Rio-Grandense. Um terceiro decreto tabelava o valor de aluguéis e previa a desapropriação de imóveis urbanos desocupados.
Esses atos, assinados diante do público reunido na praça, tornaram o Comício da Central do Brasil o momento em que as Reformas de Base deixaram de ser promessa e passaram a ser decisão de governo. Não foi um discurso de intenções: foi um ato de poder concreto, exercido diante das câmeras e da multidão, o que ampliou tanto o apoio de quem defendia as mudanças quanto a oposição de quem via nelas uma ameaça.
Não existe lei sobre a data
O 13 de março não tem lei federal que o transforme em data cívica. O que existe é um fato histórico, registrado por instituições de pesquisa e memória como o Atlas Histórico do Brasil, da FGV, e por acervos dedicados à história do período. É a força do próprio acontecimento — e não uma norma do Congresso Nacional — que faz a data ser lembrada todos os anos.
Isso coloca o Comício da Central do Brasil numa categoria diferente das datas comemorativas criadas por lei: aqui, o calendário jornalístico e histórico é quem sustenta a lembrança, ano após ano, sem depender de nenhum texto legal que obrigue a data a ser celebrada.
Como o comício marcou a queda de Jango
O Comício da Central do Brasil foi a última vez que João Goulart falou diretamente à população antes de ser deposto. O tamanho do ato e o conteúdo dos decretos assinados naquele dia aceleraram a reação de setores contrários ao governo, que organizaram as Marchas da Família em resposta. Semanas depois, em 26 de março, veio a crise dos marinheiros, e, em 31 de março de 1964, dezoito dias após o comício, o presidente foi deposto.
Por isso o 13 de março de 1964 é tratado como um marco: não por lei, mas por ter sido o ponto em que o discurso de Jango e a reação a ele se tornaram parte definitiva da história política do país. Cada aniversário da data reacende o debate sobre o período, justamente porque o comício reúne, num único acontecimento, o auge e o início do fim de um governo.
Em resumo, o Comício da Central do Brasil não tem lei nem é data comemorativa oficial: é um episódio histórico verificado, marcado pelo último discurso público de João Goulart antes do golpe que encerrou seu governo dezoito dias depois.
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