Ansiedade de separação em pequenos animais ganha abordagem clínica aprofundada na VMX 2026 – Portal

Ansiedade de separação em pequenos animais ganha abordagem clínica aprofundada na VMX 2026 – Portal

A ausência do tutor, ainda que por curtos períodos, pode representar um fator de estresse significativo para cães e gatos. 

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Em determinados indivíduos, esse contexto desencadeia um conjunto de alterações emocionais, fisiológicas e comportamentais que caracteriza a síndrome de ansiedade de separação. 

O tema foi amplamente discutido por Kersti Seksel, médica-veterinária referência internacional em Medicina Comportamental, durante a programação científica da VMX 2026.

Logo no início da apresentação, a profissional alertou para o uso indiscriminado do termo no cotidiano clínico. 

“Ansiedade de separação virou um rótulo popular, mas nem todo comportamento indesejado na ausência do tutor se encaixa nesse diagnóstico”, afirmou.

Ansiedade: resposta adaptativa ou condição patológica?

Segundo Seksel, a ansiedade é uma resposta normal e adaptativa frente a ameaças reais ou percebidas. 

Envolve ativação do sistema nervoso autônomo, liberação de hormônios do estresse e mudanças comportamentais que visam aumentar as chances de sobrevivência.

“O problema surge quando essa resposta deixa de ser funcional e passa a comprometer a capacidade do animal de se adaptar às situações do dia a dia”, explicou a palestrante.

A especialista destacou ainda que a vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos ansiosos é multifatorial. 

Aspectos genéticos, epigenéticos, experiências precoces — especialmente durante o período neonatal —, além de eventos traumáticos ao longo da vida, exercem papel determinante nesse processo.

Por que falar em síndrome de ansiedade de separação?

Ao abordar especificamente a ansiedade relacionada à separação do tutor, Kersti Seksel defendeu o uso do termo síndrome. 

De acordo com ela, trata-se de um conjunto de sinais clínicos que pode variar em intensidade e apresentação, além de se sobrepor a outros distúrbios comportamentais.

“Chamamos de síndrome porque ainda não compreendemos completamente todos os mecanismos envolvidos. É um quadro heterogêneo, que exige avaliação individualizada”, ressaltou.

Na literatura científica, a condição também aparece descrita como estresse de separação, sofrimento por separação ou transtorno de ansiedade de separação, o que reforça a necessidade de padronização conceitual no meio veterinário.

Ansiedade de separação em pequenos animais ganha abordagem clínica aprofundada na VMX 2026
A ansiedade é uma resposta adaptativa, mas torna-se patológica quando interfere no bem-estar e na capacidade de enfrentamento do animal (Foto: Reprodução)

Manifestações clínicas em cães

Nos cães, a síndrome costuma se manifestar exclusivamente durante a ausência real ou percebida do tutor. 

Entre os sinais mais frequentes estão vocalização excessiva, destruição de objetos, tentativas de fuga, eliminação inadequada, salivação intensa, inquietação e recusa alimentar.

“É fundamental compreender que esses comportamentos não ocorrem por desobediência. Eles são expressão de sofrimento emocional”, enfatizou Seksel.

A palestrante também chamou atenção para o conceito de ausência virtual, que inclui situações em que o tutor permanece na residência, mas impede o acesso do animal a determinados ambientes. 

“Para alguns cães, fechar uma porta já é suficiente para desencadear ansiedade intensa”, explicou.

Particularidades da ansiedade de separação em gatos

Embora menos estudada e diagnosticada, a ansiedade de separação também ocorre em gatos. 

Segundo a profissional, a menor percepção do problema está relacionada à interpretação equivocada dos sinais por parte dos tutores.

Entre as manifestações mais comuns estão vocalização excessiva, micção por marcação, arranhaduras em locais inadequados e lambedura excessiva, que pode resultar em alopecia e lesões dermatológicas.

“Esses sinais muitas vezes são atribuídos a problemas dermatológicos ou territoriais, o que atrasa o diagnóstico correto”, pontuou.

Dados epidemiológicos e impacto no bem-estar

Estudos apresentados durante a palestra indicam que aproximadamente 8,7% dos cães na Austrália apresentam sinais compatíveis com ansiedade de separação moderada a grave. 

Nos Estados Unidos, estima-se que mais da metade desses animais não recebe tratamento adequado.

“Estamos falando de uma condição de alto impacto no bem-estar animal, que frequentemente evolui sem intervenção profissional”, alertou Seksel.

A especialista destacou ainda que a síndrome pode estar associada a comorbidades, como fobias sonoras, hipersensibilidade ambiental e dor crônica, fatores que intensificam a resposta ansiosa e dificultam o manejo.

Diagnóstico e fatores predisponentes

Entre os principais fatores associados ao desenvolvimento da síndrome estão mudanças abruptas na rotina, períodos prolongados de convivência intensa seguidos de afastamento, adoção tardia, histórico de abandono, hospitalizações frequentes e doenças do tutor.

“Animais socialmente dependentes, que não desenvolveram estratégias de enfrentamento, são particularmente vulneráveis”, explicou a profissional.

Segundo Seksel, o diagnóstico deve ser baseado em uma anamnese comportamental detalhada, associada à exclusão de causas clínicas que possam justificar os sinais observados.

Tratamento: abordagem integrada e individualizada

Para o manejo da síndrome, a palestrante apresentou o modelo terapêutico dos 4M:

  • Manejo ambiental, reduzindo inicialmente os períodos de separação
  • Modificação comportamental, com foco na resposta emocional do animal
  • Medicação, quando indicada
  • Monitoramento contínuo, com reavaliações periódicas

“Não existe tratamento único ou solução rápida. A intervenção deve ser gradual e adaptada a cada paciente”, destacou. 

A profissional reforçou que punições são contraindicadas e podem agravar o quadro. 

“Punir um animal ansioso só aumenta o medo e compromete a relação com o tutor”, afirmou.

O papel do médico-veterinário na identificação precoce

Encerrando a apresentação, Kersti Seksel enfatizou a importância do médico-veterinário como agente central no reconhecimento precoce da ansiedade de separação. 

Questionários comportamentais simples durante a consulta de rotina podem auxiliar na identificação de sinais iniciais.

“Ansiedade é uma condição médica. Reconhecê-la cedo é fundamental para melhorar a qualidade de vida do animal e fortalecer o vínculo com o tutor”, concluiu.

Ansiedade de separação em pequenos animais ganha abordagem clínica aprofundada na VMX 2026
O tratamento da ansiedade de separação exige combinação de manejo ambiental, terapia comportamental e, em alguns casos, farmacoterapia (Foto: Reprodução)

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