Material didático do Paes começa a chegar às escolas do ES

O Governo do Estado começou a levar às escolas públicas capixabas o material didático do Paes, o conjunto de livros e cartazes de alfabetização divulgado com o nome de Coleção Paes. Quem informa é a Secretaria da Educação (Sedu). O estágio é o de distribuição iniciada, não concluída: o aviso oficial diz que a pasta deu início à entrega, e o número anunciado — 728.761 livros e kits pedagógicos — aparece no futuro, como o que será entregue. Em nenhum ponto o material informa a data em que a remessa chega a cada escola, nem um prazo para o fim da distribuição.

O que é o material didático do Paes

Paes é a sigla de Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo, uma iniciativa da própria Sedu tocada junto com os municípios para apoiar professores das duas redes na alfabetização. O aviso explica a sigla, e explica também a segunda que ele usa: MDC, de Material Didático Complementar.

Complementar é a palavra que define o conjunto. Pelo próprio nome, ele não é o livro principal da escola — soma-se ao que já existe em sala. O que o texto oficial não diz é a que material ele se soma, nem se alguma coisa deixa de ser usada por causa dele.

E é material didático, não coleção literária. O que a Sedu descreve são peças de trabalho de sala de aula:

  • livros de Língua Portuguesa para o 1º, o 2º e o 3º anos;
  • kits de cartazes para os dois primeiros anos;
  • livros de Matemática para o 4º ano, voltados ao letramento matemático;
  • uma peça para o estudante e outra, separada, para o professor.

A organização do caderno segue o que a secretaria chama de tempos didáticos: um momento de leitura e oralidade e outro de escrita, presentes tanto no material do aluno quanto no do professor. Quem descreve esse desenho é o gerente do Regime de Colaboração com os Municípios, Saulo Andreon. O conteúdo, segundo a Sedu, foi montado a partir das características regionais e alinhado ao Currículo do Espírito Santo (2020), com inclusão de obras de autores e artistas capixabas — sem que nenhum deles seja nomeado no aviso.

Os objetivos: dois dos cinco miram o professor

O aviso lista cinco finalidades para o conjunto: alfabetizar na perspectiva do letramento; formar o professor dentro da própria prática; organizar uma rotina de aula dividida em tempos; oferecer atividades aplicáveis em sala; e orientar pedagogos e professores sobre como usar o material.

Vale reparar em quem é o destinatário de cada uma. Duas das cinco não falam da criança, e sim do adulto que dá a aula — o que faz do MDC, além de material de estudante, uma peça de formação de professor. Essa parte costuma escapar da leitura rápida de um anúncio de entrega de livros.

Os números do aviso, um a um

Cada cifra divulgada vem com uma condição diferente, e vale lê-las separadas em vez de somadas de cabeça:

  • 728.761 livros e kits pedagógicos — o total que o secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, afirma que serão entregues. É previsão de entrega, não contagem do que já chegou às escolas.
  • R$ 3.593.446,90 — o investimento total informado para a ação.
  • 550.432 exemplares — a parcela dos livros de Língua Portuguesa do 1º, 2º e 3º anos, contados junto com os kits de cartazes dos dois primeiros anos.
  • 178.329 livros — a parcela de Matemática destinada ao 4º ano.

As duas parcelas detalhadas pela secretaria fecham com o total anunciado, o que nem sempre acontece em material de divulgação, e não há valor repetido em dois pontos diferentes do texto: cada número aparece uma vez só, ligado a um item só.

O que falta são os recortes que dariam tamanho real à ação. O aviso não diz quantas escolas serão atendidas, não diz quantos estudantes vão receber o material e não separa, dentro dos 728.761, quantos são livros e quantos são kits de cartazes. Também não há custo por exemplar nem indicação do que o valor cobre — se apenas a produção, se também o transporte até as unidades.

Uma divergência dentro do próprio texto: 1º ao 3º ou 1º ao 4º?

Num trecho, o aviso afirma que o MDC do Paes atende estudantes do 1º, 2º, 3º e 4º anos — e detalha os 178.329 livros de Matemática do 4º ano. Mais adiante, ao responder a quem o material se destina, o mesmo texto escreve que ele é destinado a estudantes e professores do 1º, 2º e 3º anos do Ensino Fundamental.

As duas informações não combinam, e o material não explica a diferença. Elas ficam aqui como o órgão as publicou, sem que este registro escolha um lado nem refaça a conta por fora. Para a família, a dúvida é prática: se a criança está no 4º ano, o aviso ora a inclui, ora a deixa de fora.

Quem paga, quem entrega e quem recebe

Quem banca é o Governo do Estado, e quem distribui é a Sedu. Quem recebe são as escolas das redes pública estadual e municipal. Os dois papéis não são o mesmo: o Estado está pagando e entregando material para dentro de escolas administradas pelos municípios, que não são geridas por ele. É esse arranjo que o texto oficial chama de regime de colaboração — o mesmo eixo em que o Paes se apoia, ao lado do apoio à gestão, do fortalecimento da aprendizagem e do planejamento e suporte, os três eixos que a secretaria declara para o pacto.

Quem produziu o material, no entanto, o aviso não informa. Não há nome de editora, de gráfica ou de empresa contratada, não há número de contrato, de licitação ou de processo de compra, e o texto não diz se os livros foram encomendados a terceiros ou produzidos pela própria rede.

Este é mais um investimento do Governo do Estado, que tem feito diversas ações de apoio aos municípios, e aqui estamos diante de mais uma delas.

A avaliação é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo. É a única declaração de alguém no material divulgado — todo o resto do aviso é descrição feita pela secretaria.

O caderno vai para casa? O aviso não responde

Para quem tem criança em ano de alfabetização, essa é a pergunta que importa, e o material oficial não a responde. Ele registra que existem duas peças, uma do aluno e uma do professor, mas não diz se o caderno do estudante é de uso individual e consumível, se fica guardado na escola, se pode ser levado para casa ou se precisa ser devolvido ao fim do ano letivo.

Também não há menção a versão digital, a endereço de download ou a qualquer canal de consulta pública ao conteúdo. Enquanto a secretaria não detalhar, a única forma de a família saber como será o uso é perguntar na própria escola em que a criança estuda — o aviso não oferece outro caminho, e este registro não vai inventar um.

Um lado só: quem divulga é quem produz e distribui

O texto que deu origem a este registro é da Secretaria da Educação, isto é, do órgão que criou o Paes, encomendou o conjunto, paga por ele e o está entregando. As duas vozes que aparecem — o secretário e o gerente do Regime de Colaboração com os Municípios — são da mesma secretaria.

Não há no material nenhum professor dos anos iniciais avaliando os cadernos, nenhuma família relatando o uso e nenhuma avaliação independente sobre o efeito do conjunto na alfabetização. A ausência de crítica num texto de divulgação não significa consenso: significa que o documento é de divulgação. Vale ler a ação com essa moldura.

O que o aviso oficial não informa

  • a data em que o material chega a cada escola e o prazo para o fim da entrega;
  • quantas escolas e quantos estudantes serão atendidos;
  • quantos dos 728.761 itens são livros e quantos são kits de cartazes;
  • quem produziu e imprimiu o conjunto, e sob qual contrato;
  • se o caderno do estudante pode ir para casa ou fica na escola;
  • se existe versão digital e onde consultá-la;
  • como e quando a secretaria vai medir se o material melhorou a alfabetização.

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