
O Brasil perdeu, na madrugada desta quarta-feira (22), um dos maiores nomes da história do audiovisual nacional. Luiz Carlos Barreto, carinhosamente chamado de Barretão, faleceu aos 98 anos, deixando para trás mais de seis décadas de contribuições irreversíveis ao cinema do país. Familiares confirmaram a notícia ao GLOBO.
Certamente, poucos personagens marcaram tanto a cultura brasileira quanto ele. Nascido em 1928, em Sobral, interior do Ceará, Barretão construiu uma trajetória que atravessou gerações, movimentos artísticos e transformações políticas profundas. Sua saúde havia se fragilizado desde março de 2024, após uma queda sofrida no Ceará durante uma homenagem, e ele permanecia internado desde a última terça-feira.
Do Jornalismo às Telas: Uma Trajetória Improvável
Primeiramente, é preciso entender que Barretão não nasceu cineasta — ele se tornou um. Formado em Letras, chegou ao Rio de Janeiro em 1947 e, a partir de 1950, passou a trabalhar como repórter e fotógrafo na revista O Cruzeiro, dos Diários Associados. Foi nesse ambiente que desenvolveu o olhar aguçado que mais tarde definiria sua carreira nas telas.
Em contraste com trajetórias convencionais do cinema, sua passagem para o audiovisual foi quase acidental. Ao cobrir as filmagens de Barravento (1961), de Glauber Rocha, na Bahia, descobriu sua verdadeira vocação. Convencido pelo próprio Glauber, estreou como corroteirista e coprodutor em Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias.
Cinema Novo e as Obras Que Definiram uma Era
Nesse sentido, Barretão tornou-se peça central do Cinema Novo, movimento que revolucionou o audiovisual brasileiro nos anos 1960. Como diretor de fotografia, assinou dois clássicos absolutos: Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Além disso, fundou em maio de 1963 a LC Barreto Produções Cinematográficas, responsável por mais de 80 filmes ao longo de seis décadas.
De fato, o maior sucesso comercial de sua carreira foi Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), dirigido por seu filho Bruno Barreto — adaptação do romance de Jorge Amado que reuniu quase 11 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros, um recorde histórico.
Uma Dinastia Familiar Que Transformou o Audiovisual
Por outro lado, o legado de Barretão não se resume a filmes. Ao lado de sua esposa Lucy Barreto, com quem se casou em Paris em 1954, construiu uma verdadeira dinastia cinematográfica. Os filhos Bruno, Fábio e Paula seguiram os passos dos pais. Consequentemente, a LC Barreto produziu dois filmes indicados ao Oscar: O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997).
Assim sendo, o cinema brasileiro perde não apenas um profissional genial, mas um guardião da memória cultural do país. Barretão foi, acima de tudo, um homem que acreditou no Brasil quando poucos tinham coragem de fazê-lo.
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