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Terceira Expedição a Canudos: o que aconteceu em 2 de março de 1897

Trilha de terra batida no sertão seco com vegetação espinhosa sob sol forte
Foto: Andreas Ebner / Pexels

Em 2 de março de 1897, a Terceira Expedição a Canudos alcançou as imediações do arraial baiano, abrindo os dias mais sangrentos do confronto em torno do arraial. Não existe data comemorativa nem lei sobre esse episódio — é efeméride histórica, e a cronologia exata precisa de cuidado, porque é onde a maioria dos textos erra.

O que aconteceu na Terceira Expedição a Canudos

Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, era um beato leigo — não era padre — que atravessou o sertão do Ceará à Bahia pregando penitência e consertando igrejas e cemitérios. Em 1893 fixou-se às margens do rio Vaza-Barris e chamou o lugar de Belo Monte; a República o chamou de Canudos. Em poucos anos, o arraial reunia milhares de moradores, entre sertanejos expulsos pela seca, indígenas e libertos recém-saídos da escravidão, vivendo sob disciplina religiosa própria — e a jovem República viu ali uma ameaça monarquista.

A Terceira Expedição, comandada pelo coronel Antônio Moreira César, o “corta-cabeças”, saiu com cerca de 1.300 homens e a promessa de almoçar em Canudos. Alcançou as imediações do arraial, no Rancho do Vigário, a dezenove quilômetros do povoado, em 2 de março de 1897, e forçou o assalto na manhã seguinte, sem água nem comida desde a véspera.

A origem apurada: cronologia que exige cuidado

Os soldados se perderam nas vielas estreitas do arraial e viraram alvo fácil; depois de cinco horas de combate, o recuo virou fuga. Ferido por duas balas, o comandante Moreira César ainda ordenou novo ataque e morreu na madrugada de 4 de março de 1897 — não em 2 de março, data em que apenas a coluna havia chegado às imediações do arraial. O saldo da batalha foi de 253 mortos, 120 feridos e 17 desaparecidos, e os sertanejos ficaram com armas modernas e munição tomadas do Exército. Só a quarta expedição, meses depois, destruiria Canudos, em outubro daquele ano.

Um documento acadêmico sobre a religiosidade do período dá o pano de fundo que explica por que a hierarquia católica via Canudos como ameaça: as Instruções de 14 de junho de 1890, assinadas pelo cardeal Rampolla, secretário de Estado do Vaticano, fixaram ao episcopado brasileiro pontos como o “controle das irmandades e confrarias”, a “ação missionária no interior do Brasil” e a “introdução de devoções europeias” — a mecânica exata da romanização, o movimento que substituiu a devoção popular e leiga pelo culto centralizado no padre e em Roma. Os pontos foram debatidos entre 10 e 20 de agosto de 1890, na primeira grande conferência do episcopado brasileiro, em São Paulo. O catolicismo messiânico e comunitário de Canudos era exatamente o tipo de prática que esse movimento tentava desmontar.

O que diz a lei sobre a Terceira Expedição a Canudos

Não existe norma sobre a batalha em si, mas existe uma lei sobre o líder do arraial. A Lei nº 13.829, de 13 de maio de 2019, tem a ementa “Inscreve o nome de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, e o artigo 1º manda inscrever o nome “no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília”. A lei foi sancionada por Jair Messias Bolsonaro, com a referenda de Sérgio Moro, e publicada no Diário Oficial da União de 14 de maio de 2019 — um dia depois da data da própria lei, que é de 13 de maio.

Como o episódio é lembrado hoje

O episódio permanece como um dos capítulos mais estudados da história republicana brasileira, tema de obras acadêmicas publicadas pela Revista de História da USP e pela revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria, que documentaram com precisão os horários da morte de Moreira César. A inscrição do nome de Antônio Conselheiro no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, em 2019, mostra como a memória do episódio segue em disputa mais de um século depois: de bandido para a imprensa da época, o líder religioso passou a herói oficial da República que um dia o combateu.

Outras datas de março

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