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Santa Coleta de Corbie: a reformadora sem lei no calendário

Hábito religioso simples pendurado junto a uma cela estreita de pedra, com uma única fresta de luz.
Foto: Susanne Jutzeler, suju-foto / Pexels

6 de março é o dia em que o calendário litúrgico católico celebra Santa Coleta de Corbie, a freira francesa que devolveu a pobreza estrita às clarissas num dos períodos mais conturbados da história da Igreja. Não existe lei brasileira para essa data: a memória vem do martirológio romano, fixada por autoridade eclesiástica, e não pelo Congresso Nacional.

Quem foi Santa Coleta de Corbie

Ela se chamava Nicolette Boylet e nasceu em Corbie, na diocese de Amiens, no norte da França, em 1381, filha de uma mãe já idosa. O apelido Coleta, diminutivo do nome, ficou para sempre. Cresceu no pior momento possível para quem queria ordem na Igreja: o Cisma do Ocidente havia rachado a cristandade em obediências rivais, com papas simultâneos em Roma e em Avinhão, e a vida religiosa, atravessada por guerra e peste, tinha afrouxado a disciplina em muitos mosteiros. Coleta escolheu primeiro o caminho oposto ao da reforma pública: pediu para ser emparedada, isto é, recolhida numa cela junto a uma igreja, de onde não sairia mais. Foi ali, fechada entre quatro paredes num tempo de guerra e peste, que ela amadureceu a convicção que mudaria o resto da vida dela.

Da clausura para a reforma das clarissas

Foi de dentro desse enclausuramento que veio a virada. Convencida de que a Ordem de Santa Clara precisava voltar à pobreza estrita que a fundadora havia escrito na regra, Coleta saiu da reclusão e procurou o papa da obediência de Avinhão — Bento XIII, o papa do Cisma do Ocidente, e não o outro Bento XIII, do século XVIII, com quem é fácil confundir o nome. Dele recebeu o hábito de clarissa e o mandato para reformar; segundo a cronologia franciscana, o próprio papa lhe deu o hábito e recebeu dela a profissão da primeira regra. Coleta reformou dezessete mosteiros da Segunda Ordem na observância da estrita pobreza preconizada pela regra, e estendeu a influência a conventos dos frades menores, fundando o ramo que ficaria conhecido como clarissas coletinas. Esse ramo manteve viva, por séculos depois da morte dela, a mesma pobreza estrita que a fundadora da ordem, Santa Clara, tinha deixado escrita na regra original — e que boa parte dos mosteiros, no tempo de Coleta, já não seguia com o rigor esperado.

Morte, canonização e a data no calendário

Coleta morreu santamente em Gand, na atual Bélgica, em 6 de março de 1447, com 66 anos de idade. Foi canonizada por Pio VII em 24 de maio de 1807, quase quatro séculos depois da morte — um intervalo comum para causas de santidade antigas, mas que aqui mostra como a memória dela seguiu viva entre as próprias clarissas coletinas muito antes de qualquer reconhecimento oficial de Roma. A memória caiu no dia da morte, como manda o costume do martirológio — e é por isso, e não por nenhuma lei, que 6 de março abre o calendário litúrgico com o nome dela. Nenhuma norma federal, estadual ou municipal foi localizada instituindo esse dia, e essa ausência não é falha de apuração: é a própria natureza da data, que nasce de autoridade eclesiástica, e não de processo legislativo.

Santa Coleta de Corbie e o Espírito Santo, uma ligação temática

No Espírito Santo, o dia dificilmente aparece no cartaz da paróquia, e não há notícia de fundação coletina em Guarapari nem em nenhum outro ponto do estado — essa ligação não existe e não deve ser inventada. O que existe é temático: a mesma família religiosa que Coleta reformou, a espiritualidade franciscana, está no estado desde o começo. A cronologia oficial do Convento da Penha registra que foi um irmão leigo franciscano, frei Pedro Palácios, quem chegou ao litoral capixaba em 1558 e ergueu a ermida no alto do rochedo de Vila Velha. Coleta é a mulher que, do outro lado do Atlântico e mais de um século antes, brigou para que essa mesma ordem levasse a sério a pobreza que pregava. Não há notícia de nenhum mosteiro ou convento fundado diretamente por ela ou por suas seguidoras imediatas no litoral capixaba — a ligação que existe de fato é de espiritualidade compartilhada, não de fundação, e essa distinção precisa ficar clara para quem lê a história dos dois lados do oceano.

Outras datas de março

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