
Na virada de trinta e um de dezembro para o primeiro de janeiro, praias de todo o país recebem a Festa de Iemanjá na virada do ano, com flores e oferendas lançadas ao mar. Não existe lei que tenha criado a data, e não há uma autoridade central que a fixe do mesmo jeito em todo lugar.
O que é a Festa de Iemanjá na virada do ano
Iemanjá é o orixá das águas, cultuado no candomblé e na umbanda. No Rio de Janeiro e em boa parte do Sudeste, a homenagem a Iemanjá é feita justamente na virada de trinta e um de dezembro para o primeiro de janeiro, quando praticantes e simpatizantes se reúnem à beira-mar para levar flores, velas e presentes destinados ao orixá. É um gesto simples — a flor lançada à água — que carrega séculos de fé e de resistência, e que se repete todo ano sem precisar de nenhuma convocação oficial.
Por que a data varia de cidade para cidade
A Festa de Iemanjá na virada do ano não é a única data dedicada a essa homenagem, e essa variação é informação, não contradição. Em Salvador, a festa principal acontece em 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, com um dos maiores cortejos do país em torno do orixá. Já em Praia Grande, no litoral paulista, a celebração se firmou em outra data por causa do sincretismo com Nossa Senhora da Conceição, celebrada em 8 de dezembro. Cada terreiro e cada cidade organiza seu próprio calendário de homenagens, moldado pela história local de cada comunidade e pelo santo católico que ali se associou ao orixá do mar.
O sincretismo com as santas do mar
Iemanjá foi historicamente associada a invocações marianas ligadas ao mar, sobretudo Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição. Essa aproximação vem do mesmo mecanismo que ligou Cosme e Damião aos Ibejis: no período escravista, cultuar divindades africanas em público era motivo de perseguição, e o santo católico servia de fachada e de ponte para manter viva a devoção que não podia ser praticada abertamente. Do lado católico, Nossa Senhora dos Navegantes é a padroeira dos que vivem do mar e tem procissão de barcos em cidades litorâneas e ribeirinhas de todo o país, o que ajuda a explicar por que a imagem de barcos enfeitados aparece tanto nas festas marianas quanto nas homenagens a Iemanjá.
Por que não há lei sobre a Festa de Iemanjá na virada do ano
Não existe lei instituindo a Festa de Iemanjá na virada do ano, e não há autoridade central que decida uma data única para todo o país. O calendário dessa homenagem nasce da prática de cada terreiro e de cada comunidade, e é por isso que a mesma celebração aparece em datas diferentes conforme a cidade — sem que isso represente erro ou disputa, apenas jeitos distintos de manter a tradição viva. Diferente de datas com lei federal, aqui não há um texto único para consultar: a referência é a prática de cada terreiro, repetida ano após ano.
Como a data é vivida hoje
A pesquisa histórica registra um dado que costuma surpreender: o réveillon de Copacabana, hoje um dos maiores do mundo, nasceu das homenagens de umbandistas que se reuniam na praia no último dia do ano com flores, velas e oferendas. Foi essa presença que atraiu o público e, depois, a estrutura de shows e fogos que acabou empurrando os praticantes para as margens da própria festa que ajudaram a criar — um caminho inverso ao de outras tradições populares, que costumam crescer a partir da festa oficial, e não o contrário.
No litoral capixaba, a Festa de Iemanjá na virada do ano rende cena parecida: nas praias de Guarapari, na virada, convivem barcos de pescadores, oferendas de flores no mar e a mesma multidão de branco que assiste aos fogos sem saber, muitas vezes, a origem do costume que ajudou a criar aquela noite. É a mesma dinâmica observada em Copacabana, só que em escala menor: a fé que chegou primeiro à areia e, só depois, dividiu espaço com o show pirotécnico da virada.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

