Imagem ilustrativa relacionada a santos Nereu e Aquileu

12 de maio é o dia dos santos Nereu e Aquileu, os soldados do epitáfio de Dâmaso

Documento antigo manuscrito com inscrição em latim sobre mesa de pedra
Foto: Colin Fearing / Pexels

12 de maio é o dia em que o calendário da Igreja lembra os santos Nereu e Aquileu, dois mártires romanos sepultados numa catacumba da via Ardeatina. A memória é antiga, o túmulo é real e foi escavado, mas a biografia que circulou por séculos acabou revista — e o caso vale ser contado justamente por causa disso: poucas vezes se vê uma tradição religiosa dizer, por escrito, que parte do que se repetia não se sustenta.

O epitáfio gravado no século IV

O documento mais antigo e mais seguro sobre os dois é um epitáfio em versos latinos que o papa Dâmaso I, que governou a Igreja de 366 a 384, mandou gravar sobre a sepultura. O texto é curto e direto:

Militiae nomen dederant saevumque gerebant officium, pariter spectantes iussa tyranni, praeceptis pulsante metu servire parati. Mira fides rerum: subito posuere furorem, conversi fugiunt, ducis impia castra relinquunt, proiciunt clipeos faleras telaque cruenta, confessi gaudent Christi portare triumfos.

Traduzido pelo sentido, o poema diz que eles haviam se alistado na milícia e cumpriam um ofício cruel, atentos às ordens do tirano, prontos a obedecer porque o medo os empurrava. Então, de repente, depuseram o furor, converteram-se, fugiram, largaram o acampamento ímpio do chefe, atiraram fora os escudos, as faleras e os dardos ensanguentados e, tendo confessado a fé, alegram-se em carregar os troféus de Cristo. É esse o retrato que a pedra afirma, e nada mais: dois militares que largaram o ofício das armas quando se converteram, e pagaram por isso com a vida.

As duas biografias dos santos Nereu e Aquileu

A versão que se firmou depois, entre os séculos V e VI, conta uma história bem diferente. Nela, os dois não são soldados, e sim eunucos e camareiros de Flávia Domitila, sobrinha do imperador Domiciano; teriam sido desterrados com a patroa para a ilha de Ponza e, mais tarde, decapitados em Terracina. Uma terceira linha da tradição situa a morte no tempo de Diocleciano, imperador de 284 a 305, por volta do ano 304.

As contas não fecham. Uma versão coloca os dois no primeiro século, junto de uma parente do imperador; a outra os coloca duzentos anos depois. Não podem estar as duas certas, e os estudiosos há muito consideram lendária a narrativa dos eunucos, montada quando já se contavam histórias exemplares para explicar túmulos venerados cuja origem exata ninguém lembrava mais.

A basílica achada debaixo da terra

O túmulo, esse, é bem concreto. O arqueólogo Giovanni Battista De Rossi redescobriu em 1874, dentro da catacumba de Domitila, a antiga basílica semissubterrânea erguida sobre a sepultura. Encontrou ali colunas esculpidas, fragmentos de mármore e dois pedaços da inscrição de Dâmaso, achados no próprio lugar para o qual tinham sido feitos — o que é raro e vale muito, porque uma pedra encontrada onde sempre esteve prova coisa que uma pedra achada num depósito não prova. Uma das colunas traz em relevo a cena da execução dos dois.

As relíquias já não estão lá. No século VI foram trasladadas para a igreja dedicada aos dois mártires perto das Termas de Caracalla, em Roma, onde repousam sob o altar-mor junto com as de Domitila, a mesma personagem que a lenda tinha colocado na história deles.

Por que a Igreja enxugou o verbete dos santos Nereu e Aquileu

O Martirológio Romano de 2001 simplificou o registro dos dois e ficou apenas com o que a inscrição sustenta, deixando de fora os detalhes lendários que tinham entrado no verbete ao longo do tempo. Não é um gesto pequeno: significa retirar de um livro oficial uma informação repetida por mais de mil anos porque a fonte dela não resiste a exame. No calendário, 12 de maio permanece como memória facultativa, herança do Calendário Romano Geral revisado em 1969.

Para quem lê e para quem escreve, a lição é prática e serve muito além da sacristia. Diante de um relato antigo, convém perguntar sempre qual é o pedaço que tem prova material por trás e qual é o pedaço que veio de repetição. No caso desses dois mártires, a prova é uma pedra gravada no século IV e encontrada no lugar certo; o resto é história contada depois, bonita e útil para a devoção, mas que não passa no mesmo teste. Guardar essa diferença é o que separa a memória fiel do boato antigo — e é por isso que uma data pequena do calendário termina ensinando algo grande.

Outras datas de maio

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