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31 de outubro: São Wolfgango de Ratisbona, o bispo que formou um imperador

vela acesa diante de altar de pedra em capela antiga
Foto: Robert So / Pexels

31 de outubro é a memória litúrgica de São Wolfgango de Ratisbona, bispo do século X que quase nunca aparece nas páginas de calendário no Brasil. A data é ofuscada pelo que vem logo depois: o Dia de Todos os Santos, em 1º de novembro, e o Dia de Finados, em 2 de novembro. Vale, porém, conhecer a biografia — é a de um professor que virou monge, virou missionário e acabou formando um imperador.

Da Suábia à escola monástica de Reichenau

Ele nasceu por volta de 934, na Suábia, numa família de condes de Pfullingen. Há divergência entre as fontes sobre o ano: algumas registram 937. Aos sete anos recebeu instrução em casa e depois foi enviado à célebre escola monástica de Reichenau, uma das melhores da cristandade de então. Seguiu para a escola catedral de Würzburg, onde estudou com o gramático italiano Estêvão de Novara.

Foi em Würzburg que fez a amizade que decidiria sua vida. Aproximou-se de Henrique, irmão do bispo Poppo, e quando esse Henrique se tornou arcebispo de Trier, em 956, foi com ele. Na nova cidade tornou-se professor na escola catedral e trabalhou pela reforma da arquidiocese — a primeira das reformas que atravessariam sua biografia inteira.

São Wolfgango entre os monges e os magiares

A morte do arcebispo Henrique de Trier, em 964, mudou tudo. Sem o amigo e protetor, ele entrou na Ordem de São Bento, na abadia de Maria Einsiedeln, na Suíça, e foi ordenado sacerdote por Santo Ulrico em 968. Não ficou muito tempo na quietude do claustro: da abadia foi enviado como missionário aos magiares, isto é, aos húngaros, povo então recém-chegado à Europa central e ainda em grande parte fora da fé cristã.

É um percurso pouco comum, e vale sublinhar a sequência. Primeiro o professor, formado nas melhores escolas do tempo. Depois o monge, que troca a cátedra pela regra beneditina. Só então o missionário, mandado para um território onde a língua, os costumes e a religião eram outros. Cada etapa durou anos, e nenhuma delas foi escolha de carreira: em todas, ele foi enviado.

Bispo de Ratisbona no Natal de 972

A missão entre os húngaros durou pouco. Depois da morte do bispo Miguel de Ratisbona, em 23 de setembro de 972, o bispo Piligrim obteve do imperador a nomeação do antigo professor para a sé vaga. Ele assumiu no Natal de 972, em Ratisbona, na Baviera, e ali ficou até morrer, vinte e dois anos depois.

O episcopado foi de reforma, e reforma que começa em casa. Ele reorganizou o mosteiro de Santo Emerano, e em 983 fundou na própria cidade o convento de São Paulo, conhecido como Mittelmünster. Governou pelo exemplo mais do que pelo decreto, segundo os relatos, e ganhou fama de amável com todos. A tarefa que mais o marcaria, porém, não era administrativa: coube a ele a formação do menino que se tornaria o imperador Santo Henrique II. O antigo professor de escola catedral terminou a vida fazendo o que sabia fazer desde o começo.

A morte em Pupping e a canonização de 1052

Estava em viagem quando adoeceu. Morreu na aldeia de Pupping, na Alta Áustria, em 31 de outubro de 994, e o corpo foi levado de volta e sepultado solenemente na cripta de Santo Emerano. A canonização veio em 1052, em Roma, pelo papa Leão IX — quase sessenta anos depois da morte, o que, para os padrões da época, é rápido.

Ele é tido como um dos três grandes santos da Alemanha do século X e chegou até hoje como padroeiro dos carpinteiros e dos marceneiros, invocado também contra doenças do estômago e contra a paralisia. O padroado das profissões da madeira é o que mais aproxima essa figura distante de qualquer cidade brasileira: em toda sede de município há uma marcenaria, uma serralheria, uma carpintaria de obra, e o ofício de quem trabalha com serra e formão tem, no calendário católico, um bispo bávaro do ano mil como intercessor.

Que o culto continua vivo, um episódio recente mostra. Em 26 de outubro de 2020, relíquias do santo foram roubadas da igreja dedicada a ele em Ratisbona. O nome, em alemão, se escreve Wolfgang, forma que aparece na maioria dos textos de devoção publicados em português — e que ajuda a explicar por que a memória do dia 31 de outubro passa despercebida mesmo entre quem acompanha o calendário dos santos.

Outras datas de outubro

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