Imagem ilustrativa relacionada a 42 mártires de Amório

6 de março, o dia dos 42 mártires de Amório, os oficiais que não renegaram a fé

velas acesas diante de ícone antigo pintado em madeira
Foto: Tom Fisk / Pexels

6 de março é a data em que o calendário cristão guarda a memória dos 42 mártires de Amório, um grupo de oficiais e altos funcionários presos depois da queda de uma cidade que hoje não existe mais e mortos sete anos depois por se recusarem a trocar de religião. É uma história de guerra, de diplomacia fracassada e de teimosia, e ela chegou até nós por um caminho muito estreito: o relato de um monge que escreveu logo depois dos fatos, quando ainda havia gente viva para desmenti-lo.

Quem foram os 42 mártires de Amório

Amório era a capital do Tema Anatólico, uma das grandes divisões militares do império bizantino na Ásia Menor, na região da Frígia. A cidade tinha um peso simbólico fora do comum, porque era o berço da dinastia que então reinava em Bizâncio. Perder Amório não era perder uma praça qualquer; era perder o lugar de onde vinha a família que ocupava o trono. Quando a cidade caiu, os homens mais graduados que sobreviveram foram separados do restante dos prisioneiros e enviados como reféns para bem longe dali.

Os textos antigos guardaram poucos nomes, e são esses os que a Igreja repete até hoje. Teodoro Cratero, eunuco da corte, aparece nos relatos como o líder do grupo. Aécio era patrício e estratego do Tema Anatólico, isto é, o comandante militar da província. Constantino Babutzício, com o título de magistro, era o prisioneiro de posto mais alto e havia se casado com uma irmã da imperatriz Teodora. Também são citados o patrício Teófilo, Calisto, Bassoes e um secretário chamado Constantino. Os outros entraram na conta, mas não na memória, e é por isso que a data se refere a um número, e não a uma lista.

O cerco de 838 e a queda da cidade

A origem de tudo está numa campanha do ano anterior. Em 837, o imperador Teófilo, que reinou de 829 a 842, levou suas tropas a território árabe e saqueou a cidade de Sozópetra com uma dureza que a corte do califa tomou como ultraje pessoal. A resposta veio no ano seguinte, e veio grande.

O califa abássida Almotácime, que governou de 833 a 842, reuniu um exército enorme e marchou justamente sobre Amório, escolhendo o alvo pelo que ele significava. O cerco começou em 1º de agosto de 838 e a cidade resistiu cerca de duas semanas antes de cair, em meados daquele mês. As estimativas antigas de mortos variam muito, de trinta mil a setenta mil, e a população que sobreviveu foi escravizada e repartida entre os chefes do exército vencedor. Na viagem de volta, ainda segundo os relatos, outros seis mil prisioneiros foram executados pelo caminho. Foi um desastre militar sem disfarce, e a memória dele pesou no império durante gerações.

Sete anos de cativeiro em Samarra

Os quarenta e dois não foram mortos ali. Valiam mais vivos, porque serviam de moeda numa negociação entre impérios. Foram levados para Samarra, então capital do califado abássida, e ali ficaram presos por sete anos, enquanto de um lado e de outro se discutia preço, troca de prisioneiros e concessões de fronteira.

A negociação nunca deu certo. Teófilo tentou resgatá-los e morreu em 842 sem consegui-lo. As tentativas continuaram sob a imperatriz-regente Teodora e o imperador menino Miguel III, o Ébrio, que reinou de 842 a 867, e também elas fracassaram. Aos prisioneiros, segundo a tradição, foi feita então uma oferta muito simples: converter-se ao islã e viver. Em 6 de março de 845 os quarenta e dois foram executados em Samarra por terem recusado a proposta. A recusa é o único ato deles que a história registrou com clareza, e é justamente esse ato que o calendário guarda.

Por que a memória dos 42 mártires de Amório atravessou mais de mil anos

Quem contou a história foi um monge chamado Evódio, que escreveu pouco depois da execução. O texto dele é apontado pelos estudiosos como o último exemplar de um gênero literário inteiro, o do martírio coletivo, e traz uma tese que o autor não escondia: Evódio lia o desastre militar e o longo cativeiro como castigo divino pela volta do iconoclasmo, a política de destruição de imagens sagradas adotada no reinado de Teófilo. Vale registrar essa intenção, porque quem lê um documento antigo sem saber para que ele foi escrito acaba tomando a tese do autor por descrição neutra dos fatos.

Ainda assim, a data resistiu. O 6 de março continua reservado ao grupo tanto no Martirológio Romano quanto no calendário da Igreja Ortodoxa, e é um dos poucos casos em que as duas tradições lembram exatamente as mesmas pessoas no mesmo dia. Curiosamente, ao contrário de outros martírios coletivos famosos, eles quase nunca aparecem representados na arte bizantina: ficaram no texto e no calendário, não na pintura.

Para o leitor de hoje, a data serve menos como aula de geografia antiga e mais como exercício de leitura. Ela lembra que quase tudo o que sabemos sobre gente que viveu há mais de mil anos chegou até aqui por um punhado de páginas escritas com intenção declarada, e que ler bem é separar o que o documento afirma do que o autor queria provar. É um cuidado que vale para o martirológio e vale para qualquer papel velho.

Outras datas de março

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