Santo Hilário de Poitiers se converteu por leitura, foi bispo casado e enfrentou o imperador na maior disputa teológica do século IV.

Santo Hilário de Poitiers: o bispo que se converteu lendo o Evangelho

Livro antigo aberto sobre púlpito de madeira em igreja
Foto: Gustavo Galeano Maz / Pexels

Hilário nasceu em Poitiers, na Gália romana, por volta do ano 315, numa família pagã e abastada. A conversão de Santo Hilário de Poitiers ao cristianismo não veio de pregação alheia, mas de leitura: ele mesmo contou que o prólogo do Evangelho de João foi o que o converteu, já adulto.

Santo Hilário de Poitiers e a conversão pela leitura

Diferente de boa parte dos santos cuja conversão é atribuída a visão, milagre ou pregação de terceiros, o caminho de Hilário até o cristianismo passou pelo estudo de um texto. Essa origem intelectual da fé ajuda a explicar o que ele faria depois, já como bispo: em vez de apelar só à autoridade, escreveu tratados extensos para sustentar por argumento aquilo em que acreditava.

Casado, pai de família, bispo

Hilário era casado e pai de família quando foi eleito bispo da própria Poitiers, por volta de 350, num tempo em que o clero ainda podia ser casado — uma realidade bem diferente da disciplina que a Igreja adotaria mais tarde para o clero latino. A eleição de um leigo casado, convertido já adulto, para bispo da cidade mostra como os critérios de escolha do clero eram outros naquele século.

Ser escolhido bispo pela própria comunidade em que vivia, e não enviado de fora, também diz algo sobre a estrutura ainda descentralizada da Igreja no século IV: cada cidade elegia sua própria liderança religiosa entre os fiéis que ali moravam, com peso considerável dado à reputação pessoal e ao conhecimento acumulado — no caso de Hilário, o conhecimento vinha justamente do estudo que o tinha convertido.

O bispo que enfrentou o imperador

O nome de Hilário ficou ligado à briga teológica que dominou o século IV: o arianismo, doutrina que negava que Cristo fosse da mesma substância do Pai. Hilário enfrentou de frente o imperador Constâncio II, que apoiava os arianos, e por isso foi desterrado para a Frígia, na atual Turquia, onde passou quatro anos e escreveu o tratado De Trinitate, doze livros que se tornaram a principal defesa latina da doutrina da Trindade.

Escrever doze livros de teologia durante o próprio desterro é um detalhe que diz muito sobre a disposição de Hilário: o exílio, pensado pelo imperador como punição e afastamento, virou período de produção intelectual intensa. Em vez de silenciar o bispo, o desterro para a Frígia deu a ele tempo e distância suficientes para sistematizar, num único tratado extenso, a defesa doutrinária que passaria a ser referência para gerações seguintes de teólogos latinos.

De volta à Gália, doutor da Igreja mil e quinhentos anos depois

O exílio saiu caro ao imperador: Hilário pregava tanto no desterro que acabou devolvido à Gália, na descrição irônica dos cronistas, para que parasse de perturbar o Oriente. Morreu em 367 e só foi proclamado doutor da Igreja em 1851, pelo papa Pio IX — mil e quinhentos anos depois da morte. Recebeu o apelido de “Atanásio do Ocidente”, numa comparação com outro grande defensor da mesma doutrina trinitária na parte oriental do mundo cristão daquele século.

Poucas figuras do século IV deixaram um rastro tão duplo quanto Hilário: de um lado, o teólogo lembrado por um tratado que ainda é referência em estudos de doutrina cristã; de outro, o nome que sobrevive, quase por acaso, num termo acadêmico usado até hoje em universidades e tribunais de outro continente, mil e seiscentos anos depois de ele ter nascido na Gália romana.

A memória litúrgica de Santo Hilário de Poitiers cai em 13 de janeiro, e na Inglaterra o nome dele batiza até hoje o Hilary term, o primeiro período letivo do ano em Oxford e nos tribunais britânicos — sinal do quanto essa data já organizou o calendário do mundo cristão ao longo dos séculos. Não existe, nem caberia, lei brasileira instituindo a festa de um santo: o registro que fixa o dia 13 de janeiro é eclesiástico, o Martirológio Romano e o calendário da própria Igreja.

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